Na última sexta‑feira, o clima em Paris ficou tenso. O governo de Emmanuel Macron, representado pelo primeiro‑ministro Sébastien Lecornu, viu duas forças políticas – a extrema direita da RN (Rassemblement National) e a extrema esquerda da LFI (La France Insoumise) – apresentarem moções de censura após a aprovação do acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul. Para quem não acompanha de perto a política francesa, a situação pode parecer um drama distante, mas ela tem implicações reais para o comércio, a agricultura e, claro, para a próxima eleição presidencial de 2027.
O que é o acordo UE‑Mercosul?
Depois de mais de 25 anos de negociações, a UE e o bloco sul‑americano finalmente chegaram a um pacto que promete ser o maior acordo de livre‑comércio já firmado. Em linhas gerais, ele abre as portas para a exportação de produtos agrícolas, minerais e industriais do Mercosul (Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai) para a Europa, e vice‑versa. A ideia dos defensores é criar um contrapeso às políticas protecionistas dos EUA e reduzir a dependência da China, especialmente em minerais críticos para a indústria de alta tecnologia.
Mas o acordo também levanta temores. Agricultores franceses temem uma inundação de carne barata, açúcar e outros produtos que podem colocar em risco a rentabilidade das pequenas propriedades. Por isso, a França, como maior produtor agrícola da UE, foi um dos poucos países a votar contra o pacto, embora não tenha conseguido bloquear sua aprovação.
Por que a oposição quer usar a moção de censura?
A moção de censura é, na prática, um pedido formal ao parlamento para que o governo perca a confiança. Se aprovada, o primeiro‑ministro pode ser forçado a renunciar. No caso atual, a RN e a LFI sabem que não têm maioria suficiente para derrubar o governo – a quinta‑república francesa nunca viu um governo cair por essa via nos últimos anos – mas ainda assim lançam o pedido por duas razões principais:
- Pressão política: ao colocar o governo sob suspeita, os partidos esperam forçar concessões ou, ao menos, ganhar visibilidade junto ao eleitorado rural.
- Preparação para 2027: a proximidade das eleições presidenciais faz com que a RN, liderada por Marine Le Pen, queira capitalizar o descontentamento dos agricultores e usar o acordo como bandeira de campanha.
Analistas, como Stewart Chau do Verian Group, apontam que as moções têm pouca chance de aprovação, mas podem servir como “catalisador” para a RN, que já tem forte apoio nas áreas rurais. Um discurso anti‑UE pode ganhar força se o governo for visto como “traidor” dos produtores locais.
Impactos concretos para o cidadão comum
Se você não tem uma fazenda, pode estar se perguntando por que esse debate importa para o seu bolso. Existem três caminhos pelos quais o acordo pode chegar até você:
- Preços dos alimentos: a entrada de carne, açúcar e frutas sul‑americanas mais baratas pode baixar os preços nas prateleiras, mas também pode reduzir a margem dos produtores locais, o que, a longo prazo, pode levar a menos diversidade de produtos regionais.
- Empregos na cadeia produtiva: setores como a indústria de vinhos, queijos e laticínios franceses podem ganhar novos mercados na América do Sul, gerando empregos e renda.
- Política fiscal: se a RN ganhar força e pressionar por políticas mais protecionistas, isso pode significar tarifas maiores ou subsídios diferentes, afetando tanto importadores quanto exportadores.
Em resumo, o acordo não é um “corte de energia” que vai mudar sua vida de um dia para o outro, mas ele cria um cenário de incertezas que pode influenciar o preço do pão, a disponibilidade de vinhos franceses no exterior e até as discussões sobre o orçamento nacional de 2026.
O orçamento de 2026 e a corda bamba de Macron
Além do acordo comercial, o governo francês enfrenta outro desafio: aprovar um orçamento já atrasado, sem maioria no parlamento. A falta de apoio interno dificulta a negociação de cortes ou aumentos de impostos, e a oposição usa a situação para apontar “falhas de liderança”. A moção de censura, embora improvável de ser aprovada, serve como um lembrete de que o governo está vulnerável.
Macron, que já tem um mandato marcado por protestos (como os dos “coletes amarelos”) e reformas controversas, precisa equilibrar duas frentes: convencer os parceiros europeus de que a França ainda tem peso nas decisões da UE e, ao mesmo tempo, acalmar os agricultores que se sentem “humilhados” por Bruxelas, como disse Mathilde Panot, da LFI.
O que podemos esperar nos próximos meses?
Alguns cenários possíveis:
- Renegociação parcial: a UE pode abrir uma janela para ajustes específicos que atendam às demandas francesas, como quotas de carne ou mecanismos de apoio ao agricultor.
- Escalada da retórica RN: caso a RN consiga transformar a oposição em movimento popular, poderemos ver manifestações mais intensas nos campos, pressionando ainda mais o governo.
- Estabilidade relativa: se o governo conseguir aprovar o orçamento e manter a coesão interna, o acordo pode avançar para a ratificação final no Parlamento Europeu, tornando‑se lei em 2026.
Para nós, que acompanhamos a política internacional de forma casual, a lição principal é que acordos comerciais nunca são apenas números e cláusulas. Eles são fios que conectam interesses econômicos, identidades regionais e estratégias eleitorais. Quando um país como a França, que tem um peso simbólico enorme na UE, se vê dividido, todo o bloco sente o efeito.
Se você tem curiosidade sobre como esses debates podem afetar seu dia a dia, fique de olho nas próximas decisões do Parlamento europeu e nas campanhas eleitorais francesas. O futuro do acordo UE‑Mercosul ainda tem muitos capítulos por escrever, e cada um deles pode trazer surpresas para agricultores, consumidores e políticos.



