Radar Fiscal

BNDES libera R$ 950 milhões para nova usina de etanol de milho na Bahia: o que isso significa para o agronegócio e o seu bolso

Compartilhe esse artigo:

WhatsApp
Facebook
Threads
X
Telegram
LinkedIn
BNDES libera R$ 950 milhões para nova usina de etanol de milho na Bahia: o que isso significa para o agronegócio e o seu bolso

Na última segunda‑feira (12), o BNDES anunciou a aprovação de um financiamento de R$ 950 milhões para a Inpasa Agroindustrial construir sua sexta biorrefinaria no Brasil. O projeto, que vai ficar em Luís Eduardo Magalhães, no oeste da Bahia, tem como foco a produção de etanol anidro e hidratado a partir de milho, sorgo e outros grãos. Para quem acompanha o agronegócio, esse tipo de investimento costuma ser um termômetro de como o país está se posicionando na transição energética.



Por que o milho?

O milho já é um dos pilares da produção agrícola brasileira, especialmente na região oeste da Bahia, onde o clima seco‑quente e o solo fértil permitem duas safras por ano. Transformá‑lo em etanol traz duas vantagens claras:

  • Diversificação de mercado: ao invés de vender só como grão, o produtor tem um produto com valor agregado.
  • Redução da dependência do açúcar: o etanol de milho pode ser produzido em regiões onde a cana‑açúcar não se adapta bem.

Além disso, o etanol de milho costuma ter um rendimento energético interessante e pode ser usado tanto na forma anidra (para combustíveis) quanto hidratada (para misturas em postos).



Os números que impressionam

A usina terá capacidade para processar até 1 milhão de toneladas de milho por ano, o que equivale a quase 2 milhões de sacas de 50 kg. Desses grãos, a produção esperada inclui:

  • 498 milhões de litros de etanol;
  • 248,9 mil toneladas de Dried Distillers Grains (DDG), um coproduto rico em proteína muito usado na alimentação animal;
  • 24,862 toneladas de óleo vegetal;
  • 185 GWh de energia elétrica, que podem ser injetados na rede ou usados na própria planta.

Esses números não são apenas cifras; eles traduzem geração de renda, empregos e ainda um impacto positivo na pegada de carbono do país.



Como o financiamento está estruturado

Do total aprovado, R$ 350 milhões vêm do Fundo Clima, criado em 2009 e ligado ao Ministério do Meio Ambiente. Esse fundo tem a missão de apoiar projetos que reduzam emissões de gases de efeito estufa. Os outros R$ 600 milhões são da linha Finem, que financia investimentos em diversos setores da economia, incluindo agronegócio e energia renovável.

Essa combinação de recursos indica que o governo vê a usina não só como um motor econômico, mas também como uma ferramenta para cumprir metas climáticas. O etanol, ao substituir parte da gasolina, ajuda a reduzir a emissão de CO₂, e o aproveitamento integral do milho (com DDG e óleo) diminui o desperdício.

Impactos na região e no mercado de trabalho

Luís Eduardo Magalhães foi escolhida por ser um polo de produção de grãos. A cidade já tem infraestrutura de armazenagem, logística rodoviária e acesso a portos do Nordeste. Durante a fase de construção, a previsão é de cerca de 300 empregos diretos e mais de 3 mil indiretos – desde fornecedores de máquinas até serviços de alimentação.

Quando a planta entrar em operação, estima‑se que 450 a 500 empregos diretos sejam criados, principalmente nas áreas de operação industrial, manutenção e controle de qualidade. Para a população local, isso significa mais oportunidades de carreira técnica, treinamento e, possivelmente, maior retenção de jovens na região.

O que isso traz para o consumidor

Para quem compra combustível, a expansão da produção de etanol pode resultar em preços mais estáveis. Quando a oferta aumenta, a volatilidade diminui, e isso beneficia motoristas, transportadoras e até indústrias que dependem de energia.

Além disso, o DDG produzido será um insumo valioso para a pecuária. O Brasil já é grande produtor de carne, e a disponibilidade de proteína de alta qualidade pode reduzir a dependência de importações de farelo de soja, impactando positivamente a balança comercial.

Desafios e considerações

Nem tudo são flores. A produção de etanol de milho exige muita energia, principalmente para a moagem e a fermentação. Embora a usina vá gerar 185 GWh de energia elétrica, ainda será preciso garantir que a matriz energética usada seja limpa, senão o ganho ambiental pode ser menor.

Outro ponto é a competição por água. O cultivo intensivo de milho pode pressionar recursos hídricos, principalmente em períodos de seca. Projetos como esse precisam estar alinhados a práticas de manejo sustentável, como a rotação de culturas e o uso de tecnologias de irrigação de baixo consumo.

Perspectivas para o futuro

Se a usina atingir a capacidade plena a partir de 2027, podemos esperar um aumento significativo da oferta de etanol nacional. Isso pode incentivar outras regiões a replicarem o modelo, especialmente no Centro‑Oeste, onde o milho também é abundante.

Além disso, a combinação de etanol, DDG e óleo vegetal abre caminho para a chamada bioeconomia – um sistema onde resíduos agrícolas são transformados em novos produtos, reduzindo a dependência de recursos fósseis.

Em resumo, o investimento do BNDES na Inpasa é mais que um número na planilha. Ele representa uma aposta no potencial da Bahia como hub de energia renovável, cria oportunidades de emprego, fortalece a cadeia do agronegócio e ainda contribui para metas climáticas. Para quem acompanha o setor, vale a pena ficar de olho nos próximos passos, nos indicadores de produção e, claro, nas oportunidades de negócios que podem surgir ao redor desse grande projeto.