Na última terça‑feira (16), o Parlamento Europeu deu mais um passo importante para o tão aguardado acordo entre a União Europeia e o Mercosul. Foram aprovados novos mecanismos de salvaguarda para as importações agrícolas, um detalhe que pode mudar o rumo das exportações brasileiras para a Europa.
Por que isso importa tanto para quem trabalha no campo?
Se você, como eu, já ouviu falar que o bloco europeu é o segundo maior comprador de nossos produtos agrícolas – atrás só da China – então entende que qualquer mudança nas regras pode afetar diretamente o preço que recebemos nas lavouras, nos galpões e, claro, no bolso do produtor.
O que são essas salvaguardas?
Em termos simples, as salvaguardas dão à UE o direito de suspender temporariamente os benefícios tarifários concedidos ao Mercosul se perceber que as importações estão prejudicando produtores europeus. O texto aprovado é mais rígido que a proposta original da Comissão Europeia. Aqui vão os pontos principais:
- Se a importação de um produto agrícola sensível subir 5 % em média nos últimos três anos, a UE pode abrir uma investigação.
- Se o preço de um produto do Mercosul for 5 % menor que o preço europeu, a Comissão pode intervir.
- Produtos que não cumprirem os padrões de produção da UE também podem ser alvo de medidas.
Na proposta de outubro, esses limites eram de 10 %, mas agora foram reduzidos, o que deixa a porta mais aberta para intervenções.
Quais produtos estão na mira?
Os chamados “produtos sensíveis” incluem:
- Carne bovina
- Carne de aves
- Carne suína
- Alguns grãos e derivados (soja, milho, etc.)
Esses itens são fundamentais para o Brasil, que exporta milhões de toneladas para a Europa todos os anos. Uma suspensão de tarifas, mesmo que temporária, pode significar menos competitividade e, consequentemente, menores receitas.
Como o processo de negociação vai acontecer?
Depois da aprovação no Parlamento, o texto segue para o Conselho Europeu – o grupo de governos da UE. As negociações começaram na quarta‑feira (17) e devem continuar até a sexta (19). A França pede que a votação seja adiada para 2026, enquanto a Alemanha quer fechar o acordo ainda esta semana.
Se tudo correr bem, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, viajará a Foz do Iguaçu (Paraná) para assinar o tratado no sábado (20). Essa cerimônia será mais simbólica que decisiva, já que os detalhes ainda precisam ser ajustados entre os blocos.
O que isso significa para o produtor brasileiro?
Vamos dividir em duas partes: oportunidades e riscos.
Oportunidades
- Maior acesso ao mercado europeu: com tarifas reduzidas, nossos produtos ficam mais competitivos frente a concorrentes de fora.
- Diversificação de exportações: menos dependência da China pode equilibrar a balança comercial.
- Incentivo à qualidade: os padrões europeus são exigentes; atender a eles pode abrir portas para nichos premium.
Riscos
- Instabilidade tarifária: as salvaguardas permitem suspensões rápidas, o que pode gerar incerteza nos contratos de longo prazo.
- Pressão sobre preços internos: se a UE reduzir importações, a demanda pode cair e os preços domésticos podem sofrer.
- Necessidade de adaptação: produtores menores podem ter dificuldade para atender aos padrões de produção e rastreabilidade exigidos pela UE.
Para quem está no campo, a mensagem é clara: ficar atento às regras e buscar certificações que atendam aos requisitos europeus pode ser a diferença entre ganhar ou perder mercado.
Como se preparar?
Algumas ações práticas que podemos adotar agora:
- Investir em tecnologia de rastreamento: sistemas de blockchain ou softwares de gestão agrícola ajudam a comprovar origem e qualidade.
- Buscar certificações internacionais: como GlobalGAP, IFS ou outras reconhecidas pela UE.
- Monitorar indicadores de preço: acompanhar a variação dos preços europeus pode antecipar possíveis intervenções.
- Participar de associações: a CNA, por exemplo, já está dialogando com a UE; estar dentro dessas discussões garante voz.
Um olhar para o futuro
Mesmo com as salvaguardas mais rígidas, o acordo UE‑Mercosul ainda tem potencial de transformar o agronegócio brasileiro. A Europa está cada vez mais focada em sustentabilidade, e isso pode abrir nichos para produtos como carne certificada, soja de baixo impacto e café de comércio justo.
Se a negociação avançar e o acordo for assinado, podemos esperar:
- Um aumento gradual nas exportações de produtos de alto valor agregado.
- Maior pressão por práticas agrícolas sustentáveis.
- Possibilidade de novos acordos setoriais (por exemplo, para vinhos ou frutas tropicais).
Mas tudo isso depende de como a UE aplicará as salvaguardas. Por isso, vale acompanhar de perto as discussões no Conselho Europeu e nas comissões brasileiras.
Conclusão
O acordo UE‑Mercosul está em uma fase decisiva. As novas regras de salvaguarda trazem mais segurança para os agricultores europeus, mas também adicionam um grau de incerteza para nós, produtores brasileiros. A chave será transformar essa incerteza em oportunidade: investir em qualidade, transparência e sustentabilidade para que, quando a porta da Europa abrir, estejamos prontos para entrar com força total.
E você, que trabalha no campo ou acompanha o mercado agro, o que acha dessas mudanças? Compartilhe sua opinião nos comentários e vamos acompanhar juntos esse capítulo importante da história do nosso agronegócio.



