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Acordo UE‑Mercosul: O que o novo tratado significa para o agro brasileiro?

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Acordo UE‑Mercosul: O que o novo tratado significa para o agro brasileiro?

Na última semana, o Mercosul e a União Europeia fecharam um acordo que cria uma zona de livre comércio entre os dois blocos. Para quem acompanha o mercado de commodities, a notícia não chega como um simples comunicado de imprensa; ela mexe diretamente no futuro das exportações brasileiras, sobretudo do agronegócio.



O Brasil já é o maior produtor mundial de soja, milho, café, carne bovina e suína, e a UE figura como o segundo maior comprador desses produtos. Isso cria uma relação de dependência mútua que, até agora, tem sido regulada por tarifas e cotas que, muitas vezes, dificultam a competitividade dos nossos produtores.



Como funciona o acordo?

Em linhas gerais, o tratado elimina a maioria das tarifas sobre produtos agrícolas e simplifica regras de origem. Isso significa que, ao invés de pagar impostos de importação que podem chegar a 10 % ou mais, o exportador brasileiro poderá vender para a UE com preços mais competitivos.

Além da redução de tarifas, o acordo traz capítulos sobre sanções sanitárias, normas fitossanitárias e padrões de qualidade. O objetivo é criar um “caminho mais curto” entre o campo brasileiro e o consumidor europeu, reduzindo burocracias que hoje podem atrasar embarques por semanas.



O que os números dizem?

Para entender o impacto, vale olhar para os dados de exportação. Em 2023, o Brasil enviou cerca de US$ 30 bilhões em produtos agropecuários para a UE, representando aproximadamente 15 % do total de exportações agrícolas do país. Se mantivermos a tendência de crescimento – que tem sido de cerca de 8 % ao ano – podemos projetar que, em 2025, essas exportações ultrapassem os US$ 35 bilhões.

Os principais produtos são:

  • Soja: cerca de 5 milhões de toneladas, respondendo por quase 30 % do volume total para a UE.
  • Carne bovina: 1,2 milhão de toneladas, com destaque para cortes de alta qualidade.
  • Carne suína: 800 mil toneladas, beneficiada por acordos de sanidade.
  • Açúcar e café: volumes menores, mas com margens atrativas.

Esses números mostram que, embora a UE não seja o maior comprador (a China ainda lidera), ela tem potencial para crescer rapidamente, especialmente se as barreiras tarifárias forem reduzidas.

Benefícios práticos para o produtor

Para o pequeno e médio produtor, a principal vantagem é a possibilidade de negociar preços mais altos sem que o custo das tarifas corroa a margem. Além disso, a simplificação dos processos de certificação pode acelerar a liberação de cargas nos portos europeus.

Mas nem tudo são flores. O acordo também traz a exigência de conformidade com normas ambientais e de bem‑estar animal cada vez mais rigorosas. Produtores que ainda não adotam práticas sustentáveis podem enfrentar restrições ou precisar investir em certificações.

Desafios e críticas

Alguns setores do agronegócio expressam preocupação. Por exemplo, os agricultores de algodão temem que a concorrência de produtores europeus, que já contam com subsídios, possa limitar a entrada de nossos produtos. Há também o receio de que a UE use a política de “sustentabilidade” como forma de barreira não‑tarifária, exigindo comprovações que aumentem custos.

Do lado europeu, há críticas de grupos ambientais que temem que a abertura do mercado aumente a pressão sobre a Amazônia e outros biomas. Eles pedem que o acordo inclua cláusulas mais fortes de proteção florestal e de redução de emissões de gases de efeito estufa.

O que isso significa para você?

Se você é consumidor, pode notar preços mais estáveis de produtos como carne e soja no supermercado, já que os custos de importação cairão. Se você é produtor, o cenário abre novas oportunidades de negociação, mas também exige atenção redobrada às exigências de qualidade e sustentabilidade.

Para investidores, o acordo sinaliza um ambiente mais favorável ao agronegócio, o que pode impulsionar ações de empresas do setor e atrair capital estrangeiro.

Perspectivas para o futuro

O acordo ainda precisa ser ratificado pelos parlamentos dos países membros, o que pode levar alguns anos. Enquanto isso, as empresas já começam a adaptar suas cadeias de suprimentos, investindo em tecnologia de rastreamento, certificações e logística.

Se tudo correr bem, poderemos ver, a partir de 2026, um aumento de até 20 % nas exportações agropecuárias para a UE. Esse crescimento não só reforça a posição do Brasil como fornecedor global, mas também pode gerar mais empregos no campo, estimular a modernização das propriedades e, quem sabe, criar um impulso para práticas mais sustentáveis.

Em resumo, o acordo UE‑Mercosul representa uma oportunidade real para o agro brasileiro, mas também traz responsabilidades. O sucesso dependerá da capacidade do setor de se adaptar às novas exigências e da política brasileira de garantir que o crescimento econômico venha acompanhado de preservação ambiental.