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Alphabet compra a Intersect: o que a corrida por energia limpa significa para a gente

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Alphabet compra a Intersect: o que a corrida por energia limpa significa para a gente

Na última segunda‑feira, a Alphabet – empresa‑mãe do Google – anunciou a compra da desenvolvedora de energia limpa Intersect por US$ 4,75 bilhões em dinheiro, assumindo também as dívidas da companhia. A notícia pegou muita gente de surpresa, principalmente porque o valor é gigantesco e o foco da compra não é um novo serviço de internet, mas sim energia renovável para alimentar data centers.

Por que a Alphabet está investindo tanto em energia?

Para entender o movimento, precisamos lembrar que a inteligência artificial (IA) está se tornando o grande motor de consumo de energia dos últimos anos. Cada modelo de IA que vemos ganhar força – do ChatGPT ao Gemini do próprio Google – precisa ser treinado em supercomputadores que consomem megawatts de eletricidade. Quando esses algoritmos entram em produção, o consumo de energia só aumenta, porque milhares de servidores ficam ligados 24 horas por dia, processando consultas de usuários ao redor do mundo.

Nos Estados Unidos, onde a maior parte dos data centers da Alphabet está localizada, as redes elétricas já estão sentindo o peso desse crescimento. A demanda por eletricidade impulsionada pela IA está ultrapassando a capacidade de geração e transmissão em algumas regiões, gerando apagões pontuais e aumentando o preço da energia. É aí que entra a estratégia de comprar projetos de energia limpa: garantir que a fonte de energia seja estável, barata e, principalmente, sustentável.

O que a Intersect traz para a mesa?

A Intersect não é apenas mais uma empresa de energia solar ou eólica. Ela possui cerca de US$ 15 bilhões em ativos, incluindo projetos já em operação e outros em construção. Até 2028, a expectativa é que a Intersect tenha cerca de 10,8 gigawatts (GW) de capacidade instalada ou em desenvolvimento. Para colocar em perspectiva, isso equivale a mais de 20 vezes a energia gerada pela Usina Hidrelétrica Hoover, nos EUA.

Os projetos da Intersect estão espalhados principalmente pelo Texas e Califórnia – duas regiões que já enfrentam desafios de rede. No Texas, por exemplo, a Intersect está construindo o “Quantum”, um grande sistema de armazenamento de energia que será instalado ao lado de um complexo de data centers do Google. Essa combinação de geração + armazenamento permite que a Alphabet use energia limpa mesmo quando o sol não brilha ou o vento não sopra, reduzindo a dependência da rede tradicional.

Como isso afeta o nosso dia a dia?

À primeira vista, parece que a compra tem pouca relação com a vida do brasileiro. Mas há três impactos diretos que vale a pena destacar:

  • Preço da energia: Quando gigantes de tecnologia investem em energia renovável, a concorrência aumenta. Isso pode acelerar a transição para fontes limpas no Brasil, pressionando concessionárias a melhorar suas tarifas e a investir mais em solar e eólica.
  • Inovação em armazenamento: Projetos como o Quantum são um laboratório de tecnologias de baterias de grande escala. Caso a Alphabet decida replicar esses modelos em outros continentes, o Brasil pode se tornar um parceiro estratégico, recebendo investimentos para construir parques de armazenamento em regiões como o Nordeste, onde a energia solar é abundante.
  • Empregos e capacitação: A cadeia de suprimentos de energia limpa – desde a fabricação de painéis até a manutenção de parques e baterias – cria milhares de vagas técnicas. Se a Alphabet abrir centros de dados no Brasil alimentados por energia renovável, haverá demanda por engenheiros, técnicos e especialistas em IA que entendam de infraestrutura energética.

Desafios e críticas

Nem tudo são flores. Alguns analistas apontam que a compra pode ser vista como uma forma de “greenwashing” – ou seja, a empresa demonstra preocupação ambiental para melhorar sua imagem, mas ainda depende de fontes fósseis em outras partes do mundo. Além disso, a Intersect continuará independente da Alphabet em alguns projetos, especialmente os que já operam no Texas e Califórnia. Isso pode gerar conflitos de interesse se as metas de redução de carbono não forem alinhadas.

Outro ponto crítico é a questão regulatória. Nos EUA, a expansão de energia limpa ainda enfrenta barreiras burocráticas e resistência de grupos que defendem o uso de combustíveis fósseis. Se a Alphabet conseguir navegar por esse cenário, pode abrir caminho para outras empresas brasileiras considerarem investimentos semelhantes, mas ainda há muita incerteza.

O que isso significa para o futuro da IA e da energia no Brasil?

O Brasil tem um enorme potencial de geração renovável – mais de 70 % da matriz elétrica já vem de fontes limpas, principalmente hidrelétrica, e o país tem um dos maiores recursos solares do mundo. A tendência global é que a demanda por energia de IA continue crescendo exponencialmente. Se empresas como a Alphabet começarem a buscar parceiros locais para alimentar seus data centers, poderemos ver um boom de investimentos em parques solares no interior de São Paulo, Minas Gerais ou no Nordeste.

Além disso, a experiência da Intersect em combinar geração com armazenamento pode inspirar projetos brasileiros de “micro‑grids” – redes locais que funcionam de forma autônoma, abastecendo comunidades e indústrias em áreas remotas. Imagine um data center de IA localizado em uma região semiárida, alimentado por energia solar durante o dia e por baterias à noite. Esse modelo poderia reduzir custos operacionais e ainda criar um ecossistema de inovação tecnológica em regiões que hoje dependem de energia cara.

Conclusão

Em resumo, a compra da Intersect pela Alphabet é mais do que um simples negócio de bilhões de dólares. Ela revela como a corrida por IA está redefinindo o mapa energético global e como a sustentabilidade está se tornando um requisito estratégico para quem quer liderar o futuro da tecnologia.

Para nós, brasileiros, o movimento traz esperança de que a energia limpa vá se tornar ainda mais presente nos próximos anos, impulsionando empregos, inovação e, quem sabe, a instalação de data centers de IA aqui no país. Ainda há desafios – regulatórios, de infraestrutura e de alinhamento de metas – mas a tendência é clara: quem controla a energia controla a IA, e quem controla a IA define o futuro.

E você, já pensou em como a energia que alimenta seu smartphone pode estar ligada a um data center que roda um modelo de IA avançado? A próxima vez que abrir um aplicativo, lembre‑se de que, nos bastidores, gigantes como a Alphabet estão investindo bilhões para que tudo funcione de forma limpa e eficiente.