Na última sexta‑feira (9), os embaixadores da União Europeia deram o sinal verde provisório para o tão aguardado acordo comercial com o Mercosul. Não é só mais um tratado; é o culminar de mais de 25 anos de conversas, idas e vindas, e promete criar a maior zona de livre comércio do planeta.
Por que esse acordo é tão falado?
Em termos simples, o tratado vai reduzir ou eliminar gradualmente tarifas entre os dois blocos. Isso significa que produtos que hoje pagam impostos altos para entrar em um mercado podem, no futuro, chegar quase sem custos adicionais. Para a União Europeia, isso representa a eliminação de mais de 4 bilhões de euros por ano em impostos sobre exportações. Para o Mercosul, e principalmente para o Brasil – a maior economia do bloco – abre portas para um mercado de cerca de 451 milhões de consumidores.
Como isso afeta o nosso dia a dia?
Talvez você pense: “Tarifas? Eu não lido com isso no supermercado”. Mas a verdade é que essas tarifas estão embutidas nos preços dos produtos que consumimos. Quando a UE baixa os impostos sobre, digamos, vinhos ou chocolates, esses itens podem ficar mais baratos aqui no Brasil. Por outro lado, a redução de tarifas europeias sobre produtos agrícolas pode trazer concorrência para nossos agricultores, especialmente nas commodities como carne bovina e soja.
Um exemplo prático: imagine que o preço de um queijo italiano caia 15 % porque o imposto de importação foi reduzido. Isso pode ser uma boa notícia para quem adora gastronomia, mas também pode gerar pressão sobre os produtores de queijo brasileiros, que terão que competir com preços mais baixos.
Os bastidores da aprovação
O voto dos embaixadores ainda precisa ser confirmado por escrito até as 17h (horário de Bruxelas). Mesmo assim, a maioria dos 21 países que apoiaram o acordo já sinalizou que vai seguir em frente. A resistência ainda vem de alguns países, como França, Áustria, Hungria, Irlanda e Polônia, que temem impactos negativos em seus setores agrícolas.
Na França, os agricultores protestam temendo que produtos latino‑americanos mais baratos invadam o mercado europeu. Já a Itália mudou de posição recentemente, passando de uma postura contrária para apoiar o tratado, o que foi decisivo para alcançar a maioria qualificada necessária no Conselho Europeu.
O que isso significa para o Brasil?
Para o Brasil, o acordo pode ser um divisor de águas. Além de facilitar a exportação de produtos como carne, soja, café e minério de ferro, ele abre espaço para a entrada de tecnologias europeias, especialmente em áreas estratégicas como baterias e minerais críticos (lítio, cobalto). A UE vê o Mercosul como uma alternativa à dependência da China nesses recursos.
Mas nem tudo são flores. Os produtores rurais brasileiros têm expressado preocupação com a concorrência de produtos europeus, especialmente no segmento de alimentos processados e vinhos. A questão é equilibrar a abertura de mercado com políticas que protejam os setores mais vulneráveis da nossa economia.
Próximos passos e cronograma
Depois da confirmação escrita, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, poderá assinar o acordo oficialmente. Em seguida, o Parlamento Europeu precisará ratificar o tratado, e o Mercosul – representado por Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai – seguirá com seus próprios processos internos.
Se tudo correr bem, a assinatura pode acontecer ainda este ano, com a implementação gradual das reduções tarifárias ao longo dos próximos 15 anos. Isso dá tempo para que indústrias e agricultores se adaptem às novas regras.
O que eu, como consumidor, devo observar?
Fique de olho nas prateleiras. Nos próximos anos, é provável que vejamos mais produtos europeus com preços mais competitivos, como vinhos, queijos, chocolates premium e até carros. Por outro lado, produtos brasileiros podem ganhar mais espaço nos mercados europeus, o que pode gerar mais empregos nas áreas de exportação.
Além disso, a discussão sobre padrões regulatórios – como normas ambientais e de segurança alimentar – pode influenciar a qualidade dos produtos que chegam ao nosso prato. A UE costuma ter exigências mais rígidas, o que pode elevar o nível de qualidade dos itens importados.
Desafios e críticas
Os críticos apontam que o acordo pode aprofundar desigualdades internas, beneficiando grandes produtores e empresas multinacionais em detrimento de pequenos agricultores. Também há temores de que a liberalização aumente a pressão sobre o meio ambiente, já que a produção agrícola pode ser intensificada para atender a novos mercados.
Por outro lado, defensores argumentam que a diversificação de parceiros comerciais reduz a dependência de mercados voláteis, como o da China, e pode trazer investimentos em setores estratégicos, como energia renovável e tecnologia.
Conclusão: um futuro em construção
O acordo UE‑Mercosul ainda está em fase de ratificação, mas já está claro que ele tem potencial para transformar a forma como fazemos comércio. Para nós, brasileiros, isso pode significar mais oportunidades, mas também desafios que exigirão políticas públicas atentas.
Se você tem um pequeno negócio que exporta, talvez seja a hora de começar a pensar em estratégias para acessar o mercado europeu. Se você é consumidor, prepare-se para ver novas marcas nas prateleiras e, quem sabe, preços mais baixos em alguns itens.
O que mais me deixa curioso é como esse grande acordo vai se desenrolar nos próximos anos e quais ajustes serão feitos para equilibrar interesses divergentes. Enquanto isso, seguimos acompanhando cada passo, porque o comércio internacional afeta a nossa vida de maneiras que nem sempre percebemos.



