Depois de mais de 25 anos de conversa, a União Europeia e o Mercosul vão assinar neste sábado (17) o que pode virar a maior zona de livre comércio do planeta. Eu sei, parece papo de diplomatas, mas a verdade é que esse acordo pode mexer no preço do pão, no celular que a gente compra e até nas oportunidades de trabalho aqui no Brasil.
Por que esse acordo é tão esperado?
Primeiro, imagine um mercado que reúne cerca de 720 milhões de pessoas e um PIB de US$ 22 trilhões. É praticamente a soma de toda a América do Sul com a Europa. Quando dois blocos tão grandes se conectam, surgem oportunidades de exportar mais barato, importar produtos com tarifas reduzidas e atrair investimentos que antes ficavam presos por barreiras tarifárias.
Para a gente, isso pode significar preços menores em itens como vinhos, queijos, eletrônicos e até alguns produtos agrícolas. Também abre portas para que empresas brasileiras exportem mais carne, soja, café e minerais sem enfrentar tarifas tão altas.
Como funciona a assinatura?
Embora o presidente Lula não esteja presente em Assunção, a cerimônia conta com a presença da presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e do presidente do Conselho Europeu, António Costa, além dos chefes de Estado da Argentina, Uruguai, Bolívia e Paraguai. A assinatura formal será feita pela von der Leyen, que representará a UE.
Mas atenção: assinar não é sinônimo de entrar em vigor imediatamente. O tratado ainda precisa passar por duas fases de ratificação – uma dentro da UE e outra nos parlamentos dos países do Mercosul (Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai). Essa etapa costuma ser mais demorada e cheia de discussões políticas.
Próximos passos – o que vem depois da assinatura?
- Votação no Coreper: os embaixadores da UE já confirmaram os votos favoráveis até as 17h (horário de Bruxelas).
- Ratificação no Parlamento Europeu: o texto será analisado e pode precisar de aprovação dos parlamentos nacionais dos países membros.
- Ratificação nos Congresos do Mercosul: Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai terão que aprovar o acordo em suas casas legislativas.
- Aplicação provisória: enquanto a ratificação completa não acontece, pode haver um período de implementação parcial, principalmente na redução de tarifas.
Quem ganha e quem perde?
O acordo não é um “ganha‑tudo”. Ele tenta equilibrar interesses muito diferentes:
- Europa: países como Alemanha e Espanha veem a oportunidade de diversificar fornecedores, reduzir a dependência da China e garantir acesso a minerais estratégicos como lítio e níquel.
- França e alguns vizinhos: temem que a agricultura europeia sofra com a concorrência de produtos sul‑americanos mais baratos, principalmente carne bovina e soja.
- Brasil: tem a chance de ampliar exportações, mas precisa mostrar avanços em sustentabilidade e controle ambiental – ponto que a UE está cobrando com firmeza.
Essas tensões foram incorporadas ao texto final, que inclui salvaguardas para a agricultura europeia e exigências ambientais mais rígidas. Ainda assim, o caminho para a aprovação total pode ser turbulento.
O que isso significa para o consumidor brasileiro?
Se tudo correr bem, nos próximos anos poderemos ver:
- Redução de tarifas em produtos importados da UE, o que pode baixar o preço de eletrodomésticos, carros e até medicamentos.
- Mais concorrência para produtores locais, o que pode incentivar melhorias de qualidade e redução de preços no mercado interno.
- Possibilidade de novos investimentos europeus em setores como energia renovável, tecnologia e infraestrutura no Brasil.
Mas também há riscos: setores agrícolas podem enfrentar competição mais acirrada, e questões ambientais ainda precisam ser resolvidas para evitar críticas de ONGs e de consumidores cada vez mais conscientes.
O que eu, como cidadão, posso fazer?
Primeiro, ficar informado. O debate sobre o acordo ainda está em alta nos congressos e nos meios de comunicação. Depois, participar das discussões públicas – muitas vezes há audiências abertas para que a sociedade civil apresente sugestões ou críticas.
Se você tem uma pequena empresa que exporta ou importa, vale a pena conversar com um consultor de comércio exterior para entender como as novas regras podem impactar seus custos. E, claro, continue acompanhando as notícias – o futuro desse acordo ainda está sendo escrito.
Conclusão
O acordo UE‑Mercosul tem tudo para ser um marco histórico, mas ainda tem um longo caminho pela frente. Enquanto a assinatura em Assunção é um passo simbólico importante, a verdadeira mudança depende da ratificação nos parlamentos e da implementação prática das regras.
Para nós, consumidores, o que importa é o efeito no bolso e nas oportunidades de trabalho. Se tudo for bem conduzido, podemos esperar preços mais competitivos, mais opções no mercado e, quem sabe, um impulso na economia verde graças às exigências ambientais do bloco europeu.
Então, da próxima vez que você ver um rótulo europeu no supermercado ou ouvir falar de um carro importado mais barato, lembre‑se: pode ser o resultado de um acordo que começou a ser negociado há 25 anos e que finalmente está chegando à sua porta.



