Nos últimos dias o preço do Bitcoin caiu para US$ 65 mil, o nível mais baixo em 15 meses. Se você acompanha o mercado cripto, já deve ter sentido o frio na espinha. Mas, afinal, por que a maior moeda digital do mundo está sofrendo esse baque, mesmo com o apoio declarado do presidente dos EUA, Donald Trump?
Um panorama rápido: de alta recorde a queda abrupta
Em outubro de 2024 o Bitcoin alcançou a marca histórica de US$ 122 mil. Foi um período de euforia: investidores institucionais, celebridades e até governos estavam falando sobre a “nova reserva de valor”. No entanto, a partir de janeiro de 2025, quando Trump reassumiu a Casa Branca, a moeda começou a oscilar cada vez mais. Em junho de 2026, a cotação já havia perdido 24% do seu valor no ano e, nesta quinta‑feira, chegou a US$ 65 mil, cerca de R$ 342 mil.
O papel de Trump: promessas, ações e conflitos de interesse
Logo nas primeiras semanas de seu segundo mandato, Trump assinou uma ordem executiva que tinha como objetivo transformar os EUA na “capital mundial das criptomoedas”. Ele também lançou sua própria criptomoeda, cujo lucro foi direcionado para as empresas da família Trump, e manteve participação em fundos como a World Liberty Financial.
Essas medidas criaram um clima de otimismo entre os cripto‑entusiastas. A SEC (Comissão de Valores Mobiliários dos EUA) abandonou investigações sobre o setor, e o Departamento de Justiça dissolveu a equipe que fiscalizava as regras de cripto. Mas, ao mesmo tempo, surgiram críticas: democratas apontaram que Trump acumulou mais de US$ 11 bilhões em cripto‑ativos e recebeu cerca de US$ 800 milhões em renda pessoal desde que assumiu o cargo.
Por que o preço despencou? A influência da política monetária
Analistas do Deutsche Bank atribuem a queda recente à nomeação de Kevin Warsh como presidente do Federal Reserve (Fed). Warsh tem reputação de ser mais “agressivo” na política de juros, o que significa que ele pode manter as taxas de juros mais altas por mais tempo.
Taxas altas tendem a tornar investimentos de risco, como criptomoedas, menos atraentes. Quando o custo do dinheiro aumenta, investidores migram para ativos mais seguros, como títulos do Tesouro ou o próprio dólar. O Deutsche Bank destaca ainda que o sentimento negativo em relação ao Bitcoin tem crescido nos últimos quatro meses, indicando que investidores tradicionais estão perdendo o interesse.
O que dizem os especialistas?
- Deutsche Bank: não vê o Bitcoin desaparecendo, mas acredita que ele está deixando de ser um “ativo puramente especulativo” para buscar um papel mais realista.
- William Barhydt (Abra Capital Management): acredita que as criptomoedas estão amadurecendo e que o preço do Bitcoin deve se recuperar, a menos que ocorram eventos catastróficos como uma guerra.
- Stifel: projeta que o Bitcoin pode cair até US$ 38 mil, apontando para uma correlação cada vez maior entre criptomoedas e o dólar americano.
Impacto no mercado mais amplo
Não é só o Bitcoin que sente a pressão. Ethereum e Solana, duas das maiores altcoins, já registraram quedas de cerca de 37% em 2026. Segundo a CoinGecko, o mercado cripto perdeu mais de US$ 1 trilhão no último mês e cerca de US$ 2 trilhões desde o pico de outubro.
Esses números são assustadores, mas também revelam um ponto importante: o mercado está passando por um processo de “desinflar” após um período de supervalorização. Muitos investidores que entraram na corrida do ouro digital em 2023/2024 agora estão vendendo para proteger seu capital.
Como proteger seu portfólio em tempos de volatilidade
Se você tem Bitcoin ou outras criptomoedas, aqui vão algumas dicas práticas:
- Reavalie sua alocação: não coloque mais de 5‑10% do seu patrimônio total em cripto, a menos que você esteja preparado para perdas significativas.
- Use stop‑loss: defina limites de perda para evitar que uma queda repentina consuma todo o seu investimento.
- Diversifique: inclua ativos tradicionais como ações, fundos imobiliários e renda fixa. A diversificação reduz o risco total.
- Fique atento à política monetária: decisões do Fed, como alterações nas taxas de juros, têm impacto direto nos preços das criptomoedas.
- Eduque‑se continuamente: o mercado cripto evolui rápido. Cursos, podcasts e newsletters ajudam a entender tendências e a evitar armadilhas.
O futuro do Bitcoin: especulação ou estabilização?
Alguns analistas acreditam que o Bitcoin pode se tornar um “ativo de reserva” mais estável, semelhante ao ouro, mas isso exigirá regulamentação clara e adoção institucional consistente. Outros veem a moeda como uma ferramenta de hedge contra políticas inflacionárias, o que pode voltar a impulsionar seu preço se o dólar enfraquecer novamente.
Por enquanto, a realidade é que o Bitcoin está em uma fase de correção. Os investidores precisam aceitar que a volatilidade faz parte do jogo. Se você acredita no potencial de longo prazo da tecnologia blockchain, pode ser um bom momento para comprar em baixa, mas sempre com cautela.
Conclusão
O declínio do Bitcoin para US$ 65 mil não é apenas um reflexo do apoio (ou falta dele) de Trump. É um conjunto de fatores – política monetária agressiva, sentimento de mercado negativo, e a maturação natural de um ativo que ainda está procurando seu lugar no sistema financeiro global.
Para quem acompanha de perto, a lição principal é: não confie apenas em discursos políticos ou em promessas de regulamentação. Analise os fundamentos, acompanhe as decisões do Fed e, sobretudo, mantenha uma estratégia de risco bem definida.
Se você ainda tem dúvidas sobre como se posicionar, vale a pena conversar com um consultor financeiro que entenda de cripto. O mercado pode ser implacável, mas com informação e prudência, dá para navegar sem grandes prejuízos.



