Quando a Latam anunciou um bônus de R$ 160 mil para comandantes e R$ 80 mil para copilotos, a reação no setor foi imediata. Não é todo dia que uma empresa aérea oferece cifras que chegam a seis dígitos só para atrair profissionais. Para quem acompanha a aviação, isso levanta perguntas: o que está por trás desse investimento? Como isso afeta quem sonha em pilotar um avião? E, sobretudo, o que isso significa para o futuro da mobilidade aérea no Brasil?
O contexto da oferta
A companhia abriu um processo seletivo para formar as tripulações do novo Embraer 195‑E2, que deve entrar em operação em 2026. São até 74 aeronaves previstas, sendo 24 já firmadas e 50 como opções. Cada uma desses jatos exige uma equipe de pilotos experientes, e a Latam já sabe que a escassez de profissionais qualificados é real – não só aqui, mas em todo o mundo.
Por que o bônus tão alto?
- Escassez global de pilotos: A pandemia interrompeu muitos programas de formação e a aposentadoria em massa reduziu o número de profissionais disponíveis.
- Competição acirrada: Companhias como a Azul, que também operam aeronaves da família Embraer, são concorrentes diretos na disputa por talentos.
- Investimento na frota E2: O Embraer 195‑E2 traz eficiência de combustível e custos operacionais menores, mas exige tripulações treinadas para tecnologias de fly‑by‑wire e motores Pratt & Whitney GTF.
Com esses fatores, a Latam decidiu usar o bônus como um “gancho” rápido: atrair profissionais que já têm a bagagem necessária e, assim, reduzir o tempo de preparação antes da entrega das aeronaves.
Quem pode se candidatar?
Os requisitos são rigorosos, mas bem definidos. Para comandantes, a empresa pede:
- 5 mil horas de voo em linhas aéreas regulares, com ao menos 3 mil horas em jatos.
- 500 horas como piloto em comando em aeronaves semelhantes ou maiores que o E2.
- Certificação ICAO nível 4 ou superior, carteira E‑Jets E1/E2, e certificado médico aeronáutico válido.
- Diferenciais: IFR, visto americano e ensino superior completo.
Para copilotos, a lista inclui:
- Mínimo de 500 horas totais de voo.
- Licença de piloto comercial, habilitações IFRA e MLTE ou de tipo.
- Certificado ICAO nível 4, CMA de primeira classe, curso superior completo e passaporte válido.
- Diferencial: visto americano.
Esses critérios mostram que a Latam não está buscando “qualquer” piloto, mas profissionais que já estejam perto de assumir a cabine de comando em poucos meses.
O que isso significa para quem sonha ser piloto?
Se você está estudando para se tornar piloto, a notícia traz duas lições importantes:
- Valorize a formação: As companhias estão dispostas a pagar muito bem por experiência. Cada hora de voo, cada certificação adicional, aumenta seu valor de mercado.
- Planeje a carreira: O mercado pode mudar rapidamente. Hoje, há bônus milionários; daqui a alguns anos, a situação pode ser diferente. Ter um plano de longo prazo, com especializações e networking, é essencial.
Além disso, a oferta da Latam abre espaço para discussões sobre a sustentabilidade da formação de pilotos no Brasil. Os custos de treinamento chegam a centenas de milhares de reais, o que impede muitos talentos de entrar na profissão. Se as companhias continuam pagando bônus altos, talvez seja hora de repensar políticas de apoio – bolsas, financiamentos e parcerias com escolas de aviação.
Impactos no preço das passagens
Um ponto que costuma aparecer nas análises econômicas é: esses bônus vão encarecer as passagens?
Em teoria, sim. Se a empresa aumenta seus custos com salários e incentivos, parte desse gasto pode ser repassada ao consumidor. Porém, o Embraer 195‑E2 promete redução de até 30% no consumo de combustível por assento, o que gera economia operacional. Essa eficiência pode compensar parte dos gastos com pessoal.
Na prática, o efeito será diluído ao longo dos anos. O bônus é pago uma única vez, enquanto a economia de combustível se repete em cada voo. Portanto, a longo prazo, o passageiro pode nem notar diferença nos preços.
O futuro da aviação brasileira
Com a frota E2, a Latam pretende ampliar sua malha aérea, adicionando até 35 novos destinos aos 160 já atendidos. Isso significa mais opções de voos regionais, maior conectividade entre cidades menores e, potencialmente, um estímulo ao turismo interno.
Mas para que tudo isso aconteça, a empresa precisa manter um fluxo constante de profissionais. A estratégia de buscar talentos no mercado externo pode gerar um “efeito borboleta” – outras companhias podem precisar melhorar seus pacotes para não perder seus melhores pilotos.
Além disso, o debate sobre a idade de aposentadoria está em alta. Alguns especialistas sugerem elevar o limite de 65 para 67 anos, mas sindicatos ainda resistem. Se essa mudança acontecer, a escassez de pilotos pode ser amenizada temporariamente, mas não resolve o problema estrutural da formação.
Conclusão
O bônus de R$ 160 mil da Latam não é apenas um número chamativo; ele reflete uma realidade de mercado em transformação. A escassez de pilotos, a necessidade de modernizar a frota e a pressão por eficiência operacional convergem para criar um cenário onde o capital humano se torna o ativo mais valioso.
Para quem está pensando em seguir carreira na aviação, a mensagem é clara: invista em sua qualificação, busque certificações extras e fique atento às oportunidades que surgem quando as grandes companhias precisam de profissionais experientes. E, para o resto de nós, passageiros, talvez seja hora de valorizar o esforço daqueles que nos levam ao céu, reconhecendo que, por trás de cada voo, há anos de treinamento, investimentos e, agora, bônus que chegam a seis dígitos.
Se você tem dúvidas sobre como se preparar, quais escolas oferecem as melhores condições ou quer saber mais sobre o mercado de aviação, deixe seu comentário. Vamos conversar e, quem sabe, ajudar alguém a dar o próximo passo rumo à cabine de comando.



