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Baliza fora da prova da CNH: o que muda para você e por que isso gera debate

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Baliza fora da prova da CNH: o que muda para você e por que isso gera debate

Se você está prestes a tirar a Carteira Nacional de Habilitação (CNH) ou já tem a sua, provavelmente já ouviu falar da tal “baliza” – aquele teste de estacionamento em paralelo que costuma assustar muitos candidatos. Mas, nas últimas semanas, a coisa mudou: dez estados já deixaram de exigir a baliza na prova prática, e em fevereiro serão onze. Essa mudança pode parecer um detalhe burocrático, mas tem reflexos reais no dia a dia dos motoristas, nas autoescolas e até na segurança das ruas.



Como chegamos até aqui? A decisão vem do Conselho Nacional de Trânsito (Contran), que em 2023 aprovou a Resolução 1.020. O documento não fala explicitamente da baliza, mas abre espaço para que os Detrans criem um Manual Brasileiro de Exames de Direção Veicular. Enquanto esse manual não sai oficialmente, alguns estados já avançaram e eliminaram a etapa da baliza dos seus exames práticos.

Os pioneiros foram o Distrito Federal, que abandonou a baliza já em 2004, e o estado de Mato Grosso, que começou a retirar a exigência em janeiro, com prazo final em 10 de fevereiro. Na última segunda‑feira (26), São Paulo também seguiu o caminho, e agora Sergipe, Amazonas, Espírito Santo e Mato Grosso do Sul se juntam ao grupo. Quando a lista completa for divulgada, teremos onze estados sem a baliza, o que representa quase 40 % do país.



Por que a baliza foi considerada dispensável?

Um dos argumentos principais é a mudança na frota brasileira. Segundo o Inmetro, apenas 15,7 % dos veículos vendidos no Brasil têm câmbio manual – são 121 dos 769 modelos disponíveis. Ou seja, a grande maioria dos motoristas está acostumada a dirigir carros automáticos, que facilitam muito a hora de estacionar. O Detran de São Paulo, por exemplo, já permite que candidatos utilizem veículos automáticos na prova prática, algo que antes era restrito a quem precisava de adaptação.

Além disso, a própria Resolução 1.020 busca simplificar o processo de habilitação, tornando-o menos burocrático e mais alinhado com a realidade das ruas. Para quem já tem que enfrentar filas nos Detrans, pagar por aulas extras e ainda lidar com a ansiedade de fazer a baliza, a ideia de eliminar essa etapa parece, à primeira vista, um alívio.

O que os especialistas dizem?

A retirada da baliza não é unânime entre os profissionais de trânsito. A advogada especializada em direito de trânsito, Laura Diniz, alerta que estacionar corretamente é uma habilidade cotidiana e essencial para a segurança viária. “Ao retirar essa etapa do exame, corre‑se o risco de habilitar condutores que ainda não possuem domínio suficiente do veículo”, afirma. Ela destaca que a baliza testa não só a capacidade de manobrar, mas também a percepção de espaço, a paciência e o controle do veículo em situações de risco.

Por outro lado, a psicóloga Cecília Bellina tem uma visão mais neutra. Ela não vê a baliza como um problema em si, mas se preocupa com a rapidez das mudanças. “Não sou nem contra nem a favor da retirada da baliza. Sou contra mais uma mudança radical sem esperar o resultado da primeira, ocorrida há menos de dois meses”, comenta, referindo‑se à redução das aulas práticas e ao fim da obrigatoriedade da autoescola.



Impactos práticos para quem está estudando

Se você está matriculado em uma autoescola, a primeira mudança que vai notar é a redução de custos. Sem a baliza, muitas escolas podem diminuir o número de aulas práticas necessárias – antes, eram exigidas, em média, 20 horas de prática, incluindo a manobra de estacionamento. Agora, algumas autoescolas já anunciam pacotes com 15 horas, o que pode representar uma economia de até R$ 300 a R$ 500, dependendo da região.

Mas atenção: a economia não vem sem um preço. Sem a baliza, o foco pode se deslocar para outras habilidades, como a condução em rodovias ou situações de emergência. Se a sua autoescola não adaptar o conteúdo, você pode acabar menos preparado para enfrentar um estacionamento apertado na cidade, especialmente em bairros onde as vagas são estreitas e o fluxo de carros é intenso.

Segurança nas ruas: risco ou oportunidade?

Do ponto de vista da segurança viária, a baliza tem sido usada como um filtro para garantir que o motorista saiba lidar com manobras de risco. Estudos de alguns países mostram que motoristas que falham na baliza tendem a ter mais acidentes ao estacionar em situações reais. No Brasil, ainda não há dados conclusivos que mostrem o impacto da retirada da baliza, já que a mudança é recente.

Entretanto, há um argumento a favor da flexibilização: a tecnologia está avançando. Sensores de estacionamento, câmeras de ré e assistentes de estacionamento automático são cada vez mais comuns, inclusive em veículos de baixa faixa de preço. Se a maioria dos carros já vem equipada com esses recursos, talvez a exigência de uma manobra manual se torne obsoleta.

O que esperar do Manual Brasileiro de Exames de Direção Veicular?

O próximo passo do Contran é publicar o Manual que vai definir, de forma nacional, como deve ser a prova prática. Até agora, cada estado tem autonomia para ajustar seu exame, o que gera disparidades: em um estado, o candidato pode usar carro automático e não fazer baliza; em outro, ainda precisa cumprir todas as etapas tradicionais.

Quando o Manual for oficial, espera‑se que haja uma padronização que leve em conta a evolução da frota e das tecnologias de assistência ao condutor. É provável que a baliza seja substituída por testes que avaliem a capacidade de usar sensores ou de seguir rotas em ambientes urbanos simulados, por exemplo.

Como se preparar para a prova sem a baliza?

  • Foque nas manobras básicas: ainda é essencial saber fazer ré, curvas fechadas e controle de velocidade.
  • Pratique em diferentes tipos de carro: se possível, treine tanto em manual quanto em automático, pois a prova pode variar de acordo com o estado.
  • Use a tecnologia a seu favor: familiarize‑se com sensores de estacionamento e câmeras, pois eles podem aparecer em provas futuras.
  • Invista em aulas de direção defensiva: elas ajudam a desenvolver a percepção de risco, algo que a baliza também buscava medir.

O que isso significa para quem ainda não tirou a CNH?

Se você ainda está no início da jornada, a boa notícia é que o caminho pode ficar mais curto e menos custoso. No entanto, vale a pena ficar atento às regras do seu estado. Enquanto o Manual nacional não for publicado, alguns Detrans podem manter a baliza ou exigir outras provas complementares. Consulte sempre o site do Detran da sua região e converse com a sua autoescola.

Além disso, pense na sua rotina de condução. Se você mora em áreas onde o estacionamento é um desafio diário, talvez seja inteligente praticar a baliza por conta própria, mesmo que não seja obrigatória. A prática extra pode evitar sustos e multas no futuro.

Conclusão: um passo rumo à modernização ou um risco à segurança?

O fim da baliza na prova prática reflete uma mudança de paradigma no trânsito brasileiro: menos ênfase em habilidades manuais e mais confiança nas tecnologias de assistência. Para quem já dirige carros automáticos, a medida parece justa e alinhada com a realidade. Para os defensores da segurança viária tradicional, a retirada pode abrir brechas que, a longo prazo, afetem a qualidade da formação dos motoristas.

O que eu levo dessa discussão é que a educação no trânsito deve ser contínua. A prova da CNH é apenas o início; o verdadeiro aprendizado acontece nas ruas, nos estacionamentos e nas situações inesperadas que surgem todos os dias. Seja qual for a regra vigente, estar bem preparado – estudando, praticando e usando a tecnologia a seu favor – continua sendo a melhor estratégia.

E você, já fez a prova da baliza? Como se sente com a mudança? Compartilhe sua experiência nos comentários, porque a troca de ideias é fundamental para que possamos construir um trânsito mais seguro e mais adequado à realidade de cada motorista.