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Acordo UE-Mercosul: o que o agro brasileiro pode ganhar com a nova zona de livre comércio

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Acordo UE-Mercosul: o que o agro brasileiro pode ganhar com a nova zona de livre comércio

Quando ouvi a notícia de que a União Europeia e o Mercosul assinaram um acordo de livre comércio, a primeira coisa que me veio à cabeça foi: “e o agro?”. Afinal, o Brasil tem um dos maiores setores agrícolas do planeta e a Europa já é o nosso segundo maior cliente. Neste texto, eu vou destrinchar o que esse tratado significa na prática, quais produtos podem se beneficiar e quais desafios ainda temos pela frente.



Primeiro, um panorama rápido: o acordo cria uma zona de livre comércio que elimina, ao longo de alguns anos, tarifas e barreiras técnicas entre os dois blocos. Para o agro brasileiro, isso pode significar mais competitividade nos preços, menor burocracia e, claro, um aumento nas exportações. Mas não é só isso – há questões de origem, de rotulagem e até de padrões sanitários que precisam ser alinhados.



Vamos começar pelos números. Em 2023, a União Europeia foi responsável por cerca de 15% das exportações agropecuárias brasileiras, logo atrás da China. Produtos como soja, carne bovina, suínos, frango, café e açúcar já têm presença forte nas prateleiras europeias. O acordo pode ampliar esse espaço, sobretudo para itens que ainda enfrentam tarifas ou quotas restritivas.



Quais produtos vão ganhar mais?

O texto do acordo destaca alguns setores que podem ter um salto de volume. Entre eles, estão:

  • Soja e derivados: a UE já importa grandes quantidades de farelo e óleo, mas a eliminação de tarifas pode tornar o preço brasileiro ainda mais atraente.
  • Carne bovina e suína: apesar de controvérsias recentes sobre hormônios, a demanda por proteína animal de alta qualidade permanece alta na Europa.
  • Frango: o Brasil é líder mundial e a UE tem aberto espaço para produtos com rastreabilidade certificada.
  • Queijos especiais: aqui entra a curiosidade sobre parmesão e gorgonzola produzidos no Brasil. O acordo permite que esses queijos mantenham os nomes tradicionais, desde que atendam a requisitos de origem e produção.
  • Café: a Europa consome cerca de 30% do café brasileiro. Com menos barreiras, os produtores podem investir em cafés especiais e conquistar nichos premium.

O que muda na prática para o produtor?

Para quem trabalha na fazenda ou na agroindústria, a boa notícia é que o processo de exportação pode ficar mais ágil. Menos documentos, menos inspeções duplicadas e a possibilidade de usar certificações já reconhecidas pela UE. Por exemplo, o selo de agricultura sustentável, que hoje é exigido em alguns países europeus, pode ser aceito em toda a zona de livre comércio, reduzindo custos de auditoria.

Mas também há desafios. A UE tem regras rígidas sobre resíduos de pesticidas, limites de contaminantes e rastreabilidade. Isso significa que os produtores terão que investir em tecnologias de monitoramento, como sensores de campo e sistemas de blockchain, para garantir que cada lote cumpra as normas.

Impacto nos preços e na competitividade

Ao eliminar tarifas, o preço final dos produtos brasileiros na Europa tende a cair. Isso pode gerar um efeito de “guerra de preços” com outros exportadores, como a Argentina e o Paraguai, que também fazem parte do Mercosul. No entanto, o Brasil tem a vantagem de escala e de uma cadeia logística já bem estruturada. Se conseguirmos melhorar a qualidade e a certificação, podemos transformar a redução de custos em margem de lucro, e não apenas em preço mais baixo.

Questões sanitárias: o caso da carne com hormônio

Um ponto delicado que já apareceu nas notícias é a presença de lotes de carne brasileira com hormônios proibidos na UE. Embora o acordo preveja mecanismos de solução de controvérsias, a realidade é que a confiança do consumidor europeu pode levar tempo para ser reconquistada. Por isso, é fundamental que os produtores adotem boas práticas de manejo e que as autoridades intensifiquem as inspeções preventivas.

Como o acordo pode influenciar o futuro do agro brasileiro

Olho no futuro e vejo duas tendências claras:

  1. Diversificação de mercados: ao consolidar a UE como parceiro, o Brasil reduz a dependência da China e abre novas oportunidades para produtos de alto valor agregado.
  2. Inovação e sustentabilidade: as exigências europeias forçarão o setor a adotar tecnologias mais limpas, como agricultura de precisão, manejo integrado de pragas e redução de emissões de gases de efeito estufa.

Essas mudanças podem colocar o agro brasileiro numa posição de liderança global, não só em volume, mas também em qualidade e responsabilidade ambiental.

O que eu faço agora?

Se você é produtor, exportador ou simplesmente acompanha o setor, vale a pena:

  • Buscar informações sobre as normas de origem e rotulagem da UE.
  • Investir em certificações reconhecidas (orgânico, Fair Trade, carbono neutro).
  • Ficar atento aos prazos de implementação das tarifas zero – o acordo prevê fases graduais até 2030.
  • Participar de eventos e webinars que o governo e associações estão promovendo sobre o acordo.

Em resumo, o acordo UE-Mercosul abre uma porta enorme para o agro brasileiro, mas essa porta só ficará realmente aberta se a gente entrar preparado. É hora de transformar desafios em oportunidades, melhorar a qualidade dos nossos produtos e mostrar ao mundo que o Brasil pode ser um fornecedor confiável e inovador.

Se você gostou deste panorama, compartilhe com seus colegas do campo, da indústria ou da academia. Quanto mais gente entender o que está em jogo, mais forte será a nossa voz nas negociações e mais rápido veremos os benefícios chegando ao nosso bolso.