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Acordo UE‑Mercosul: Por que a França virou o bode expiatório da crise agrícola?

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Acordo UE‑Mercosul: Por que a França virou o bode expiatório da crise agrícola?

Introdução – o que está em jogo?

Na última semana, a Comissão Europeia e o Mercosul se preparavam para fechar um dos acordos comerciais mais ambiciosos da história recente: a livre‑troca entre a União Europeia e o bloco sul‑americano. Para o agro brasileiro, o pacto abre portas para exportar carne, soja, açúcar e outros produtos a preços competitivos na Europa. Mas, enquanto Brasília celebra a perspectiva de novos mercados, Paris levanta o braço e pede adiamento. O que parece ser apenas mais um impasse político, na prática, revelou-se o reflexo de uma agricultura francesa em crise.

Uma crise sanitária que não para de crescer

Nos últimos meses, a França tem lidado com duas epidemias que atingem diretamente seus produtores:

  • Dermatose nodular contagiosa bovina: uma doença de pele que acomete o gado, obrigando o governo a sacrificar milhares de animais para conter a propagação.
  • Gripe aviária na região de Landes, principal polo de produção de patos para o foie gras. A ameaça fez com que granjas fossem isoladas e que o número de abates aumentasse consideravelmente.

Essas crises não só geram perdas econômicas imediatas, como também alimentam o medo de que a chegada de produtos do Mercosul – produzidos em condições sanitárias diferentes – possa agravar ainda mais a situação.

Problemas estruturais: de trigo a vinhos

Além das emergências sanitárias, o setor agrícola francês enfrenta desafios de longo prazo:

  • Competitividade nos cereais: o preço internacional do trigo tem sido volátil, e as safras europeias sofrem com secas e chuvas intensas, reduzindo a produtividade.
  • Vinhos e destilados: as exportações foram impactadas pela guerra tarifária iniciada por Donald Trump nos EUA, que ainda reverbera nos acordos de comércio global.
  • Cacau e café: o aumento dos preços internacionais desses commodities eleva os custos de produção de alimentos que utilizam esses ingredientes.

Em 2025, pela primeira vez em 50 anos, a França pode registrar um déficit comercial agrícola – ou seja, importar mais do que exportar. Esse cenário, que antes era impensável para um país que sempre se considerou “a despensa da Europa”, sinaliza um ponto de inflexão.

Política Agrícola Comum (PAC) em risco

Um dos pilares que sustentam a agricultura francesa são os subsídios da PAC. Atualmente, os agricultores recebem cerca de 9 bilhões de euros por ano – o equivalente a dois terços da renda do setor. Contudo, o próximo orçamento da UE (2028‑2034) pode ver cortes de até 20 %. Se isso acontecer, a França será a maior perdedora, já que depende mais que outros países desses recursos.

Menos dinheiro significa menos apoio a inovação, menos investimentos em tecnologias de precisão e, sobretudo, menos capacidade de enfrentar crises sanitárias e climáticas.

Competitividade e custos de produção

Jean‑Christophe Bureau, professor da AgroParisTech, destaca que a diferença de custo entre a França e seus vizinhos europeus está se ampliando. Por exemplo, a mão‑de‑obra na Espanha é mais barata graças à imigração, enquanto a Alemanha tem encargos trabalhistas menores. A França, por sua vez, tem custos mais altos e ainda enfrenta deficiências em pesquisa e desenvolvimento.

Essas disparidades se refletem no preço final dos produtos. Quando um consumidor francês compra uma maçã produzida na Polônia, ele paga menos do que se comprasse uma produzida em território nacional. Essa realidade tem impulsionado o aumento das importações de frutas e legumes – hoje, metade da oferta vem do exterior.

Regulamentações ambientais e o êxodo rural

Outro ponto sensível são as normas ambientais da UE. Embora a França se orgulhe de uma agricultura “sustentável”, as exigências cada vez mais rigorosas aumentam os custos de produção. Simultaneamente, a renda média dos agricultores está estagnada há duas décadas, o que tem afastado jovens do campo. O êxodo rural é evidente: muitas famílias rurais fecham suas propriedades e migram para as cidades em busca de oportunidades.

A diretora do IDDRI, Aurélie Cathalo, afirma que a degradação da fertilidade dos solos e a necessidade de adaptar a agronomia às mudanças climáticas são desafios que exigem investimento urgente. Sem isso, a produtividade continuará a cair, reforçando a dependência de importações.

O Mercosul como “bode expiatório”

Com esse pano de fundo, o acordo UE‑Mercosul se torna um alvo fácil para a insatisfação dos produtores franceses. Eles temem que a entrada de carne bovina, aves e mel latino‑americanos, produzidos sob normas ambientais menos rigorosas, desestabilize ainda mais o mercado interno.

Embora a Comissão Europeia tenha incluído salvaguardas – limites de importação e mecanismos de tarifação caso o preço de um produto latino‑americano fique 5 % abaixo do da UE ou as importações ultrapassem 5 % – os agricultores consideram essas medidas insuficientes. Para eles, o risco de “carga de concorrência” já está presente, e o novo acordo seria apenas mais um peso.

O papel da França no bloqueio do acordo

Politicamente, a França tem o poder de impedir a ratificação do tratado. Se alinhar com a Polônia e a Hungria, países que também têm reservas sobre a liberalização comercial, a maioria qualificada necessária para bloquear o acordo pode ser alcançada. A Itália, ainda indecisa, pode ser o fator decisivo.

Enquanto isso, o Parlamento Europeu aprovou medidas de proteção que permitem a aplicação de tarifas corretivas. Essa estratégia tenta equilibrar a necessidade de abrir mercados com a defesa dos setores mais vulneráveis.

O que isso significa para o Brasil?

Para o agro brasileiro, o cenário francês traz duas lições importantes:

  1. Diversificação de mercados: depender exclusivamente da UE pode ser arriscado. É prudente fortalecer relações comerciais com outros blocos, como o CPTPP ou acordos bilaterais com a Ásia.
  2. Qualidade e rastreabilidade: os consumidores europeus estão cada vez mais exigentes quanto a padrões sanitários e ambientais. Investir em certificações e transparência pode transformar o que hoje é visto como “ameaça” em vantagem competitiva.

Além disso, o Brasil pode usar a situação para pressionar a UE a melhorar as salvaguardas e a garantir que o comércio seja realmente “justo”. O fato de a França estar disposta a bloquear o acordo mostra que há espaço para negociação.

Perspectivas futuras

Se o acordo for assinado, o Brasil poderá aumentar suas exportações de carne bovina, suínos, aves, açúcar e soja para a UE. Contudo, será preciso acompanhar de perto as medidas de monitoramento e estar preparado para possíveis tarifas de salvaguarda.

Por outro lado, se a França conseguir bloquear o tratado, o bloco europeu permanecerá fragmentado em termos comerciais, o que pode abrir oportunidades para outros parceiros, como a Austrália ou o Canadá, que também buscam acesso ao mercado europeu.

Em resumo, o que começou como um debate sobre tarifas acabou revelando as fragilidades de um modelo agrícola francês que luta contra crises sanitárias, falta de competitividade e políticas de apoio em retração. Para o Brasil, a lição é clara: qualidade, inovação e diversificação são essenciais para transformar acordos internacionais em crescimento sustentável.

Conclusão

O acordo UE‑Mercosul está longe de ser apenas um documento assinado em um salão de conferências. Ele reflete tensões profundas entre produtores que buscam proteger seus meios de vida e blocos que desejam abrir mercados. A França, ao se posicionar como o principal opositor, acabou se tornando o “bode expiatório” de uma agricultura que, após décadas de glória, agora enfrenta uma série de desafios estruturais.

Para nós, leitores e consumidores, entender esse cenário ajuda a perceber que os alimentos que chegam à mesa carregam histórias complexas de política, economia e meio ambiente. E, quem sabe, essa compreensão nos faça valorizar ainda mais a importância de políticas agrícolas equilibradas – tanto no Brasil quanto na Europa.