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Acordo UE‑Mercosul: Por que a implementação provisória pode mudar a economia brasileira

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Acordo UE‑Mercosul: Por que a implementação provisória pode mudar a economia brasileira

Recentemente, a imprensa internacional trouxe uma notícia que pode parecer distante, mas que tem reflexos bem concretos no nosso dia a dia: o acordo de livre comércio entre a União Europeia e o Mercosul pode entrar em vigor de forma provisória já em março. A informação veio de um diplomata da UE, citada pela Reuters, e já está gerando debates acalorados tanto na Europa quanto na América do Sul.



Mas o que isso significa, na prática, para quem mora no Brasil, na Argentina, no Paraguai ou no Uruguai? E por que a Europa está tão ansiosa para que o tratado seja aplicado, mesmo com o processo judicial ainda em curso? Para responder a essas perguntas, vamos destrinchar o que está acontecendo, analisar os prós e contras e, principalmente, entender como isso pode impactar a nossa vida – seja na conta de luz, no preço da carne ou nas oportunidades de negócios para empreendedores.



Um acordo que demorou 25 anos para ser assinado

O pacto UE‑Mercosul foi firmado em 17 de julho de 2023, marcando o maior acordo comercial da UE até hoje. Foram 25 anos de negociações, com milhares de páginas de texto, envolvendo questões que vão desde tarifas agrícolas até normas ambientais. O objetivo, segundo os defensores do tratado, é criar um canal de exportação mais barato e seguro para produtos sul‑americanos, ao mesmo tempo que abre o mercado europeu para bens manufaturados e serviços.

Por que a implementação provisória?

Na última quarta‑feira, o Parlamento Europeu enviou o acordo ao Tribunal de Justiça da UE, o que pode atrasar a ratificação final em até dois anos. Enquanto isso, um diplomata da UE afirmou que o tratado será aplicado provisoriamente assim que o primeiro país do Mercosul o ratificar – e a aposta é que seja o Paraguai, em março.

Essa estratégia de aplicação provisória não é incomum em acordos internacionais. Ela permite que partes interessadas comecem a usufruir dos benefícios enquanto questões jurídicas ainda são resolvidas. Na prática, isso significa que exportadores europeus poderão começar a comprar soja, carne bovina e açúcar com tarifas reduzidas, e produtores sul‑americanos poderão vender máquinas, automóveis e produtos farmacêuticos para a UE sem enfrentar barreiras tarifárias.



Quem ganha e quem perde?

Os argumentos a favor do acordo são bastante claros:

  • Compensar perdas com as tarifas dos EUA: Desde que os Estados Unidos aumentaram tarifas sobre produtos como aço e alumínio, a Europa tem buscado novos parceiros para equilibrar seu déficit comercial.
  • Reduzir a dependência da China: A UE quer diversificar suas fontes de importação, especialmente de commodities agrícolas.
  • Estimular a competitividade: Empresas europeias de logística, tecnologia e automóveis podem ganhar acesso a um mercado de quase 300 milhões de consumidores.

Por outro lado, críticos – sobretudo agricultores franceses – temem que a entrada massiva de carne bovina, açúcar e aves a preços mais baixos possa desestabilizar a produção local, levando a perdas de empregos e até ao fechamento de pequenas propriedades.

O ponto de vista brasileiro

No Brasil, o presidente da CGB, Alckmin, já deixou claro que o país não vai parar o processo interno de ratificação. O objetivo é garantir que, se o Paraguai ratificar primeiro, o Brasil possa se beneficiar da aplicação provisória, ao menos em parte. Para os exportadores de soja, café e carne, isso pode representar uma redução de custos logísticos e maior previsibilidade nos contratos com compradores europeus.

Mas há também riscos. Se a UE decidir aplicar o acordo de forma provisória sem a aprovação completa do Parlamento, pode haver questionamentos sobre a legitimidade democrática do processo, como apontou a porta‑voz do governo francês, Maud Bregeon. Isso pode gerar pressões políticas que, em última instância, afetem a estabilidade do acordo.

Impactos no bolso do consumidor

Para o consumidor brasileiro, a expectativa de que produtos europeus – como vinhos, queijos e máquinas de lavar – cheguem mais baratos pode ser boa notícia. Contudo, a inversão também é verdadeira: se a concorrência europeia pressionar os preços dos produtos agrícolas locais, os agricultores podem ver suas margens reduzidas, o que pode levar a aumentos de preço ao consumidor final.

Um exemplo prático: imagine que a carne bovina importada da Europa comece a ser vendida a preços competitivos no Brasil. Supermercados poderiam oferecer cortes mais baratos, mas produtores locais teriam que reduzir custos ou melhorar a produtividade, o que nem sempre é fácil.

O que esperar nos próximos meses?

Os líderes da UE se reunirão em Bruxelas ainda nesta quinta‑feira para discutir a situação. Enquanto isso, a Alemanha, representada por empresários e pelo chanceler Friedrich Merz, pressiona para que o acordo não seja atrasado. Merz chegou a dizer que a Europa “não pode se dar ao luxo de ficar ainda mais para trás”.

Se a aplicação provisória for aprovada, podemos ver um fluxo imediato de negócios: empresas de logística como a DHL já manifestaram apoio, argumentando que a rapidez na implementação ajudaria a manter empregos e a competitividade europeia.

Como se preparar?

Para quem tem um pequeno negócio ou pensa em exportar, vale a pena começar a mapear oportunidades agora. Algumas dicas práticas:

  • Estude os requisitos de certificação europeia: Produtos agroalimentares precisam atender a normas rígidas de segurança e rastreabilidade.
  • Busque parceiros logísticos: A redução de tarifas pode ser vantajosa, mas o transporte ainda representa um custo significativo.
  • Fique atento às notícias do Tribunal de Justiça da UE: Decisões judiciais podem mudar as regras de jogo a qualquer momento.
  • Considere diversificar mercados: Não dependa apenas da UE; explore também a Ásia e a América do Norte.

Em resumo, a possibilidade de que o acordo UE‑Mercosul entre em vigor de forma provisória já em março traz esperança de dinamismo econômico, mas também abre espaço para debates sobre soberania, justiça democrática e impactos setoriais. Como sempre, o melhor caminho é acompanhar de perto as decisões, entender como elas afetam o seu setor e, se possível, aproveitar as oportunidades que surgirem.

Fique de olho nas próximas semanas – a história ainda está sendo escrita, e nós somos parte dela.