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BNDES destina R$ 950 milhões para a nova usina de etanol de milho na Bahia – o que isso muda para o nosso futuro

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BNDES destina R$ 950 milhões para a nova usina de etanol de milho na Bahia – o que isso muda para o nosso futuro

Recentemente o BNDES anunciou um financiamento de quase um bilhão de reais para a Inpasa Agroindustrial construir sua sexta biorrefinaria no oeste da Bahia. Para quem acompanha o agronegócio, esse número já chama atenção, mas o que realmente está por trás desse investimento e como ele pode impactar a nossa vida cotidiana? Vou explicar de forma simples, dividir o assunto em partes e, ao final, refletir sobre o que isso significa para o Brasil.



Por que a Bahia?

Luís Eduardo Magalhães, município escolhido para a usina, já é um dos maiores produtores de milho do país. A região tem solo fértil, clima favorável e uma logística que vem se aprimorando nos últimos anos, graças a estradas e ao porto de Salvador. Essa combinação faz da Bahia um ponto estratégico para quem quer transformar grãos em energia e produtos de alto valor agregado.



O que a usina vai produzir?

A nova biorrefinaria terá capacidade de processar até 1 milhão de toneladas de milho por ano, além de sorgo e outros grãos. A partir dessa matéria‑prima, serão gerados:

  • 498 milhões de litros de etanol (anidro e hidratado);
  • 248,9 mil toneladas de Dried Distillers Grains (DDG), um coproduto rico em proteína, muito usado na alimentação animal;
  • 24.862 toneladas de óleo vegetal;
  • 185 GWh de energia elétrica, que podem ser usados na própria fábrica ou vendidos à rede.

Esses números mostram que a usina não será só mais um produtor de etanol, mas um verdadeiro polo de múltiplos produtos que dão mais valor ao milho brasileiro.



Como o financiamento está estruturado?

O BNDES dividiu os R$ 950 milhões em duas linhas:

  • R$ 350 milhões do Fundo Clima – criado em 2009 e gerido pelo Ministério do Meio Ambiente, esse fundo tem o objetivo de apoiar projetos que reduzam emissões de gases de efeito estufa.
  • R$ 600 milhões da linha Finem – crédito de longo prazo para investimentos em setores estratégicos da economia, como energia renovável e agroindústria.

Essa combinação indica que o projeto tem um forte componente de sustentabilidade, alinhado às metas de redução de carbono do Brasil.

Impactos econômicos e sociais

Além da produção de etanol, a usina promete gerar cerca de 300 empregos diretos durante a fase de construção e, ao final, entre 450 e 500 vagas permanentes. Indiretamente, mais de 3 mil empregos serão criados em áreas como transporte, manutenção de máquinas, serviços de apoio e agricultura.

Para a região, isso pode significar:

  • Maior demanda por milho, incentivando agricultores locais a investir em tecnologia e produtividade;
  • Desenvolvimento de cadeias de suprimentos, como logística e armazenagem;
  • Capacitação de mão‑de‑obra especializada em processos de biotecnologia e energia renovável.

Em termos de energia, os 185 GWh produzidos anualmente podem suprir cerca de 30 mil residências, reduzindo a dependência de fontes fósseis.

Etanol de milho vs. etanol de cana

O Brasil já é referência mundial em etanol de cana‑açúcar, mas o etanol de milho tem algumas vantagens:

  • Ele pode ser produzido em regiões onde a cana não se adapta bem, como o semiárido do Nordeste;
  • O processo gera DDG, que alimenta gado e reduz a necessidade de importação de farelo de soja;
  • O etanol de milho pode ser integrado a sistemas de produção de óleo vegetal, ampliando a diversificação de produtos.

Entretanto, o custo de produção ainda pode ser maior que o da cana, e a competitividade depende de políticas de incentivo, preço do milho e da energia elétrica.

Desafios e pontos de atenção

Apesar do potencial, alguns desafios precisam ser monitorados:

  • Logística: o transporte do milho até a usina e o escoamento do etanol exigem infraestrutura rodoviária e ferroviária robusta.
  • Sustentabilidade: o uso intensivo de água e energia deve ser equilibrado com práticas de conservação, para que o projeto realmente reduza a pegada de carbono.
  • Mercado: o preço do etanol no mercado interno e externo pode oscilar, afetando a rentabilidade da planta.

O BNDES, ao destinar recursos do Fundo Clima, demonstra que há um comprometimento em acompanhar e mitigar esses riscos, mas a efetividade dependerá da gestão da Inpasa e das políticas públicas.

O que isso significa para você?

Se você é produtor rural, a usina pode abrir novas oportunidades de venda de milho a preços mais atrativos, já que o etanol de milho requer matéria‑prima de alta qualidade. Para quem trabalha no setor de energia, há perspectivas de empregos em manutenção de turbinas, engenharia de processos e gestão ambiental.

Para o consumidor final, o aumento da produção de etanol pode refletir em preços mais estáveis nos postos de combustível, sobretudo se o governo mantiver a política de mistura obrigatória de etanol nos combustíveis.

E, claro, para todos nós, um projeto que gera energia limpa e produtos de alto valor nutricional (como o DDG) ajuda a avançar em direção a um Brasil mais sustentável e menos dependente de importações.

Perspectivas para o futuro

Com a capacidade plena prevista para 2027, a usina da Inpasa pode servir de modelo para outras regiões do país que têm abundância de grãos, mas ainda não exploram o potencial da bioenergia. Se o sucesso for comprovado, podemos esperar mais investimentos semelhantes, impulsionando a diversificação da matriz energética brasileira.

Além disso, a integração entre agronegócio e energia renovável abre caminho para inovações como:

  • Uso de resíduos agrícolas para geração de biogás;
  • Desenvolvimento de bioplásticos a partir do milho;
  • Aplicação de IA na otimização da colheita e do processamento.

Em resumo, o financiamento do BNDES não é apenas um número grande; é um sinal de que o Brasil está buscando alavancar seus recursos naturais de forma mais inteligente, criando empregos, energia limpa e novos produtos. Agora, resta acompanhar a execução e garantir que os benefícios cheguem de fato às comunidades locais.