Se você costuma comprar café na padaria, no supermercado ou até mesmo aquele pó “sabor café” que aparece nas prateleiras, provavelmente já ouviu falar de “café fake”. Em 2025, dez marcas foram alvo de ações do governo federal – seis tiveram a venda proibida e quatro tiveram lotes recolhidos. Mas o que isso realmente significa para o consumidor e como identificar um produto seguro?
Como chegamos a esse cenário?
O Ministério da Agricultura (MAPA) e a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) intensificaram as fiscalizações nos últimos anos, principalmente após denúncias de consumidores que encontraram pedras, areia ou até fragmentos semelhantes a vidro em pacotes de café. As normas brasileiras são claras: o café deve conter, no máximo, 1% de impurezas naturais (galhos, folhas, cascas) e não pode ter matérias‑estranhas como pedras, sementes de outras plantas ou resíduos de produção.
Marcas que tiveram lotes recolhidos
Na segunda‑feira (22), o MAPA determinou o recolhimento de 23 lotes de quatro marcas:
- Terra da Gente – 18 lotes
- Jalapão – 2 lotes
- Made in Brazil – 2 lotes
- Q‑Delícia – 1 lote
Os laboratórios identificaram impurezas acima do limite permitido, como pedras, areia e sementes de plantas invasoras. O Ministério orientou que quem já comprou esses lotes pare de consumir imediatamente e solicite a troca ou o reembolso, amparado pelo Código de Defesa do Consumidor.
Marcas proibidas: o caso do “café fake”
Seis marcas foram proibidas ao longo de 2025. Três delas – Melissa, Pingo Preto e Oficial do Brasil – foram classificadas como “café fake” porque continham a toxina ocratoxina A (OTA) e usavam ingredientes de baixa qualidade, como grãos crus ou resíduos. As embalagens alegavam “polpa de café” e “café torrado e moído”, mas a realidade era bem diferente: o Ministério chegou a chamar o produto de “lixo da lavoura”.
Outras proibições tiveram motivações distintas:
- Café Câmara – encontrado fragmentos semelhantes a vidro e selo de pureza falsificado da ABIC.
- Fellow Criativo (Cafellow) – continha extrato de cogumelo não avaliado, fazia alegações de controle de insulina e redução de colesterol sem aprovação da Anvisa, além de confundir o consumidor ao rotular o produto como café.
- Vibe Coffee – inicialmente apreendida por falta de rastreabilidade, ausência de procedimentos operacionais padrão e higienização inadequada. Após correções e nova inspeção no Espírito Santo, a proibição foi revogada e os novos lotes (a partir de 15/12/2025) foram liberados.
O que a lei diz sobre o que pode ser vendido como café?
A legislação brasileira define café como produto que contenha exclusivamente o grão de Coffea arabica ou Coffea canephora. Até 1% de impurezas naturais (galhos, folhas, cascas) é tolerado, mas qualquer material estranho – como pedras, areia, sementes de outras espécies, corantes, açúcar ou caramelo – é proibido. Essa regra protege a saúde do consumidor e preserva a reputação do Brasil como um dos maiores produtores de café do mundo.
Como identificar um “café fake” na prateleira?
Algumas dicas práticas para evitar cair em armadilhas:
- Leia o rótulo com atenção. Se o produto menciona “pó para preparo de bebida sabor café” ou “bebida sabor café”, desconfie. O termo “café” deve aparecer apenas quando o grão está presente.
- Verifique a lista de ingredientes. A presença de aditivos como “extrato de cogumelo”, “aroma artificial” ou “açúcar” indica que não se trata de café puro.
- Observe a procedência. Selos de certificação da ABIC ou do Ministério da Agricultura são bons indicadores, mas atenção: falsificações acontecem.
- Cheque a data de validade e o lote. Produtos com lotes antigos que foram recolhidos podem ainda estar circulando em mercados menores.
- Cheire antes de comprar. Café de verdade tem aroma característico. Se o cheiro for fraco ou “químico”, desconfie.
Impactos para o consumidor e para o mercado
Para o consumidor, a principal consequência é a necessidade de ficar mais atento às informações do rótulo e, em caso de dúvida, procurar o SAC da marca ou a Anvisa. O recall de lotes pode gerar transtorno, mas também traz segurança: quem tem o produto em casa pode solicitar troca ou reembolso sem burocracia.
Para o mercado, as ações de fiscalização servem como alerta para fabricantes que ainda não adotaram boas práticas de controle de qualidade. Empresas que investem em rastreabilidade, boas condições sanitárias e transparência ganham a confiança do público e evitam prejuízos financeiros por recalls.
O futuro do café no Brasil
O Brasil continua sendo o maior exportador de café do mundo, e a qualidade do produto é um dos pilares da sua reputação. As recentes proibições reforçam a importância de manter padrões rigorosos, tanto para o consumo interno quanto para a exportação. A tendência é que a fiscalização se torne ainda mais tecnológica, com uso de análises genômicas para confirmar a origem dos grãos e sensores de detecção de contaminantes em tempo real.
Além disso, o consumidor está cada vez mais exigente. A busca por cafés especiais, orgânicos e de origem única cresce, e isso pressiona os produtores a melhorar a cadeia produtiva. Marcas que entregam transparência – mostrando de onde vêm os grãos, como são processados e quais certificações possuem – tendem a se destacar.
O que você pode fazer agora?
Se ainda tem algum dos lotes recolhidos em casa, descarte ou devolva ao ponto de venda. Caso tenha comprado alguma das marcas proibidas, entre em contato com o SAC e solicite a troca. E, claro, compartilhe essa informação com amigos e familiares – quanto mais gente souber identificar um “café fake”, menor será o mercado para produtos inseguros.
Ficar de olho nas notícias de consumo pode parecer cansativo, mas é um pequeno esforço que protege a saúde e o bolso. Afinal, café bom merece ser apreciado sem dúvidas sobre sua procedência.



