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Acordo UE‑Mercosul: o que muda na nossa prateleira e nos negócios brasileiros

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Acordo UE‑Mercosul: o que muda na nossa prateleira e nos negócios brasileiros

Na última sexta‑feira (9), a Comissão Europeia deu o sinal verde para o acordo de livre comércio entre a União Europeia (UE) e o Mercosul. O próximo passo? A assinatura oficial no dia 17 de janeiro, em Assunção, Paraguai. Para quem acompanha o mercado, a notícia chega como um sopro de esperança depois de mais de três décadas de conversas.



Por que esse acordo é tão falado?

Em termos simples, a UE e o Mercosul vão reduzir ou eliminar tarifas sobre a maioria dos produtos que circulam entre eles. Isso significa que, ao longo dos próximos 15‑20 anos, as empresas brasileiras poderão vender seus bens – de soja a calçados – para mais de 450 milhões de consumidores europeus com menos impostos. Do outro lado, produtos europeus como vinhos, queijos e chocolates podem chegar ao Brasil mais baratos.



O que isso traz para o meu bolso?

Se você costuma comprar vinho tinto, pode notar rótulos franceses com preços mais competitivos nas adegas. Quem gosta de chocolate premium pode encontrar marcas belgas por valores menores. Por outro lado, agricultores que produzem carne bovina ou soja podem enfrentar mais concorrência, já que produtores europeus também terão acesso facilitado ao nosso mercado.

Impactos para as empresas brasileiras

Segundo o vice‑presidente Geraldo Alckmin, cerca de 30 % dos exportadores brasileiros – aproximadamente 9 mil empresas – já vendem para a UE. O acordo abre portas para que mais negócios entrem nessa lista, especialmente nas áreas de tecnologia, máquinas‑ferramenta e produtos de alto valor agregado.

  • Redução de custos de importação: insumos industriais vindos da Europa podem ficar mais baratos, o que reduz o preço final dos produtos manufaturados no Brasil.
  • Aumento da competitividade: empresas que adotarem padrões europeus de qualidade e sustentabilidade terão mais chances de se destacar nos mercados internacionais.
  • Investimento europeu: o tratado inclui cláusulas que facilitam a entrada de capitais europeus no Mercosul, o que pode gerar novas fábricas e centros de pesquisa aqui no país.

Mas nem tudo são flores. Agricultores europeus, principalmente da França, temem que produtos latino‑americanos mais baratos invadam seus campos. Essa resistência já se traduziu em protestos nas capitais da UE e pode gerar pressões políticas que atrasem a ratificação final no Parlamento Europeu.



Desafios políticos e a corrida contra o tempo

O acordo ainda precisa ser aprovado pelo Parlamento Europeu. Embora a maioria dos 27 Estados‑membros tenha votado a favor, países como França, Irlanda, Hungria e Polônia mostraram reservas. O presidente francês, Emmanuel Macron, já declarou que seu país votará contra o tratado, alegando benefícios limitados para a França.

No Brasil, o cenário político parece mais favorável. O governo Lula tem defendido o acordo como uma forma de diversificar mercados e reduzir a dependência da China, sobretudo em minerais críticos como o lítio. Se tudo correr bem, o texto será assinado em 17 de janeiro e, nos próximos meses, os parlamentos de ambos os blocos deverão ratificá‑lo.

Um olhar histórico

Esse não é o primeiro esforço de integração entre a UE e o Mercosul. As negociações começaram oficialmente em 1999, mas avançaram de forma lenta, com períodos de paralisação. Hoje, o acordo representa a maior zona de livre comércio já negociada pela UE, superando até mesmo o acordo UE‑Canadá (CETA) em termos de abrangência de tarifas.

Além das tarifas, o tratado inclui capítulos sobre direitos trabalhistas, proteção ambiental e regras de origem que exigem que produtos exportados cumpram padrões de sustentabilidade. Para o Brasil, isso significa um compromisso maior com a agenda climática – algo que o vice‑presidente Alckmin destacou como “ganha‑ganha”.

O que eu, como consumidor, devo fazer?

Fique de olho nas novidades das prateleiras. Nos próximos anos, pode ser mais fácil encontrar queijos italianos, cervejas belgas e vinhos franceses com preços mais atrativos. Por outro lado, produtores locais podem precisar se adaptar a uma concorrência mais acirrada, o que pode estimular melhorias de qualidade e inovação.

Para quem tem um pequeno negócio, vale a pena acompanhar as oportunidades de exportação. O governo brasileiro tem anunciado linhas de crédito específicas para empresas que queiram entrar no mercado europeu, e a redução de tarifas pode tornar esses projetos financeiramente viáveis.

Conclusão: um passo grande, mas ainda incerto

O acordo UE‑Mercosul tem tudo para transformar a dinâmica comercial entre a América do Sul e a Europa. Para o Brasil, a promessa de acesso a um mercado de 450 milhões de consumidores é tentadora, mas a realidade dependerá de como os detalhes serão implementados e de como os agricultores europeus reagirão.

Enquanto aguardamos a assinatura em janeiro e a ratificação nos parlamentos, o melhor que podemos fazer é nos informar, adaptar nossos negócios e estar preparados para as mudanças que chegam. Afinal, o comércio internacional não é só números; é também sobre oportunidades, desafios e, claro, sobre o que chega ao nosso prato e ao nosso carrinho de compras.