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Brasil, EUA e a corrida pelos minerais críticos: o que isso significa para a gente?

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Brasil, EUA e a corrida pelos minerais críticos: o que isso significa para a gente?

Na última quarta‑feira (4) o Brasil esteve presente numa reunião em Washington liderada pelo vice‑presidente dos EUA, J.D. Vance. O papo foi sobre a criação de um bloco comercial de minerais críticos – aqueles que são essenciais para tecnologias como baterias, chips e veículos elétricos. A proposta ainda está no ar, e o governo brasileiro está avaliando se entra ou não nessa aliança.



Para quem não acompanha de perto, pode parecer só mais um encontro diplomático. Mas, na prática, isso tem tudo a ver com o futuro da nossa economia, da nossa indústria e até da nossa conta‑bancária. Por isso, resolvi colocar tudo em ordem, explicar o que são esses minerais, por que os EUA estão tão interessados e como o Brasil pode se posicionar.

Minerais críticos: o que são e por que são tão valiosos?

Minerais críticos são aqueles que, apesar de serem poucos no planeta, são indispensáveis para a produção de alta tecnologia. Pense nas baterias de smartphones, nos painéis solares, nos veículos elétricos, nos computadores de última geração. Sem eles, a cadeia produtiva moderna simplesmente não funciona.

  • Terras raras: um conjunto de 17 elementos usados em ímãs, catalisadores e telas.
  • Níquel: base das baterias de íon‑lítio.
  • Cobre: condutor essencial em quase tudo que tem eletricidade.
  • Nióbio: fundamental para a produção de aço de alta resistência, muito usado em turbinas e na indústria aeroespacial.

O Brasil tem a segunda maior reserva de terras raras do mundo, atrás só da China, e também é um grande produtor de níquel e nióbio. Isso coloca o país numa posição de destaque – e de vulnerabilidade – no tabuleiro geopolítico.



Por que os EUA querem um bloco de minerais críticos?

Depois que a China começou a usar sua influência sobre a cadeia de suprimentos de terras raras como ferramenta de pressão – lembram o episódio de 2020, quando restringiu exportações para os EUA – Washington decidiu que não pode depender de um único fornecedor. O então presidente Trump lançou o “Projeto Vault”, um fundo de US$ 12 bilhões para garantir acesso a esses recursos.

J.D. Vance, agora vice‑presidente, está tentando transformar essa estratégia em um acordo multilateral, reunindo aliados que tenham reservas ou capacidade de refino. Entre os participantes já confirmados estão Coreia do Sul, Índia, Japão, Alemanha e até a República Democrática do Congo.

O que o Brasil tem a ganhar – e a perder?

O governo brasileiro, segundo fontes do Planalto, está aberto a parcerias que tragam “valor agregado”. Ou seja, não basta só vender o minério bruto; o país quer participar da cadeia de valor, desenvolvendo refino, produção de componentes e, quem sabe, até montagem de produtos finais.

Mas há um alerta importante: o presidente Lula já declarou que o Brasil não será apenas exportador de minerais críticos. Ele enfatizou que quem quiser usar esses recursos terá que “industrializar o nosso país”. Em outras palavras, a ideia é transformar a matéria‑prima em empregos, tecnologia e receita.

Isso traz alguns desafios:

  • Investimento em infraestrutura: fábricas de refino e laboratórios de pesquisa são caros e precisam de apoio estatal.
  • Capacitação de mão‑de‑obra: engenheiros, químicos e técnicos precisam ser formados.
  • Regulação ambiental: mineração tem impactos; o Brasil tem que equilibrar crescimento e preservação.

Se o Brasil conseguir avançar nessas frentes, a parceria com os EUA pode trazer tecnologia de ponta, financiamentos (como os US$ 10 bilhões do Banco de Exportação e Importação dos EUA) e acesso a mercados que pagam bem por produtos de alto valor agregado.



Como isso afeta a vida do cidadão comum?

Talvez você esteja se perguntando: “E eu, que não trabalho com mineração, como isso me impacta?”. A resposta está na cadeia de consumo. Se o Brasil conseguir transformar seus minerais em componentes, podemos ter:

  • Carros elétricos mais baratos, produzidos aqui mesmo.
  • Eletrônicos com baterias de maior duração e preço mais acessível.
  • Mais empregos em áreas de alta tecnologia, com salários acima da média.

Além disso, ao diversificar suas exportações, o Brasil reduz a dependência de commodities tradicionais (soja, minério de ferro) e fica menos vulnerável a flutuações de preço no mercado internacional.

Os próximos passos – o que esperar?

Até agora, nada está definitivo. O Itamaraty confirmou a participação brasileira, mas ainda não revelou se o país vai aderir ao bloco. A decisão deve ser tomada “de forma bilateral” e não será precipitada.

Alguns sinais que podemos observar nos próximos meses:

  1. Visita do presidente Lula a Washington para conversar diretamente com o vice‑presidente Vance.
  2. Negociações sobre financiamento de projetos de refino e pesquisa.
  3. Possível assinatura de acordos com empresas estrangeiras (por exemplo, joint ventures com a BHP ou a Vale) para desenvolver minas e unidades de processamento.

Se tudo avançar, poderemos ver, ainda em 2026, anúncios de novos parques industriais focados em tecnologia verde, impulsionados por recursos nacionais.

Riscos e críticas

Nem tudo são flores. Alguns analistas alertam que depender de acordos com potências estrangeiras pode limitar a soberania nacional. Além disso, há preocupações ambientais – a mineração de terras raras costuma gerar resíduos tóxicos.

Por isso, a sociedade civil tem cobrado transparência: quem vai garantir que os projetos respeitem o meio ambiente? Como será a distribuição dos benefícios entre regiões? São perguntas que precisam de respostas claras antes que o Brasil dê o próximo passo.

Conclusão

Em resumo, a reunião liderada por J.D. Vance pode ser um ponto de inflexão para o Brasil. Se o país conseguir transformar suas reservas de minerais críticos em uma base industrial robusta, teremos mais empregos, tecnologia avançada e, quem sabe, um papel de liderança nas cadeias globais de valor.

Mas isso exige planejamento cuidadoso, investimento em infraestrutura, educação e, sobretudo, um debate aberto sobre os impactos sociais e ambientais. Fique de olho nas próximas notícias – a decisão que o governo tomar nos próximos meses pode mudar o rumo da nossa economia nos próximos décadas.