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Brasil, EUA e a corrida pelos minerais críticos: o que está em jogo?

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Brasil, EUA e a corrida pelos minerais críticos: o que está em jogo?

Na última quarta‑feira, o Brasil participou de uma reunião em Washington liderada pelo vice‑presidente dos Estados Unidos, J.D. Vance. O objetivo? Discutir a criação de um bloco comercial focado em minerais críticos – aqueles recursos essenciais para tecnologias de ponta, como baterias, chips e veículos elétricos. Para quem acompanha a política externa, a notícia pode parecer mais uma jogada diplomática; para nós, que vivemos o dia a dia de um país rico em recursos, ela traz questões bem práticas sobre futuro econômico e soberania.



Mas antes de mergulharmos nos detalhes, vale lembrar o que são esses minerais críticos. Eles incluem terras raras, cobre, níquel, lítio, cobalto e, no caso brasileiro, também o nióbio – que já está entre os maiores produtores do mundo. Esses materiais são a base de tudo que chamamos de tecnologia avançada: smartphones, turbinas eólicas, painéis solares, até os foguetes que lançamos ao espaço.



Por que os EUA estão tão interessados?

Desde que a China começou a usar sua posição dominante nas cadeias de suprimentos de terras raras como alavanca política, Washington tem buscado diversificar suas fontes. Em 2022, o governo americano lançou o Projeto Vault, um pacote de US$ 10 bilhões de financiamento público e mais US$ 2 bilhões de capital privado, para garantir acesso a esses recursos fora da órbita chinesa.

O plano de Vance, apresentado na Conferência Ministerial sobre Minerais Críticos, propõe reunir 55 países – incluindo Coreia do Sul, Índia, Japão e Alemanha – em um bloco que compartilha informações, investimentos e, quem sabe, até políticas tarifárias conjuntas. O Brasil, com sua segunda maior reserva global de terras raras (logo atrás da China), aparece naturalmente na lista de possíveis parceiros.

O posicionamento do Lula: “Não seremos apenas exportadores”

Em entrevista recente, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva deixou claro que o país não quer ser apenas um fornecedor bruto. “Quem quiser vai ter que industrializar o nosso país”, afirmou. Em outras palavras, o governo quer que a cadeia de valor – da mineração ao refino, passando pela produção de componentes – seja desenvolvida aqui, gerando empregos qualificados e tecnologia nacional.

Esse discurso tem duas faces. Por um lado, protege a indústria brasileira de depender exclusivamente de exportações de commodities, que costumam ser voláteis. Por outro, levanta o desafio de atrair investimento suficiente para construir usinas de refino e fábricas de alta tecnologia, algo que ainda falta em grande parte do território nacional.



O que isso significa para o leitor comum?

  • Empregos e formação profissional: Se o Brasil avançar na cadeia de produção, haverá demanda por engenheiros, técnicos e operários especializados. Cursos técnicos e universitários podem ganhar novos programas focados em mineração avançada e processos de refino.
  • Preços de eletrônicos e veículos elétricos: Uma cadeia de suprimentos mais robusta pode reduzir custos de produção de baterias e, consequentemente, o preço final de carros elétricos no mercado interno.
  • Investimento estrangeiro: Empresas como Vale, BHP e Anglo American já demonstram interesse. Se o governo criar condições atrativas – como incentivos fiscais e segurança jurídica – podemos ver fábricas de chips ou de componentes de energia renovável surgindo aqui.
  • Impacto ambiental: A mineração de minerais críticos tem um alto custo ambiental. A participação em um bloco internacional pode trazer padrões mais rígidos de sustentabilidade, o que seria positivo para comunidades locais.

Desafios que ainda precisam ser superados

Apesar do entusiasmo, há obstáculos claros. Primeiro, a infraestrutura: estradas, portos e energia ainda são insuficientes em muitas regiões mineradoras, como a zona de nióbio em Minas Gerais. Segundo, a questão regulatória – o Brasil tem um processo de licenciamento ambiental complexo, que pode atrasar projetos.

Além disso, a concorrência internacional não vai desaparecer. Países como a Austrália e a República Democrática do Congo também estão investindo pesado para atender à demanda dos EUA. O Brasil precisa definir rapidamente sua estratégia para não ficar para trás.

Possíveis caminhos para o futuro

Algumas opções estão sendo discutidas dentro do governo:

  1. Parcerias bilaterais com os EUA: Negociações diretas que garantam financiamento e transferência de tecnologia para usinas de refino.
  2. Aliança multilateral: Integrar o bloco proposto por Vance, o que poderia abrir portas para mercados europeus e asiáticos.
  3. Política de valor agregado nacional: Criar linhas de produção de componentes de alta tecnologia dentro do território, aproveitando a mão‑de‑obra local.
  4. Incentivo à pesquisa: Fortalecer universidades e centros de pesquisa como o CPqD e a Vale de Pesquisa para desenvolver processos de extração mais limpos e eficientes.

Qualquer que seja a escolha, o ponto crucial é que a decisão não será tomada “de forma célere”, como alertou a fonte do governo. O Brasil quer garantir que qualquer acordo traga valor agregado real, e não apenas um contrato de exportação.

Conclusão: um momento decisivo

Estamos diante de um ponto de inflexão. A reunião em Washington pode ser apenas o primeiro passo de um caminho longo que levará o Brasil a se tornar um ator relevante nas cadeias globais de minerais críticos. Para o cidadão comum, isso pode significar mais empregos qualificados, tecnologia mais barata e um país menos dependente de importações estratégicas.

Fique de olho nas próximas notícias – especialmente se houver uma visita oficial do presidente Lula a Washington. Cada movimento diplomatico pode trazer novas oportunidades ou, ao contrário, fechar portas se não houver alinhamento com os interesses nacionais.

Enquanto isso, vale a pena acompanhar os debates sobre mineração sustentável, incentivos à indústria e a formação de profissionais que vão operar essas novas cadeias de valor. Afinal, o futuro da energia limpa, dos carros elétricos e da própria soberania tecnológica pode estar nas mãos de quem entende hoje a importância dos minerais críticos.