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Adeus ao visionário da aviação low‑cost: o legado de Constantino Júnior

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Adeus ao visionário da aviação low‑cost: o legado de Constantino Júnior

Recebi a notícia ainda na manhã de sábado e, como muitos de vocês, fiquei sem saber bem o que dizer. Constantino de Oliveira Júnior, o homem que, com um sonho simples – tornar voar mais barato para todos – fundou a Gol, acabou de nos deixar aos 57 anos, em São Paulo. Não é só a partida de um executivo; é o fim de uma era que mudou a forma como viajamos pelo Brasil.



Quem foi Constantino Júnior?

Para quem não acompanha o mercado de aviação, pode parecer que o nome de Constantino não é tão conhecido quanto o da própria Gol. Mas a história dele é bem mais interessante que a maioria das biografias de CEOs.

Ele começou sua carreira na Comporte Participações, um grupo que já controlava várias empresas de transporte terrestre. De 1994 a 2000, atuou como diretor, aprendendo na prática como mover pessoas de um ponto a outro, seja em ônibus ou em trens. Essa experiência foi o que lhe deu a confiança para lançar algo ainda maior: uma companhia aérea que não cobrasse tarifas abusivas.

Em 2001, com apoio da família e de investidores, criou a Gol Linhas Aéreas Inteligentes. A proposta era clara – “baixo custo, baixa tarifa”. Na época, o mercado brasileiro era dominado por grandes players que praticavam preços altos e serviços luxuosos. Constantino enxergou uma oportunidade: oferecer voos acessíveis, com serviço simples, mas confiável.



O impacto da Gol no Brasil

Quando a Gol decolou, não foi só mais uma empresa entrando no céu. Foi um divisor de águas. A estratégia de tarifas baixas forçou as concorrentes a repensarem seus preços, beneficiando milhões de brasileiros que antes nem sonhavam em viajar de avião. A democratização do voo interno abriu portas para o turismo regional, negócios e até para visitas familiares que antes eram inviáveis.

Além do preço, a Gol trouxe inovações como check‑in online, bagagens mais leves e um modelo de operação enxuto que reduziu custos operacionais. Esses elementos se tornaram padrão no setor, e hoje são praticamente obrigatórios em qualquer companhia que queira competir.

Mas o que realmente marcou o legado de Constantino foi o jeito humano com que conduziu a empresa. Ele era conhecido por ser simples, acessível e por manter um contato próximo com funcionários e clientes. Essa postura ajudou a criar uma cultura corporativa forte, baseada em valores de transparência e foco no cliente.



Além da Gol: o Grupo ABRA e a paixão pelo automobilismo

Em 2022, Constantino ajudou a fundar o Grupo ABRA, uma holding que controla não só a Gol, mas também a Avianca da Colômbia. Essa estratégia de consolidação regional mostrou que ele ainda tinha visão de futuro, buscando sinergias e expansão internacional.

Mas a vida de Constantino não girava só em torno de aviões. Ele era um entusiasta do automobilismo e chegou a competir na Porsche Cup, mostrando que a busca por velocidade e desempenho estava no seu DNA. Essa paixão por desafios se refletia nas decisões de negócios: sempre disposto a arriscar, mas com um plano bem estruturado.

O que a partida de Constantino significa para nós?

Para quem acompanha o mercado, a morte de um fundador tão emblemático traz reflexões importantes:

  • Continuidade da cultura: A Gol tem um conselho forte e uma equipe que internalizou os valores de Constantino. A pergunta que fica é se eles conseguirão manter a mesma ousadia sem o líder à frente.
  • Inovação constante: O modelo low‑cost evoluiu muito nos últimos anos, com novas tecnologias como IA para otimizar rotas e melhorar a experiência do passageiro. A Gol precisará investir ainda mais em inovação para não ficar para trás.
  • Desafios regulatórios: O setor aéreo brasileiro ainda enfrenta questões como alta carga tributária e infraestrutura limitada nos aeroportos. A liderança que Constantino exercia no lobby pode ser difícil de substituir.

Do ponto de vista pessoal, lembro de ter lido entrevistas onde ele falava sobre a importância de tornar o voo uma experiência “para todos”. Essa mensagem ainda ecoa nos corredores da empresa e nas decisões que tomamos como consumidores.

Como honrar o legado?

Se você é um viajante frequente, a melhor forma de prestar homenagem é continuar aproveitando as oportunidades que a Gol criou – voar mais barato, explorar novos destinos e apoiar empresas que valorizam o cliente.

Se você é empreendedor, a história de Constantino serve como inspiração: identificar uma necessidade não atendida, criar um modelo de negócio enxuto e manter a humildade ao crescer.

E, se você tem interesse em aviação, vale a pena estudar como a Gol estruturou sua operação, desde a escolha de aeronaves até a negociação de slots em aeroportos. Muitos cursos e workshops abordam esse caso como exemplo de sucesso.

Um último voo

Embora a partida de Constantino Júnior seja um momento de tristeza, sua contribuição permanece viva nos céus brasileiros. Cada vez que alguém compra uma passagem barata e chega ao destino com um sorriso, está, de certa forma, agradecendo a visão daquele que ousou mudar o mercado.

Descanse em paz, Constantino. Seu legado continua a voar alto.