Se você, como eu, não vive sem aquele cafezinho pela manhã, deve ter sentido o aperto no bolso nos últimos meses. O preço do café disparou em 2025, chegou a registrar a maior inflação acumulada em 12 meses desde a adoção do real, e até surgiram notícias de cafés “fake” feitos a partir de resíduos da lavoura. Mas será que 2026 trará alívio de verdade? Vamos conversar sobre o que os especialistas apontam, como o clima, a produção e a demanda mundial influenciam o preço, e o que isso significa para quem compra o grão nas cafeterias ou nas prateleiras do supermercado.
O que está acontecendo agora?
Em fevereiro de 2025 o preço do café atingiu picos históricos. A alta foi impulsionada por duas forças principais:
- Colheitas ruins nos últimos anos: calor intenso e seca prolongada reduziram a produtividade em várias regiões produtoras.
- Demanda crescente: o consumo global de café continua em alta, especialmente nos Estados Unidos, que recentemente retiraram a tarifa de 50% sobre o café brasileiro.
Esses fatores criaram um desequilíbrio entre oferta e demanda, elevando os preços. Ainda assim, o cenário para 2026 tem algumas nuances que podem mudar o panorama – mas não da forma que você talvez imagine.
Por que a queda será pequena?
Renato Garcia Ribeiro, pesquisador do Cepea, explica que, embora o clima de fim de 2025 tenha sido mais favorável – com chuvas na fase de florada – os cafezais ainda não se recuperaram totalmente. O café é uma cultura bienal: após a colheita, as plantas precisam de um período de descanso para regenerar os ramos que dão os grãos. Isso significa que, mesmo com boas chuvas, a produção de 2026 ainda dependerá de galhos que ainda estão em desenvolvimento.
Além disso, a maioria dos talhões ainda está se recuperando de cinco anos de condições climáticas adversas. Como diz Ribeiro: “Grande parte dos talhões ainda está se recuperando”. Por isso, a queda que já vimos – como o recuo de 0,23 % em agosto, o primeiro desde dezembro de 2023 – tende a ser gradual.
Clima: o grande vilão (e às vezes aliado)
O clima tem papel duplo no ciclo do café:
- Temperatura ideal: o arábica, variedade mais cultivada no Brasil, prefere entre 18 °C e 22 °C.
- Chuvas na fase de florada: são essenciais para o desenvolvimento dos botões que darão os frutos.
Para a segunda quinzena de dezembro e o início de 2026, as previsões são otimistas: há expectativa de chuvas adequadas nos primeiros meses do ano. Se isso acontecer, a produção de arábica pode melhorar, ajudando a recompor os estoques globais. Mas, como alerta o pesquisador, “não é possível confiar totalmente no clima”. Em 2024 tivemos boas chuvas, mas fevereiro e março de 2025 foram marcados por 45 dias de calor e seca, prejudicando a safra final.
Estoque apertado, preço ainda alto
Mesmo que a produção aumente ligeiramente, o estoque de café no Brasil permanece baixo. O Itaú BBA projeta que, para a safra 2026/2027, a produção mundial ainda será menor que o consumo em cerca de 7 milhões de sacas. Isso significa que, até que os grãos cheguem ao mercado – o que acontece a partir de setembro, após a colheita em abril – a oferta ficará limitada.
Essa escassez mantém a pressão sobre os preços. A demanda interna brasileira está em alta, e o mercado externo, especialmente os Estados Unidos, está comprando mais após o fim da tarifa de 50 % que o governo Trump impôs ao café brasileiro.
Robusta ganha espaço
Com o arábica vulnerável a altas temperaturas, muitos produtores têm investido no café robusta, que tolera melhor calor e seca. Embora o robusta seja menos apreciado pelos consumidores que preferem o sabor mais suave do arábica, ele tem se tornado parte importante dos blends (misturas de grãos) e ajuda a aliviar o preço para o consumidor final.
O robusta, porém, tem um ciclo de produção mais longo: são necessários cerca de dois anos para que a plantação dê frutos. Portanto, seu efeito nos preços será percebido mais adiante, mas já está contribuindo para reduzir a pressão imediata.
O que isso significa para você?
Se você costuma comprar café em cápsulas, moído ou em grãos, aqui vão alguns conselhos práticos:
- Planeje suas compras: aproveite promoções sazonais, mas evite estocar demais, já que o café tem validade limitada.
- Experimente blends: misturas de arábica e robusta costumam ser mais baratas e ainda oferecem boa qualidade.
- Valorize a origem: cafés de regiões com microclimas favoráveis, como a zona da Mata em Minas Gerais, podem ter preço mais estável.
- Fique de olho nas notícias: variações climáticas e políticas comerciais podem mudar o cenário rapidamente.
Olhar para o futuro
O que podemos esperar nos próximos anos?
- Investimento em sombra: produtores estão plantando árvores para criar sombra, ajudando a reduzir o estresse térmico nas plantas.
- Tecnologia e manejo: uso de sensores de solo, irrigação de precisão e variedades mais resistentes podem melhorar a produtividade.
- Diversificação de mercados: o Brasil pode buscar novos destinos de exportação, reduzindo a dependência de poucos compradores.
Essas estratégias podem tornar o preço do café mais estável a médio prazo, mas, por enquanto, a combinação de clima incerto, estoque baixo e demanda alta mantém os preços em patamares que ainda não são “baratos”.
Resumo rápido
- Preço do café deve cair levemente em 2026, mas não será barato.
- Clima favorável pode melhorar a produção, mas a recuperação total dos talhões ainda leva tempo.
- Estoque global permanece apertado, pressionando os preços.
- Robusta está ganhando espaço, ajudando a conter o preço, mas seu efeito será sentido a longo prazo.
Em resumo, se o seu bolso sente o peso do café caro, a boa notícia é que a queda de preços pode chegar, ainda que de forma moderada. Enquanto isso, vale a pena ficar atento às opções de blends, aproveitar promoções e apoiar produtores que investem em práticas sustentáveis – como o sombreamento – que podem garantir um café de qualidade sem sacrificar o bolso.


