Na última sexta‑feira, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, assinou um decreto que vai mudar a forma como a carne bovina chega às mesas americanas. A partir de 2026, 80 mil toneladas a mais de carne desossada da Argentina serão importadas, em quatro lotes de 20 mil toneladas cada. A primeira leva começa já em 13 de fevereiro e a última deve fechar em 31 de dezembro deste ano.
Para quem acompanha o mercado de alimentos, a notícia tem mais camadas do que parece à primeira vista. Não se trata apenas de um acordo comercial; é uma resposta a uma série de problemas que vêm se acumulando nos EUA: rebanho em queda, preços recordes e um consumidor cada vez mais apertado. Vamos destrinchar o que está acontecendo, por que a Argentina entrou na jogada e, principalmente, como isso pode impactar o seu bolso.
Por que os EUA precisam de carne argentina?
O Departamento de Agricultura dos EUA (USDA) divulgou que o rebanho bovino americano está no menor nível desde 1951. Secas prolongadas nos estados do oeste, custos de alimentação nas alturas e a suspensão das importações de gado mexicano – devido ao medo da praga da bicheira‑do‑Novo‑Mundo – reduziram drasticamente a oferta interna. Com menos vacas no pasto, os preços da carne bovina dispararam, atingindo recordes que deixaram os consumidores americanos incomodados.
Em meio a esse cenário, a estratégia de Trump tem dois objetivos claros: garantir a oferta de carne a preços mais competitivos e, ao mesmo tempo, pressionar os pecuaristas nacionais, que estão lucrando muito com os preços altos. Ao comprar carne desossada, a mais utilizada na produção de embutidos, o governo americano tenta equilibrar o mercado interno e, quem sabe, abrir espaço para negociações futuras sobre tarifas e cotas.
Por que a Argentina?
A Argentina tem tradição em produção de carne de alta qualidade e, nos últimos anos, vem buscando novos mercados para compensar a queda nas exportações para a China. O país também tem um excedente de produção que pode ser aproveitado sem causar rupturas internas. Além disso, a proximidade geográfica e os acordos comerciais já existentes facilitam a logística.
Para os argentinos, o acordo representa uma oportunidade de diversificar destinos e reduzir a dependência de um único comprador. É um ganho mútuo: os EUA recebem um suprimento estável, enquanto a Argentina garante receitas em um momento de volatilidade nos mercados globais.
Impactos para o consumidor americano
Se tudo correr como o planejado, os americanos podem esperar uma leve queda nos preços da carne processada – como salsichas, hambúrgueres e mortadelas – nos próximos anos. No entanto, a diferença não será drástica, já que a maior parte da carne importada ainda passa por processos de industrialização que adicionam custos.
Para quem tem um orçamento apertado, até mesmo uma redução de 5% a 10% no preço da carne pode fazer diferença no final do mês. Por outro lado, os pecuaristas domésticos podem sentir a pressão, pois terão que competir com um produto estrangeiro que chega a preços mais competitivos. Isso pode levar a uma renegociação de contratos e, possivelmente, a incentivos governamentais para a produção local.
E o Brasil nesse tabuleiro?
Curiosamente, enquanto os EUA enfrentam escassez, o Brasil acabou de ultrapassar o país norte‑americano como maior produtor mundial de carne bovina em 2025, segundo o USDA. Esse marco reforça a posição do Brasil como fornecedor-chave para mercados globais, incluindo a própria América do Norte.
Embora a notícia do decreto não mencione diretamente o Brasil, o cenário evidencia a competitividade do setor latino‑americano. Se a Argentina consegue vender mais para os EUA, o Brasil pode buscar ampliar sua presença em outros mercados, como a Europa e a Ásia, onde a demanda por proteína animal continua em alta.
O que isso significa para quem mora no Brasil?
Para o consumidor brasileiro, a decisão de Trump pode ter efeitos indiretos. Primeiro, o aumento das exportações argentinas pode pressionar os preços da carne no Mercosul, já que a oferta regional aumenta. Segundo, a maior visibilidade da carne sul‑americana nos EUA pode abrir portas para acordos comerciais mais amplos, beneficiando exportadores brasileiros.
Além disso, a situação destaca a importância de políticas agrícolas estratégicas. Se os produtores locais perceberem que a concorrência internacional está se intensificando, podem investir em tecnologias que aumentem a produtividade e melhorem a qualidade, garantindo que o Brasil continue competitivo.
Perspectivas futuras
O decreto de Trump tem validade até o fim de 2026, mas os efeitos podem se estender além desse período. Se a carne argentina se mostrar bem aceita pelos consumidores americanos, é provável que o acordo seja renovado ou até ampliado. Por outro lado, se os preços não caírem como esperado, a pressão sobre os pecuaristas dos EUA pode levar a novas medidas de proteção ao produtor interno.
Para quem acompanha o mercado global de alimentos, o caso serve como um lembrete de como fatores climáticos, sanitários e políticos se entrelaçam. Uma seca no interior dos EUA, uma praga na fronteira mexicana e a decisão de um presidente podem, juntos, mudar o fluxo de toneladas de carne ao redor do planeta.
Em resumo, a assinatura do decreto pode parecer apenas mais uma notícia de política externa, mas traz lições valiosas sobre a interdependência das cadeias produtivas. Se você gosta de estar por dentro de como decisões governamentais chegam até o seu prato, vale a pena acompanhar os próximos relatórios do USDA e os números de importação da Argentina nos próximos meses.



