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Acordo Mercosul‑UE: Por que o adiamento pode mudar a cara do comércio global

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Acordo Mercosul‑UE: Por que o adiamento pode mudar a cara do comércio global

Na última quinta‑feira (18), a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, deu um sinal claro: a assinatura do acordo entre o Mercosul e a União Europeia não vai acontecer neste sábado (20) como estava previsto. A decisão, confirmada por agências como AFP e Reuters, empurrou a conclusão do tratado para janeiro de 2026. Para quem acompanha de perto as notícias de economia e política internacional, o adiamento pode parecer apenas mais uma data no calendário, mas, na prática, ele mexe com uma série de interesses que vão desde agricultores franceses até exportadores brasileiros de carne e soja.

Um acordo que nasceu há 25 anos

O tratado Mercosul‑UE não é novidade. As negociações começaram em 1999, com o objetivo de criar a maior zona de livre comércio do planeta. Se tudo correr bem, tarifas sobre produtos industriais, agrícolas, serviços e investimentos seriam reduzidas ou eliminadas gradualmente. Além disso, haveria um conjunto de regras comuns sobre padrões regulatórios, propriedade intelectual e até questões ambientais.

Mas, ao longo dessas duas décadas e meia, o acordo foi se transformando. Cada rodada de negociações trouxe novas demandas: a Europa quer acesso a minerais estratégicos da América do Sul, enquanto o bloco sul‑americano busca abrir mercados para seus produtos agropecuários. Essa troca de concessões acabou gerando um impasse que, agora, se manifesta nos corredores de Bruxelas.

Por que a França puxou o freio?

O ponto de partida para o adiamento foi a resistência francesa. O presidente Emmanuel Macron deixou bem claro que a França não apoiará o tratado sem “novas salvaguardas” para os agricultores. O medo é que produtos como carne bovina, soja e açúcar vindos do Mercosul entrem na Europa a preços mais baixos, competindo diretamente com a produção local, que segue normas ambientais e de bem‑estar animal mais rígidas.

Esse receio não é só discurso político. Agricultores franceses organizaram protestos em Bruxelas, chegaram com tratores, queimaram pneus e lançaram batatas contra a polícia. O clima ficou tenso, com até janelas quebradas no prédio Station Europe. O governo francês, portanto, usou seu peso dentro do Conselho Europeu para exigir mais tempo e, possivelmente, cláusulas de proteção que ainda não foram detalhadas.

O que dizem os outros países europeus?

Enquanto a França se mantém firme, outras nações têm posturas diferentes. O chanceler alemão, Friedrich Merz, e o primeiro‑ministro espanhol, Pedro Sánchez, defendem que o acordo deve avançar. Para eles, a assinatura seria um passo importante para diversificar os parceiros comerciais da UE, especialmente diante das tarifas impostas pelos EUA a produtos europeus e da dependência crescente da China por minerais críticos.

A Alemanha, a Espanha e os países nórdicos enxergam no tratado uma oportunidade de reduzir vulnerabilidades e fortalecer a credibilidade da UE na arena comercial global. Eles argumentam que, se a Europa quiser ser levada a sério nas negociações com blocos como o Mercosul, precisa agir agora, não depois.

E a Itália? Um “sim” condicionado

A primeira‑ministra da Itália, Giorgia Meloni, adotou uma postura mais cautelosa. Ela afirmou que o país pode apoiar o acordo, mas somente se as preocupações dos agricultores italianos forem atendidas. Em conversa telefônica com o presidente brasileiro Luiz Inácio Lula, Meloni reconheceu o “constrangimento político” que sente, mas demonstrou confiança de que será possível chegar a um consenso.

Lula, por sua vez, manteve o otimismo. Ele acredita que, com um pouco de paciência – de uma semana a um mês – a Itália se juntará ao bloco europeu e o acordo será finalmente assinado. Para o Brasil, a assinatura representa não só um impulso nas exportações agrícolas, mas também a abertura de portas para setores como o de mineração e tecnologia.

Como funciona a aprovação na UE?

O caminho para a ratificação passa pelo Conselho Europeu, que exige maioria qualificada: apoio de pelo menos 15 dos 27 países membros, representando 65 % da população da UE. Essa regra torna o consenso mais difícil, já que um pequeno número de opositores pode bloquear todo o processo.

Além disso, o Conselho tem que autorizar a Comissão Europeia a ratificar o acordo. Diferente de um parlamento nacional, onde a maioria simples basta, aqui a necessidade de maioria qualificada eleva o risco político. Se países como França, Itália ou até mesmo alguns membros nórdicos decidirem se posicionar contra, o tratado pode ficar novamente em espera.

O que está em jogo para o Brasil?

  • Exportações agrícolas: soja, carne bovina, açúcar e café ganham acesso a mercados europeus sem tarifas, potencializando receitas para produtores rurais.
  • Minerais estratégicos: o Mercosul possui reservas de lítio, níquel e cobre, essenciais para a transição energética europeia.
  • Investimentos: empresas europeias podem investir mais livremente na América do Sul, impulsionando setores como energia renovável e infraestrutura.
  • Reputação internacional: a assinatura reforçaria a imagem do Brasil como parceiro confiável em acordos multilaterais.

Por outro lado, há quem alerte para riscos ambientais e sociais. O aumento da produção agrícola pode pressionar biomas como a Amazônia, e a competição com produtos europeus pode gerar tensões internas no Mercosul, especialmente entre Brasil e Argentina.

O futuro do acordo: cenários possíveis

Cenário 1 – Acordo assinado em janeiro: Se a UE conseguir conciliar as demandas francesas e italianas, o tratado pode ser ratificado no início de 2026. Isso traria um impulso imediato ao comércio, com reduções tarifárias começando a valer nos primeiros meses do ano.

Cenário 2 – Novo adiamento: Caso as divergências persistam, o Conselho pode decidir por outro adiamento, talvez para o final de 2026. Isso prolongaria a incerteza para exportadores e investidores, que ficam à espera de regras claras.

Cenário 3 – Rejeição parcial: Uma possibilidade mais extrema é a UE aprovar o acordo com exceções para certos produtos agrícolas, criando um “acordo parcial”. Isso poderia satisfazer a França, mas deixaria o Mercosul com ganhos limitados.

Como isso afeta o nosso dia a dia?

Para quem não está envolvido diretamente no comércio internacional, o adiamento pode parecer distante. Mas há impactos reais:

  • Os preços de alimentos importados podem permanecer mais altos na Europa, o que influencia o custo de produtos brasileiros nas prateleiras.
  • Empresas brasileiras de tecnologia e mineração podem enfrentar atrasos em projetos de expansão na UE.
  • Consumidores europeus podem continuar pagando mais por produtos que, em teoria, seriam mais baratos com a livre‑troca.

Em resumo, o adiamento do acordo Mercosul‑UE não é apenas uma questão de calendário diplomático; ele reflete tensões profundas entre proteção agrícola, interesses estratégicos e a necessidade de diversificar parceiros comerciais. O que acontecer nos próximos meses vai definir se o tratado será um marco histórico de integração ou mais um capítulo adiado na história das negociações internacionais.

E você, o que acha? Acredita que a Europa deve abrir mais o mercado para o Mercosul, ou acha que a proteção dos agricultores locais é mais importante? Deixe sua opinião nos comentários – a discussão está só começando.