Na última semana, a política internacional ganhou um tom de filme de ação. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou que vai colocar tarifas sobre produtos de oito países europeus se a Dinamarca não aceitar vender a Groenlândia. A reação? A União Europeia já tem uma “bazuca comercial” pronta para ser disparada.
O que exatamente é a “bazuca comercial”?
O instrumento oficial se chama Instrumento contra a Coerção Econômica (ACI). Foi aprovado em 2023 e funciona como um escudo: se um país tenta pressionar a UE com tarifas ou outras medidas coercitivas, a União pode responder com contramedidas – desde tarifas mais altas até restrições a investimentos e licenças de importação.
Por que a Groenlândia está no centro da disputa?
A ilha, que faz parte do Reino da Dinamarca, tem recursos naturais valiosos e uma posição estratégica no Ártico. Trump, em post no Truth Social, alegou que a China também tem interesse na região e que a Dinamarca “não pode fazer nada”. Ele ameaçou impor tarifas de 10% a partir de 1º de fevereiro, subindo para 25% em junho, até que a Dinamarca concorde em vender a ilha.
Quem está envolvido?
- Estados Unidos: liderados por Trump, que quer usar tarifas como forma de pressão.
- União Europeia: coordenando a resposta através do ACI, com apoio de líderes como Emmanuel Macron (França) e Mette Frederiksen (Dinamarca).
- Países afetados: Dinamarca, Noruega, Suécia, França, Alemanha, Reino Unido, Holanda e Finlândia – todos com risco de ver seus produtos encarecidos nos EUA.
Como funciona o ACI na prática?
Se a UE decidir ativar o ACI, ela pode:
- Elevar tarifas sobre produtos americanos que entram nos 27 Estados-Membros.
- Impor restrições de licenças de importação e exportação.
- Bloquear empresas americanas de participar de licitações públicas ou de comprar ações em empresas europeias.
- Exigir reparação financeira ao país que praticar a coerção.
Essas medidas são pensadas para ser um “desestímulo” – algo que faz o agressor repensar antes de aplicar pressão.
O que dizem os líderes europeus?
Macron foi direto: “Nenhuma intimidação ou ameaça nos influenciará, nem na Ucrânia, nem na Groenlândia, nem em qualquer outro lugar do mundo”. O primeiro‑ministro irlandês, Micheál Martin, pediu que todas as vias de diálogo sejam esgotadas antes de qualquer ação militar ou comercial.
Já o eurodeputado alemão Bernd Lange destacou que o ACI dá à UE uma “vasta gama de contramedidas” para reagir rapidamente a pressões externas.
Um panorama do comércio UE‑EUA
Em 2023, o comércio entre a União Europeia e os Estados Unidos ultrapassou US$ 1,8 trilhão. Diariamente, cerca de US$ 5 bilhões de bens e serviços cruzam o Atlântico. Essa interdependência significa que uma guerra comercial pode custar caro a ambos os lados.
Em julho passado, as duas partes chegaram a um acordo que reduziu tarifas de 25% para 15% em troca de investimentos americanos em setores industriais e de defesa europeus. Contudo, esse acordo ainda está em risco caso Trump siga com suas ameaças.
O que isso significa para você?
Talvez você pense: “Isso não tem nada a ver comigo”. Mas a verdade é que as decisões de alto nível reverberam nas prateleiras. Se as tarifas aumentarem, produtos como vinhos franceses, queijos holandeses ou carros alemães podem ficar mais caros nos EUA. E, inversamente, produtos americanos – como soja, aviões ou tecnologia – podem encarecer na Europa.
Para quem tem negócios que dependem de importação ou exportação, é essencial ficar de olho nas notícias e, se possível, diversificar fornecedores. Pequenas e médias empresas costumam ser as mais vulneráveis a choques tarifários porque não têm margem para absorver aumentos de custos.
Qual é o futuro?
Se a UE ativar o ACI, podemos ver uma escalada de medidas retaliatórias. Por outro lado, se o diálogo prevalecer, talvez o impasse seja resolvido sem grandes perdas econômicas. O que parece certo é que a disputa destaca a importância de regras claras no comércio internacional e a necessidade de mecanismos de defesa frente a ameaças unilaterais.
Enquanto isso, a Groenlândia continua no centro de um jogo geopolítico que envolve não só EUA e UE, mas também a China, que tem mostrado interesse no Ártico. A ilha pode se tornar um ponto de convergência de recursos naturais, rotas marítimas e questões de soberania nos próximos anos.
Ficar informado, entender como essas decisões afetam o cotidiano e buscar alternativas são passos fundamentais para quem não quer ser pego de surpresa por uma nova “bazuca comercial”.



