Introdução – um acordo que poderia mudar tudo
Na última quarta‑feira, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva saiu da Granja do Torto, em Brasília, com a sensação de que o futuro do comércio brasileiro está preso a uma reunião que acontece a milhares de quilômetros de distância, em Bruxelas. O que era para ser a assinatura de um tratado que criaria a maior zona de livre comércio do planeta acabou se transformando em um jogo de paciência entre a União Europeia (UE) e o Mercosul.
O que está em jogo?
Se o acordo for finalmente aprovado, os 27 países da UE – da Irlanda à Suécia – abrirão suas portas para produtos agrícolas, industriais e de serviços dos cinco membros do Mercosul (Brasil, Argentina, Paraguai, Uruguai e Venezuela, embora este último esteja suspenso das negociações). Em troca, o bloco europeu ganhará acesso ao mercado brasileiro, que tem mais de 200 milhões de consumidores.
Mas a balança ainda parece pender a favor da UE. Segundo o próprio Lula, “o acordo é mais favorável para eles do que para nós”. A questão, então, não é só econômica; é política, estratégica e, de certa forma, simbólica. Afinal, o Brasil tem buscado diversificar seus parceiros comerciais há décadas, reduzindo a dependência da China e dos Estados‑Unidos.
Por que a Europa ainda hesita?
Do lado europeu, a resistência vem principalmente de dois países: França e Itália. Os agricultores franceses temem que o mercado seja inundado por soja, carne bovina e açúcar sul‑americanos, que são mais baratos devido a custos de produção menores. Na Itália, a preocupação é semelhante, mas também há um componente político: o governo de Giorgia Meloni tem buscado reforçar a imagem de protetora da agricultura nacional.
Além desses, Polônia, Hungria e Áustria também manifestaram dúvidas. Cada um desses países tem um peso diferente no cálculo da maioria qualificada necessária para aprovar o tratado – pelo menos 15 Estados‑membros que representem 65 % da população da UE.
Entendendo a mecânica da aprovação
- Parlamento Europeu: aprova os mecanismos de salvaguarda – já aconteceu em 16 de novembro.
- Conselho Europeu: precisa dar o aval final, com maioria qualificada.
- Comissão Europeia: liderada por Ursula von der Leyen, que pode viajar ao Brasil para assinar o tratado caso o Conselho dê o ok.
O ponto crucial é que, mesmo que o Parlamento tenha aprovado as salvaguardas, o Conselho ainda tem que alinhar os interesses divergentes dos seus membros. E isso pode levar semanas, ou até meses.
O que o Brasil pode perder se a UE disser “não”?
Além da perda de um enorme mercado consumidor, a recusa europeia pode ter impactos indiretos:
- Desvalorização da moeda: expectativas de crescimento econômico diminuem, afetando o real.
- Pressão sobre as exportações agrícolas: sem acesso facilitado à UE, os produtores dependerão ainda mais da China, que tem políticas comerciais mais voláteis.
- Reputação internacional: o Brasil pode ser visto como incapaz de concluir acordos de longo prazo, o que afeta negociações futuras, como o acordo com o Reino Unido.
Por que o Lula está disposto a ser “duro”?
Em seu discurso, Lula deixou claro que, se a UE não fechar o acordo, o Brasil adotará uma postura mais firme nas relações comerciais. O que isso significa na prática?
- Revisão de tarifas sobre produtos europeus que já entram no Brasil.
- Possível busca por alianças mais fortes com outros blocos, como o CPTPP (Parceria Transpacífica).
- Pressão diplomática nos fóruns multilaterais, como a OMC, para equilibrar as regras de comércio.
É uma estratégia de “não ficar à mercê” – algo que tem sido tema de debate entre economistas e analistas de política externa.
Como isso afeta o cidadão comum?
Para quem está no supermercado ou na fazenda, o acordo pode parecer distante, mas as consequências são reais:
- Preços de alimentos: se o Brasil conseguir exportar mais carne e soja para a UE, pode haver um aumento de renda para produtores, refletindo em salários rurais.
- Variedade de produtos: consumidores brasileiros poderiam ter acesso a vinhos, queijos e outros produtos europeus a preços mais competitivos.
- Empregos: setores de logística, transporte e serviços aduaneiros poderiam ganhar novos postos de trabalho com o aumento do fluxo comercial.
Mas o risco é que, se a UE bloquear o acordo, esses benefícios ficam no papel, enquanto a concorrência internacional continua apertando.
O que podemos aprender com acordos passados?
Olhar para a história ajuda a entender a dinâmica. O acordo de livre comércio entre a UE e o Canadá (CETA) demorou quase 12 anos para ser concluído, enfrentando resistência de grupos agrícolas e questões de soberania. Quando finalmente entrou em vigor, trouxe benefícios econômicos modestos, mas consolidou uma relação estratégica que vai além de tarifas.
Já o tratado de livre comércio entre a UE e o Mercosul foi negociado por 26 anos. Essa longevidade mostra que acordos de grande escala são maratonas, não corridas de 100 metros. Cada país tem suas prioridades internas, e mudar a opinião de um único ministro pode atrasar tudo.
Perspectivas para o futuro
Se a UE aprovar o acordo nas próximas semanas, podemos esperar:
- Assinatura oficial em dezembro, possivelmente na cúpula do Mercosul em Foz do Iguaçu, Paraná.
- Implementação gradual de tarifas reduzidas, começando por setores menos sensíveis (tecnologia, serviços).
- Um impulso nas exportações brasileiras, que podem crescer 5‑10 % nos próximos cinco anos.
Se a resposta for “não”, o Brasil terá que reavaliar sua estratégia:
- Buscar acordos bilaterais com países da UE individualmente.
- Fortalecer a integração regional dentro do Mercosul, talvez avançando em projetos de infraestrutura que facilitem o comércio interno.
- Reforçar a diplomacia econômica junto a blocos como o G20 e a OMC.
Conclusão – um convite à reflexão
O que fica claro é que o futuro do comércio brasileiro está em uma encruzilhada. A indecisão da Europa não é apenas um detalhe burocrático; é um reflexo de como interesses nacionais e pressões internas podem moldar acordos que afetam milhões de pessoas.
Para nós, que acompanhamos de perto a política e a economia, o importante é continuar cobrando transparência, entender os detalhes das negociações e, principalmente, pensar em como essas decisões se traduzem no nosso dia a dia. Seja na mesa de jantar, no campo ou no escritório, o comércio internacional tem um papel silencioso, mas decisivo, na nossa qualidade de vida.
E você, já parou para pensar como um tratado firmado em Bruxelas pode mudar o preço da carne que você compra na feira? Fique de olho, porque o próximo capítulo dessa história ainda está sendo escrito.



