Na última quinta‑feira (18), o coração da Europa bateu mais forte – mas não de alegria. Milhares de agricultores de toda a União Europeia chegaram a Bruxelas, arrastando tratores, pneus e, infelizmente, muita tensão. O motivo? O tão aguardado acordo comercial entre a UE e o Mercosul, que promete mudar a forma como alimentos e commodities circulam entre continentes.
Por que o acordo UE‑Mercosul desperta tanta polêmica?
Em linhas gerais, o tratado quer reduzir ou eliminar tarifas de importação e exportação entre os blocos. Para o Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai, isso significa acesso facilitado a um dos maiores mercados consumidores do mundo. Para a Europa, a ideia é abrir espaço a produtos mais baratos e diversificar as opções nas prateleiras.
Mas nem tudo são flores. Os agricultores europeus temem que a entrada massiva de carne bovina, soja, açúcar e aves sul‑americanas torne seus produtos menos competitivos. Eles também apontam que os padrões ambientais e sociais adotados nos países do Mercosul não são tão rigorosos quanto os da UE, o que criaria uma “concorrência desleal”.
O que aconteceu em Bruxelas?
O protesto começou pacífico, com tratores estacionados ao redor do Parlamento Europeu. Logo, a situação mudou de tom:
- Uma pilha de pneus foi incendiada, gerando fumaça densa que cobriu parte da área.
- Manifestantes atiraram batatas e objetos contra a polícia, que respondeu com gás lacrimogêneo e canhões d’água.
- Uma janela do prédio Station Europe, na Praça de Luxemburgo, foi quebrada.
- Um trator tentou avançar contra a linha de choque, mas não chegou a atingir ninguém.
Ao menos um manifestante acabou ferido na cabeça. A polícia belga, que havia autorizado até 50 tratores, acabou lidando com mais de 1.000 veículos, segundo relatos.
Os bastidores políticos
O protesto coincidiu com a última cúpula dos 27 países da UE deste ano, um momento decisivo para a assinatura do acordo. Enquanto a França lidera a oposição, Itália, Hungria e Polônia dão apoio. A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, acabou anunciando que a assinatura prevista para o sábado (20) foi adiada.
Além da disputa sobre o tratado, há outra preocupação no campo europeu: a redução de subsídios da Política Agrícola Comum (PAC) para o período 2028‑2034. A Federação Valona de Agricultura (FWA) alertou que a UE propõe cortar mais de 20% do orçamento agrícola, ao mesmo tempo em que avança com o acordo Mercosul. Para muitos agricultores, isso é um “duplo golpe”.
O ponto de vista dos produtores
Os sindicatos agrícolas europeus, como a Copa‑Cogeca e a FNSEA (França), defendem que:
- Os padrões de produção no Mercosul precisam ser alinhados aos europeus, principalmente em questões ambientais.
- Os agricultores europeus precisam de garantias de que não perderão mercado para produtos mais baratos.
- Qualquer acordo deve ser acompanhado de mecanismos de fiscalização eficazes.
Hugues Falys, representante do sindicato belga Fugea, ressaltou que “a Comissão propõe mecanismos de controle, mas não temos confiança neles”.
O que isso significa para o Brasil?
Para o agronegócio brasileiro, o acordo é visto como uma oportunidade histórica de expandir exportações para a UE. A soja, a carne bovina e o açúcar já são grandes players nas relações comerciais. Contudo, a resistência europeia pode atrasar ou até impedir a concretização do tratado, afetando expectativas de crescimento nas exportações.
Se o acordo for revisto ou renegociado, o Brasil pode precisar adaptar práticas agrícolas para atender a requisitos mais rígidos de sustentabilidade. Isso pode representar custos adicionais, mas também abrir portas para produtos premium, que cobram preços maiores por certificações ambientais.
Como ficar de olho nos próximos passos?
Para quem acompanha a política internacional ou tem interesse no futuro do alimento na mesa, vale observar:
- As próximas reuniões da Comissão Europeia: elas definirão se o acordo será renegociado ou suspenso.
- As reações dos governos do Mercosul, especialmente Brasil e Argentina, que podem pressionar por concessões.
- Os movimentos dos sindicatos agrícolas na Europa, que podem organizar novos protestos ou buscar diálogo.
- Os indicadores de comércio nos próximos meses, como volume de exportação de soja e carne para a UE.
Reflexões finais
Eu sempre achei que acordos comerciais fossem algo distante, feito em salas fechadas, mas ver milhares de tratores nas ruas de Bruxelas me fez perceber o quanto essas decisões afetam a vida real das pessoas. Quando se fala de alimentos, estamos falando de algo que chega à nossa mesa, ao nosso bolso e, claro, ao nosso planeta.
Se a UE decidir adiar ou reformular o tratado, talvez seja a chance de buscar um equilíbrio mais justo – que proteja os agricultores europeus sem fechar as portas para o Brasil. Se, por outro lado, o acordo avançar sem mudanças, poderemos ver uma nova dinâmica de competição que exigirá adaptação de ambos os lados.
O que importa, no fim das contas, é que o debate continue aberto, transparente e, sobretudo, que leve em conta a sustentabilidade e a segurança alimentar global. Enquanto isso, o cheiro de pneus queimados em Bruxelas ficará na memória como um lembrete de que a agricultura ainda tem muita voz a ser ouvida.



