Quando ouvi a notícia de que o presidente francês Emmanuel Macron ainda não está satisfeito com o acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia, confesso que parei para pensar no que isso realmente significa para quem vive do campo, seja na França, no Brasil ou em qualquer outro lugar que dependa da agricultura. Não é só mais um debate diplomático; é uma questão que pode mexer nas contas dos agricultores, nos preços dos alimentos nas prateleiras e até nas relações políticas entre continentes.
O que está acontecendo?
Em 19 de dezembro, Macron afirmou que o adiamento de um mês na decisão sobre o tratado pode ser suficiente para que a França consiga inserir novas salvaguardas para seus agricultores. A proposta original era assinar o acordo em 20 de dezembro, durante a cúpula do Mercosul em Foz do Iguaçu, no Paraná. Mas a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, anunciou que a assinatura foi postergada para janeiro, depois que a Itália se juntou à França pedindo mais proteção ao setor agrícola.
Por que a França está tão receosa?
O ponto central da resistência francesa são as temidas importações de produtos agrícolas sul‑americanos – soja, carne bovina, açúcar – que chegam a preços mais baixos e com padrões ambientais diferentes. Os agricultores franceses temem que isso “feche as portas” dos mercados locais, reduzindo a demanda por produtos europeus e, consequentemente, afetando a renda familiar.
- Competitividade de preço: produtos do Mercosul costumam ser mais baratos devido a custos de produção mais baixos.
- Padrões ambientais: diferenças nas legislações de uso de agrotóxicos e desmatamento geram críticas sobre “concorrência desleal”.
- Proteção de mercado: a França quer garantir cotas ou tarifas que protejam seus produtores.
O que o acordo traz de positivo?
Apesar das objeções, o tratado tem potencial de criar a maior zona de livre‑comércio do mundo, abrangendo não só produtos agrícolas, mas também bens industriais, serviços, investimentos e propriedade intelectual. Se aprovado, poderemos ver:
- Redução gradual de tarifas de importação e exportação entre os blocos.
- Regras comuns para padrões regulatórios, facilitando a circulação de empresas.
- Maior fluxo de investimentos diretos, o que pode gerar empregos em setores de alta tecnologia.
Como isso afeta o Brasil?
Para o Brasil, o acordo representa uma oportunidade histórica de ampliar a presença de seus produtos no mercado europeu. Exportadores de soja, carne e café veem no tratado a chance de conquistar novos compradores, diversificar destinos e reduzir custos logísticos. Mas, ao mesmo tempo, o adiamento traz incerteza: investidores podem adiar decisões de expansão, e produtores menores ficam vulneráveis a flutuações de preço enquanto aguardam a definição das regras finais.
O papel do Conselho Europeu
O próximo passo decisivo está nas mãos do Conselho Europeu, que precisa de maioria qualificada – apoio de pelo menos 15 dos 27 países que representem 65% da população da UE. Essa exigência torna o processo mais complexo, pois cada Estado tem suas próprias prioridades setoriais. Enquanto a França pressiona por salvaguardas agrícolas, outros países como a Alemanha ou a Holanda podem estar mais interessados nos ganhos industriais e de serviços.
O que podemos esperar para 2025 e além?
Se o acordo for finalmente ratificado em janeiro, ainda haverá um período de adaptação. A União Europeia costuma impor períodos de transição para que setores sensíveis se ajustem às novas regras. No caso do agro, isso pode significar:
- Implementação de cotas de importação temporárias.
- Programas de apoio a agricultores que precisem modernizar suas práticas.
- Monitoramento conjunto de padrões ambientais para evitar concorrência desleal.
Essas medidas, se bem estruturadas, podem transformar a resistência em colaboração, permitindo que produtores franceses e brasileiros aprendam uns com os outros.
Como o cidadão comum pode se posicionar?
Para quem não está diretamente ligado ao campo, o acordo ainda tem reflexos no bolso. Produtos importados mais baratos podem reduzir o preço final dos alimentos, mas a perda de produtores locais pode gerar desemprego em áreas rurais, o que, por sua vez, afeta a economia regional. Uma boa prática é ficar atento às notícias sobre o tratado, apoiar iniciativas que promovam a agricultura sustentável e, se possível, escolher produtos de origem certificada.
Conclusão
O adiamento do acordo Mercosul‑UE não é apenas um atraso burocrático; é um sinal de que ainda há muito a ser negociado para equilibrar interesses econômicos e sociais. Macron espera que o tempo extra sirva para incluir salvaguardas que protejam os agricultores franceses, e essa expectativa pode, inadvertidamente, abrir espaço para um acordo mais justo e equilibrado para todas as partes. Enquanto isso, produtores brasileiros devem se preparar para um cenário ainda incerto, mas cheio de oportunidades, desde que mantenham o foco em qualidade, sustentabilidade e inovação.
Se você acompanha o mercado agro ou simplesmente se preocupa com o preço do pão na sua mesa, vale a pena acompanhar os próximos passos desse tratado. Afinal, decisões tomadas em Bruxelas e em Brasília podem acabar no seu prato.



