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Brasil na frente da disputa por minerais críticos: o que isso significa para a gente?

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Brasil na frente da disputa por minerais críticos: o que isso significa para a gente?

Na última quarta‑feira, o Brasil participou de um encontro em Washington que, à primeira vista, pode parecer mais um dos tantos eventos diplomáticos de rotina. Mas, se a gente olhar com calma, percebe que há muito mais em jogo: a disputa por minerais críticos, aquele conjunto de recursos que alimenta tudo, desde smartphones até turbinas de energia e veículos elétricos.



O vice‑presidente dos Estados Unidos, JD Vance, usou a reunião para anunciar a intenção de criar um bloco comercial focado nesses minerais. A ideia é reunir países que têm reservas estratégicas e, juntos, garantir o abastecimento dos fabricantes ocidentais, reduzindo a dependência da China. O Brasil, que tem a segunda maior reserva mundial de terras raras, entrou na conversa, mas ainda não decidiu se vai aderir ao grupo.

Para quem não está familiarizado com o termo, “minerais críticos” são aqueles que, apesar de serem poucos em quantidade, são essenciais para tecnologias de ponta. Pense em cobre, níquel, nióbio, lítio e, claro, as terras raras – esses últimos são usados em ímãs de alta performance, telas de LCD, baterias e muito mais. Quando a China decidiu segurar parte da sua produção em 2023, o impacto foi sentido em todo o mundo, provocando escassez e aumento de preços.



Então, por que o Brasil está no radar dos EUA? Primeiro, porque o país tem um potencial mineral gigantesco, mas ainda pouco explorado. A segunda maior reserva de terras raras do planeta está aqui, atrás apenas da China. Além disso, o Brasil tem grandes depósitos de nióbio – o maior produtor mundial – e cobre, que já abastece indústrias de energia e construção.

Mas o governo Lula tem deixado claro que não quer ser apenas um exportador de matéria‑prima. Em declarações recentes, o presidente afirmou que quem quiser esses recursos vai ter que “industrializar o nosso país”. Em outras palavras, a ideia é transformar o Brasil em um player que não só vende o minério bruto, mas que também produz os componentes finais, como chips, baterias e turbinas.

Essa postura tem duas implicações importantes para a gente, cidadão brasileiro:

  • Geração de empregos qualificados. Se o Brasil começar a montar fábricas de alta tecnologia, vai precisar de engenheiros, técnicos e trabalhadores especializados. Isso pode mudar o perfil da mão‑de‑obra nacional, que hoje ainda depende muito de setores como agricultura e mineração de baixo valor agregado.
  • Desenvolvimento de infraestrutura. Para processar minerais críticos, é preciso investir em energia limpa, transporte ferroviário, portos modernos e laboratórios de pesquisa. Esses investimentos podem melhorar a logística geral do país, beneficiando outros setores.

Mas nem tudo são flores. Existem desafios que o Brasil precisa encarar antes de fechar o negócio com o bloco norte‑americano.



1. Burocracia e regulamentação. O processo de licenciamento ambiental no Brasil ainda é moroso. Projetos que poderiam avançar em poucos meses nos EUA podem ficar anos parados aqui. Isso reduz a atratividade para investidores estrangeiros que buscam rapidez.

2. Competição internacional. Além dos EUA, a União Europeia, a Índia e até a própria China estão oferecendo incentivos para que países como o Brasil se juntem a suas cadeias de suprimentos. O Brasil precisa escolher bem a quem alinhar seus interesses.

3. Sustentabilidade. A mineração de terras raras tem impactos ambientais significativos, incluindo geração de resíduos radioativos e contaminação de águas. O Brasil tem a chance de liderar um modelo mais verde, mas isso exige políticas rígidas e tecnologias de reciclagem ainda em desenvolvimento.

Vamos colocar tudo isso em perspectiva histórica. Na década de 1970, o Brasil começou a explorar seu nióbio em grande escala, mas a maior parte do minério era exportada como concentrado. Só nos últimos anos, com a ascensão dos veículos elétricos, o nióbio ganhou nova relevância, pois é usado em baterias de alta capacidade. Hoje, o país produz cerca de 90% do nióbio mundial, mas ainda depende de países como a China para o refino.

O que mudou nos últimos tempos? Primeiro, a geopolítica: a guerra comercial entre EUA e China trouxe à tona a necessidade de diversificar as fontes de minerais. Segundo, a tecnologia: avanços em mineração de baixo impacto e reciclagem de resíduos permitem que países com regras ambientais mais rígidas – como o Brasil – se posicionem como fornecedores responsáveis.

Se o Brasil decidir entrar no bloco dos EUA, ele poderá se beneficiar de acordos de financiamento, como o Projeto Vault, que já conta com US$ 10 bilhões do banco de exportação americano e mais US$ 2 bilhões de capital privado. Esses recursos poderiam ser direcionados a projetos de mineração e refino, além de centros de pesquisa.

Mas há outra possibilidade: o Brasil pode escolher permanecer neutro, mantendo a porta aberta para múltiplos parceiros. Isso daria ao país mais liberdade para negociar melhores condições e evitar ficar preso a uma única aliança. Essa estratégia tem sido adotada por países como a Austrália, que mantém acordos tanto com os EUA quanto com a UE.

Qual caminho parece mais sensato? Eu acho que a resposta está no meio‑termo. O Brasil tem que garantir que qualquer acordo traga, antes de tudo, transferência de tecnologia. Não adianta receber investimentos se, ao final, continuarmos exportando apenas minério bruto. A meta deve ser criar um ecossistema onde o minério entra, passa por processos de refino, é transformado em componentes e volta ao mercado como produto de alto valor agregado.

Para quem tem curiosidade sobre como isso afeta o bolso do cidadão, pense assim: hoje, um celular brasileiro usa componentes feitos em vários continentes – China, Coreia do Sul, EUA, Europa. Se o Brasil começar a produzir alguns desses componentes aqui, pode reduzir custos de importação e, eventualmente, baixar o preço final dos produtos. Além disso, a geração de empregos de alta qualificação costuma ter salários maiores, o que eleva o padrão de vida.

Outro ponto importante é a questão da soberania econômica. Dependência de recursos críticos controlados por poucos países pode ser um risco estratégico. Se o Brasil conseguir desenvolver sua própria cadeia de produção, terá mais autonomia para decidir políticas industriais, sem precisar ceder a pressões externas.

Mas, como tudo na vida, há contrapartidas. Investimentos em infraestrutura e tecnologia demandam recursos financeiros. O país já enfrenta desafios fiscais e precisa equilibrar prioridades como saúde, educação e segurança. Por isso, a decisão de entrar no bloco dos EUA deve ser acompanhada de um plano claro de financiamento, que inclua parcerias público‑privadas e, quem sabe, fundos de desenvolvimento sustentável.

Em resumo, a reunião de Washington pode ser vista como um ponto de partida, não como uma sentença final. O Brasil tem a oportunidade de se posicionar como um hub de minerais críticos, mas isso exige visão estratégica, vontade política e, sobretudo, um compromisso com a industrialização nacional.

Se você, leitor, está se perguntando como acompanhar essa história, fique de olho nas próximas declarações do Ministério de Minas e Energia e nas movimentações do Itamaraty. Também vale acompanhar as discussões no Congresso sobre a criação de incentivos fiscais para indústrias de refino e manufatura de alta tecnologia.

Por fim, deixo um convite: que tal refletir sobre o papel que cada um de nós pode ter nessa transição? Seja apoiando políticas que incentivem a pesquisa e desenvolvimento, seja consumindo produtos fabricados localmente, ou mesmo estudando áreas relacionadas a mineração e tecnologia. O futuro dos minerais críticos no Brasil depende tanto das decisões de Brasília quanto da participação ativa da sociedade.