Na última semana, o Mercosul e a União Europeia fecharam um acordo comercial que cria uma zona de livre comércio entre os dois blocos. Para quem acompanha o agro, isso não é apenas mais um tratado; é um convite para ampliar mercados, reduzir tarifas e, quem sabe, mudar até o nome dos queijos que chegam às prateleiras. Mas, como tudo na vida, há oportunidades e desafios.
O Brasil já é um dos maiores produtores de alimentos do planeta. Soja, carne bovina, frango, café, açúcar… A lista é longa. E, curiosamente, a União Europeia já ocupa a segunda posição como destino das exportações agropecuárias brasileiras, atrás apenas da China. Isso significa que, antes mesmo do acordo, já temos uma relação comercial forte, mas ainda com muitas barreiras tarifárias que encarecem nossos produtos para o consumidor europeu.
Com a assinatura do acordo, a expectativa é que tarifas sobre itens como carne bovina, suína e de frango sejam reduzidas gradualmente ao longo de 10 a 15 anos. Para o produtor, isso pode significar um aumento de até 30 % nas margens de lucro, já que menos impostos são repassados ao preço final. Para o consumidor europeu, pode significar produtos brasileiros mais baratos e, quem sabe, mais variedade nas gôndolas.
Quais produtos vão ganhar mais?
Os números falam por si: em 2023, a soja representou cerca de 30 % das exportações brasileiras para a UE, seguida por carne bovina (15 %) e café (10 %). O acordo prevê a eliminação de tarifas sobre a soja já nos primeiros dois anos, o que pode alavancar ainda mais esse número. Já a carne bovina, que hoje paga cerca de 6 % de tarifa, poderá ter essa taxa reduzida a quase zero até 2035.
Queijos com nome brasileiro – o caso do parmesão e do gorgonzola
Um ponto curioso que tem circulado nas redes é a questão dos nomes dos queijos. O acordo inclui regras de indicação geográfica (IG) que protegem nomes como “Parmesão” e “Gorgonzola” para os produtores europeus. Isso não impede que o Brasil continue produzindo queijos com esses nomes, mas exige que sejam rotulados como “estilo parmesão” ou “tipo gorgonzola”. Para os pequenos queijeiros, pode ser um obstáculo de marketing, mas também abre espaço para criar marcas próprias que valorizem a origem brasileira.
Desafios regulatórios
Além das tarifas, o acordo traz uma série de normas sanitárias e de rastreabilidade que o Brasil precisará atender. A UE tem padrões rigorosos quanto ao uso de hormônios e antibióticos na carne. Recentes episódios, como a retenção de lotes de carne com hormônio proibido, mostraram que ainda há trabalho a fazer. Investir em tecnologia de rastreamento e em certificações internacionais será crucial para garantir que nossos produtos não fiquem presos nas alfândegas.
Impacto nos pequenos produtores
Grande parte da produção de soja e carne que chega à Europa vem de grandes conglomerados. Mas o acordo também abre portas para cooperativas e pequenos agricultores que, antes, encontravam barreiras de custo e de acesso ao mercado. Programas de apoio ao exportador, financiamentos com juros menores e parcerias com distribuidores europeus podem transformar a realidade de milhares de famílias no interior.
Projeções para 2025
Segundo dados preliminares do Ministério da Agricultura, as exportações agropecuárias para a UE em 2025 podem chegar a US$ 30 billion, um salto de quase 20 % em relação a 2023. Os setores que mais se beneficiarão são:
- Soja – aumento de 25 % nas exportações.
- Carne bovina – crescimento de 15 %.
- Frutas tropicais (mamão, abacaxi) – expansão de 30 % devido à demanda por produtos frescos.
- Produtos de origem vegetal (proteína de ervilha, óleos) – novo nicho em alta na Europa.
O que isso significa para o seu prato?
Se você mora na Europa, pode esperar encontrar mais carne brasileira nos supermercados, possivelmente com preços mais competitivos. Se você está no Brasil, os produtores locais podem ganhar mais, o que pode refletir em salários melhores nas áreas rurais. E para quem acompanha tendências de consumo, a diversificação de produtos – como queijos “estilo brasileiro” – pode abrir novas oportunidades de negócios gastronômicos.
Perspectivas futuras
O acordo ainda está em fase de implementação. As tarifas não desaparecem da noite para o dia; há um calendário de redução que pode levar até duas décadas. Enquanto isso, a competitividade do agro brasileiro dependerá da capacidade de adaptar processos, melhorar a qualidade e atender às exigências sanitárias da UE.
Em resumo, o tratado UE‑Mercosul traz uma promessa de crescimento, mas também exige esforço. Para quem está no campo, a mensagem é clara: há um mercado maior esperando, basta estar pronto para atendê‑lo. E para quem acompanha a mesa, pode ser a chance de saborear um pedacinho do Brasil com um toque europeu.



