Na última segunda‑feira, eu assisti a uma transmissão ao vivo que acabou de ficar marcada na minha memória: o presidente Luiz Inácio Lula da Silva recebeu a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, no Rio de Janeiro. O clima era de celebração, mas também de estratégia. Enquanto a imprensa falava do acordo comercial Mercosul‑UE, a conversa de bastidores girava em torno de um assunto muito mais técnico – e ao mesmo tempo, decisivo para o futuro: terras raras, lítio e níquel.
Mas, antes de mergulhar nos detalhes, deixa eu contar por que esse papo de “minerais críticos” tem tudo a ver com o nosso dia a dia. Quando você compra um smartphone, um carro elétrico ou até mesmo um ventilador mais moderno, esses produtos dependem de um grupo de 17 elementos químicos conhecidos como terras raras. Eles são o coração das turbinas eólicas, dos chips de computador, dos equipamentos médicos e, claro, das baterias que dão energia aos veículos elétricos.
O Brasil, surpreendentemente, tem a segunda maior reserva de terras raras do planeta, perdendo apenas para a China. O problema? A maior parte desse recurso sai do país já refinado, quase pronto para ser usado. Isso significa que perdemos grande parte do valor agregado que poderia ficar aqui, gerando empregos, tecnologia e receita.
Por que a União Europeia está interessada?
A UE tem uma agenda clara: reduzir a dependência da China nos setores de alta tecnologia e, ao mesmo tempo, avançar na transição verde. O bloco europeu vê nas reservas brasileiras a chance de diversificar fornecedores e garantir que a cadeia de produção de baterias e dispositivos digitais seja mais segura. Von der Leyen deixou bem claro que a cooperação em minerais críticos será um dos pilares da relação Brasil‑UE, chamando isso de “chave para a nossa transição digital e limpa”.
Um jogo de poder entre blocos
Não é só a Europa que está de olho. Os Estados Unidos também têm manifestado interesse nos minerais estratégicos do Brasil, especialmente após a retirada do acordo comercial Mercosul‑UE do radar político nos EUA. A corrida pelos recursos críticos está se tornando uma disputa geopolítica, onde cada bloco tenta garantir sua segurança de abastecimento. Enquanto a China domina o refino, a UE e os EUA buscam parceiros que ofereçam acesso ao “cérebro” da cadeia produtiva – e o Brasil tem exatamente isso.
O que isso significa para o Brasil?
Para nós, a proposta europeia traz alguns caminhos promissores:
- Investimento em infraestrutura: A UE tem capital e know‑how para montar usinas de refino e fábricas de alto valor agregado aqui. Isso poderia gerar centenas de empregos qualificados.
- Transferência de tecnologia: Parcerias com empresas europeias podem acelerar a capacitação de profissionais brasileiros em áreas como mineração sustentável e processamento químico.
- Segurança econômica: Ao diversificar os destinos de exportação e agregar valor ao produto final, o Brasil diminui sua vulnerabilidade a choques externos.
- Compromisso ambiental: A UE costuma impor padrões rígidos de sustentabilidade. Se o acordo incluir cláusulas verdes, poderemos melhorar a reputação internacional do nosso setor de mineração.
Mas nem tudo são flores. Existem desafios que precisam ser encarados com cautela:
- Dependência de capital estrangeiro: Receber investimento pode ser ótimo, mas também pode criar uma situação onde decisões estratégicas fiquem nas mãos de empresas externas.
- Impactos ambientais: A extração de minerais críticos pode gerar impactos significativos se não houver regulação forte e fiscalização efetiva.
- Concentração de renda: Historicamente, a mineração tem beneficiado poucos. É preciso garantir que os benefícios cheguem às comunidades locais.
Como isso afeta o cidadão comum?
Talvez você esteja se perguntando: “E eu, o que ganho com isso?” A resposta está nos efeitos de longo prazo. Se o Brasil conseguir processar e agregar valor às suas terras raras, podemos ver:
- Preços mais competitivos para produtos eletrônicos, já que parte do custo de produção volta ao país.
- Mais empregos em áreas de alta tecnologia, o que eleva o padrão de qualificação da força de trabalho.
- Um impulso na indústria nacional de veículos elétricos, tornando-os mais acessíveis.
- Maior arrecadação de impostos e royalties, que podem ser direcionados para saúde, educação e infraestrutura.
Em resumo, um acordo bem estruturado pode transformar um recurso bruto em um motor de desenvolvimento.
O futuro da parceria Brasil‑UE
O próximo passo será a assinatura formal do acordo de investimento conjunto. Ainda não sabemos todos os detalhes – como a divisão de royalties, metas de produção ou prazos de implementação – mas a mensagem está clara: a UE quer estar ao nosso lado nessa corrida pelos recursos críticos.
É importante acompanhar como o governo brasileiro vai negociar cláusulas de proteção ambiental e de participação das comunidades locais. A transparência será essencial para que a população veja o benefício real desse acordo.
Se tudo correr bem, nos próximos anos poderemos ver notícias como “Brasil lidera produção de baterias para carros elétricos” ou “Empresa europeia abre primeira planta de refino de terras raras no interior de Minas Gerais”. E, quem sabe, até um aumento na oferta de empregos de engenharia e ciência de materiais nas universidades brasileiras.
Enquanto isso, fica a esperança de que esse movimento ajude a diminuir a dependência global da China e a criar um mercado mais equilibrado. Afinal, diversificar fornecedores é bom para todos – reduz riscos, estimula inovação e, no fim das contas, pode trazer mais opções e preços melhores para o consumidor.
Então, da próxima vez que você ligar seu smartphone ou entrar num carro elétrico, lembre‑se de que, talvez, parte daquela tecnologia veio das rochas brasileiras, processada com o apoio de parceiros europeus. É um pequeno exemplo de como a geopolítica e a ciência podem se encontrar no nosso cotidiano.


