Quando ouvi falar que a assinatura do acordo de livre comércio entre a União Europeia (UE) e o Mercosul foi adiada novamente, a primeira reação foi de surpresa. Mas, ao mergulhar nos detalhes, percebi que o descontentamento das associações industriais da Alemanha tem consequências que vão muito além das fronteiras europeias – e afetam diretamente a gente, que vive de exportar soja, carne e minério para o velho continente.
O que está acontecendo?
Depois de 25 anos de negociações, a UE e o Mercosul – bloco formado por Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai – deveriam fechar um acordo que reduziria tarifas, abriria mercados e, teoricamente, daria um impulso nas exportações de ambos os lados. No entanto, na última semana, o Conselho Europeu decidiu adiar a assinatura para janeiro, gerando um clima de frustração entre as maiores associações empresariais da Alemanha.
Quem está falando?
- Tanja Goenner, diretora administrativa da BDI (Federação Alemã de Indústria), classificou o adiamento como “retrocesso para a credibilidade da Europa”.
- Hildegard Mueller, presidente da VDA (Associação da Indústria Automobilística Alemã), acusou a UE de “enviar um sinal de fraqueza”.
- Volker Treier, chefe de comércio exterior da DIHK (Câmara de Comércio Alemã), apontou que cerca de 85 % das exportações europeias para o Mercosul ainda pagam tarifas, gerando custos de cerca de 4 bilhões de euros por ano.
Por que a Alemanha se importa tanto?
A Alemanha é a maior economia da Europa e tem um setor industrial altamente dependente de cadeias globais de suprimentos. Para as montadoras, por exemplo, o acesso a matérias‑primas como minério de ferro e alumínio – muito produzidos no Mercosul – é essencial. Reduzir tarifas significa:
- Menor custo de produção dos veículos.
- Preços mais competitivos nas exportações para fora da Europa.
- Maior segurança de abastecimento, reduzindo a dependência da China.
Além disso, a BGA (Associação Comercial Alemã) estima que o acordo poderia elevar as exportações da UE em até 39 % até 2040. Essa projeção inclui não só produtos industriais, mas também bens de consumo que chegam às prateleiras europeias.
E o que isso tem a ver comigo, brasileiro?
Para quem trabalha no agronegócio ou em indústrias exportadoras, o atraso tem duas faces:
- Oportunidade perdida: Cada ano de espera significa tarifas que ainda são cobradas sobre soja, carne bovina, açúcar e minério de ferro. Esses custos são repassados ao produtor, que vê sua margem de lucro comprimida.
- Incerteza de mercado: Investidores estrangeiros ficam cautelosos. Se a UE parece indecisa, eles podem preferir destinos mais estáveis, como o Sudeste Asiático, que já tem acordos mais avançados.
Em números, a taxa média de tarifa sobre produtos agrícolas do Mercosul na UE ainda gira em torno de 10 % a 15 %. Eliminar ou reduzir essas alíquotas poderia representar bilhões a mais em receitas anuais para os exportadores brasileiros.
Quem está contra o acordo?
Nem tudo são flores no bloco europeu. França e Itália, por exemplo, temem que a entrada de commodities mais baratas – especialmente carnes e grãos – prejudique seus agricultores. Na última quinta‑feira, milhares de produtores europeus protestaram em Bruxelas, chegando a bloquear vias com tratores.
Esses países defendem a necessidade de “salvaguardas agrícolas”, que limitariam a quantidade de produtos importados ou imporem padrões mais rígidos. Essa postura cria um impasse: enquanto a Alemanha e a Espanha pressionam por um acordo que favoreça a competitividade, países mais agrícolas insistem em proteger seus mercados internos.
Qual é o papel da política americana?
O cenário não se resume à disputa interna da UE. A política tarifária dos Estados Unidos, especialmente sob a administração de Donald Trump, trouxe um clima de protecionismo que afetou toda a cadeia de comércio global. A UE, ao buscar o acordo com o Mercosul, tenta diversificar suas parcerias e reduzir a dependência de fornecedores que podem ser alvo de sanções ou barreiras.
Em outras palavras, o acordo UE‑Mercosul é visto como um contrapeso ao “American‑First” que tem colocado pressão sobre cadeias de suprimentos de alta tecnologia e commodities.
O que pode mudar em 2025?
Se a assinatura acontecer em janeiro, ainda há um longo caminho até a ratificação completa pelos parlamentos dos países membros. Mas, ao menos, a expectativa é que as tarifas sejam reduzidas gradualmente nos próximos cinco a dez anos.
Para nós, brasileiros, isso significa:
- Planejamento de investimentos em logística – portos, ferrovias e armazéns – para aproveitar as novas rotas de exportação.
- Possibilidade de firmar contratos de longo prazo com compradores europeus, que buscam estabilidade de preço.
- Necessidade de acompanhar de perto as políticas agrícolas da UE, que podem mudar as regras de origem ou os requisitos de sustentabilidade.
Como se preparar?
Mesmo com a incerteza, há passos concretos que empresas e produtores podem tomar:
- Investir em certificações internacionais (por exemplo, ISO 14001 ou Fair Trade) para se diferenciar quando a concorrência se intensificar.
- Buscar parcerias logísticas que reduzam custos de transporte até os portos europeus.
- Monitorar a agenda da Comissão Europeia, especialmente as discussões sobre “salvaguardas agrícolas”.
- Diversificar mercados – não colocar todos os ovos na cesta da UE, mas usar o acordo como mais uma porta de entrada.
Conclusão
O atraso na assinatura do acordo UE‑Mercosul pode parecer um detalhe burocrático, mas, na prática, ele reflete tensões geopolíticas, interesses econômicos divergentes e o futuro da competitividade global. Para a indústria alemã, a frustração vem do medo de perder oportunidades de crescimento e de ver a Europa perder credibilidade como parceiro comercial.
Para o Brasil, o que está em jogo são bilhões de euros em tarifas que ainda pesam sobre nossas exportações. Cada mês de adiamento é um custo a mais para quem produz soja, carne ou minério. Por isso, vale a pena acompanhar de perto as negociações, entender os argumentos dos diferentes países europeus e, principalmente, se preparar para aproveitar o momento em que o acordo finalmente se concretizar.
Se você está no agronegócio, na indústria ou simplesmente acompanha as notícias econômicas, fique atento: o próximo passo da UE pode mudar a forma como fazemos negócios com a Europa nos próximos anos.



