Na última quarta‑feira, a Argentina e os Estados Unidos assinaram um acordo que, à primeira vista, parece mais um detalhe diplomático entre Washington e Buenos Aires. Mas, se a gente parar para pensar, esse documento tem implicações que vão muito além de uma simples reunião de ministros. Ele pode mudar a forma como o mundo garante o abastecimento de recursos como lítio, cobre e outros minerais críticos, que são a base das tecnologias que usamos todos os dias – dos smartphones às baterias de carros elétricos.
O encontro foi liderado por Marco Rubio, secretário de Estado dos EUA, e contou com a presença do presidente argentino Javier Milei. O objetivo declarado é “fortalecer e dar mais segurança às cadeias de suprimento”. Em termos práticos, isso significa criar condições para que as empresas possam investir em mineração, processamento e exportação desses materiais com mais confiança, sabendo que haverá políticas estáveis e apoio governamental.
Para a Argentina, que ainda luta para sair de uma crise econômica crônica, a mineração já é um dos pilares da estratégia de crescimento. O Ministério das Relações Exteriores informou que, em 2025, as exportações de mineração atingiram US$ 6,04 bilhões – um salto de quase 30 % em relação ao ano anterior, impulsionado principalmente pelos incentivos do Regime de Incentivo a Grandes Investimentos (RIGI). Esse número, embora impressionante, ainda é apenas a ponta do iceberg quando se pensa nas projeções de longo prazo: o país planeja chegar a US$ 100 bilhões em exportações totais nos próximos sete anos, com a mineração representando até US$ 30 bilhões até 2035.
Mas por que os EUA se interessam tanto? A resposta está na chamada “corrida dos minerais críticos”. À medida que a transição energética acelera, a demanda por lítio, cobre, níquel e cobalto dispara. Esses elementos são essenciais para baterias, painéis solares, turbinas e uma infinidade de dispositivos eletrônicos. Os Estados Unidos, que ainda dependem de importações de países como a China para suprir boa parte dessa demanda, veem na Argentina uma fonte estratégica que pode diversificar seu portfólio de fornecedores.
Além da segurança de abastecimento, o acordo traz benefícios claros para o investimento estrangeiro. Quando um governo sinaliza que vai manter regras claras, estabilidade macroeconômica e um ambiente favorável ao capital, empresas de mineração globais – que costumam ser gigantes com orçamentos de bilhões – ficam mais propensas a abrir minas, construir usinas de processamento e criar centros de pesquisa no território argentino.
Isso tem um efeito cascata na geração de empregos qualificados. Não são apenas operários de mina; são engenheiros, geólogos, técnicos de laboratório e profissionais de logística que podem encontrar novas oportunidades. Em regiões tradicionalmente dependentes da agroindústria, a mineração pode ser um motor de desenvolvimento regional, trazendo infraestrutura como estradas, energia e até serviços de saúde.
Entretanto, nem tudo são flores. A mineração também levanta questões ambientais e sociais delicadas. A extração de lítio, por exemplo, costuma demandar grandes volumes de água, o que pode gerar conflitos em áreas já vulneráveis à escassez hídrica. Além disso, comunidades locais muitas vezes se sentem excluídas dos lucros gerados pelos recursos naturais de suas terras.
Por isso, o acordo menciona a necessidade de criar cadeias de valor mais “sólidas e diversificadas”. Na prática, isso pode significar a inclusão de projetos de responsabilidade social corporativa, investimentos em tecnologias de mineração mais limpas e a promoção de parcerias com universidades e centros de pesquisa argentinos.
Do ponto de vista geopolítico, a assinatura do acordo também sinaliza uma mudança de alinhamento. A Argentina, que nos últimos anos tem buscado diversificar suas parcerias comerciais, agora conta com um dos maiores compradores de minerais críticos do mundo ao seu lado. Isso pode abrir portas para acordos semelhantes com a União Europeia ou países do Sudeste Asiático, que também sentem a pressão por uma cadeia de suprimentos mais resiliente.
Para o leitor comum, o que tudo isso muda no dia a dia? Primeiro, pode significar que os eletrônicos que você compra – seja um smartphone, um laptop ou até mesmo um carro elétrico – terão componentes produzidos de forma mais segura e, possivelmente, a um custo menor. Segundo, pode gerar oportunidades de carreira em setores que antes pareciam distantes, como mineração de alta tecnologia ou pesquisa de materiais avançados.
Além disso, o fortalecimento da mineração na Argentina pode impactar a balança comercial da América Latina como um todo. Se o país conseguir alcançar a meta de US$ 30 bilhões em exportações de minerais críticos, isso representará um aumento significativo nas receitas de divisas, o que pode ajudar a equilibrar déficits e reduzir a dependência de commodities agrícolas.
Mas é preciso cautela. O sucesso desse acordo depende de uma série de fatores: a continuidade das políticas de incentivo, a capacidade de atrair investimentos de longo prazo, a gestão ambiental responsável e a aceitação das comunidades locais. Sem esses elementos, o risco de que o projeto se torne apenas mais um anúncio político é alto.
Em resumo, o acordo entre Argentina e EUA sobre minerais críticos é um marco que vai muito além de um aperto de mão em Washington. Ele traz promessas de crescimento econômico, diversificação de mercados e segurança de abastecimento, ao mesmo tempo em que coloca em evidência desafios ambientais e sociais que precisam ser enfrentados com responsabilidade.
Se você acompanha as notícias de tecnologia, energia limpa ou economia internacional, vale a pena ficar de olho nos próximos passos desse acordo. Afinal, os minerais críticos são a espinha dorsal da revolução verde que está remodelando o planeta. E a Argentina pode estar se preparando para ser um dos protagonistas desse novo capítulo.



