Na última semana, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva recebeu uma carta da presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e do presidente do Conselho Europeu, António Costa. O documento reforça o compromisso da União Europeia (UE) de assinar, ainda em janeiro de 2026, o tão aguardado acordo de livre comércio com o Mercosul. Pode parecer mais um detalhe de bastidores diplomáticos, mas, na prática, esse acordo tem o potencial de mudar a forma como produtos chegam às nossas mesas, como as empresas brasileiras negociam investimentos e até como o preço da carne ou do café pode oscilar nos próximos anos.
Um pouco de história – por que o acordo demorou tanto?
As negociações entre Mercosul e UE começaram oficialmente em 1999, mas só avançaram de forma consistente a partir de 2010. Foram mais de 25 anos de idas e vindas, com críticas de agricultores europeus, preocupações ambientais e questões de propriedade intelectual. Em 2019, os negociadores anunciaram que o acordo estava pronto para ser ratificado, mas a aprovação no Conselho Europeu – que exige maioria qualificada (pelo menos 15 dos 27 países representando 65% da população) – ainda não havia sido concluída.
O que está escrito na carta?
A mensagem enviada a Lula é direta: “Gostaríamos de transmitir nosso firme compromisso em proceder com a assinatura do Acordo de Parceria e do Acordo Provisório de Comércio no início de janeiro, em um momento a ser acordado entre ambas as partes”. Em outras palavras, a UE está dizendo que os trâmites internos já estão quase finalizados e que, salvo imprevistos, o pacto será formalizado no início do próximo ano.
Por que a França e a Itália ainda dão sinal de alerta?
Lula, ao comentar a carta, deixou claro que a França, sozinha, não tem poder de veto. “Se a França não quiser, não será suficiente para impedir o acordo”, afirmou o presidente. O obstáculo mais recente, porém, veio da primeira‑ministra italiana, Giorgia Meloni, que alegou que a distribuição de verbas agrícolas dentro da UE estava prejudicando a Itália, dificultando a assinatura.
O que realmente está em jogo?
O acordo cobre três áreas principais:
- Tarifas reduzidas ou eliminadas: produtos agrícolas como carne bovina, soja e açúcar, além de bens industriais, terão menos impostos de importação.
- Investimentos e serviços: empresas europeias poderão investir mais livremente na América do Sul, e vice‑versa, facilitando projetos de energia, tecnologia e infraestrutura.
- Regulamentações e padrões: haverá convergência em regras de propriedade intelectual, normas sanitárias e ambientais, o que pode elevar o nível de exigência para produtores de ambos os lados.
Como isso afeta o consumidor brasileiro?
Para quem faz compras no supermercado, a mudança pode ser sutil nos primeiros anos, mas tem potencial de gerar:
- Preços mais competitivos em produtos importados, como vinhos, queijos e alguns eletrodomésticos.
- Maior oferta de alimentos europeus, mas também mais concorrência para produtores locais, principalmente no setor de carnes e grãos.
- Possibilidade de novos empregos em áreas de logística, comércio exterior e certificação de qualidade.
É importante lembrar que, embora as tarifas baixem, os padrões de qualidade e sustentabilidade podem ficar mais rígidos, o que pode exigir adaptações dos produtores brasileiros.
Impacto para os agricultores europeus
O receio dos agricultores franceses e de outros países do Norte da Europa não é exagero. Eles temem que a carne bovina e a soja sul‑americanas, produzidas a custos menores, inundem os mercados locais, pressionando preços para baixo. Por outro lado, o acordo abre portas para que produtores europeus exportem mais vinho, laticínios e tecnologias agrícolas para o Mercosul, equilibrando a balança em setores onde a Europa tem vantagem competitiva.
Desafios políticos no Conselho Europeu
O Conselho exige maioria qualificada, o que significa que mesmo que a maioria dos países apoie, um pequeno grupo pode bloquear. Até agora, a maioria parece inclinada a avançar, mas a situação ainda pode mudar até a assinatura oficial. Se o acordo for ratificado, Ursula von der Leyen pretende viajar ao Brasil para a cerimônia – algo que, segundo fontes, pode ser adiado para 2026 caso surjam novos entraves.
O que podemos esperar para 2026?
Se tudo correr como o esperado, janeiro de 2026 será o marco de início da implementação. Nos primeiros meses, veremos:
- Publicação de normas detalhadas sobre inspeções sanitárias e certificação ambiental.
- Criação de comitês bilaterais para resolver disputas comerciais.
- Início de projetos de investimento conjunto em energia renovável, especialmente em biocombustíveis e solar.
Para o cidadão comum, o mais imediato será observar possíveis mudanças nos rótulos dos produtos importados – informações sobre origem, padrões de produção e, em alguns casos, preços mais competitivos.
Conclusão – vale a pena ficar de olho?
Sim. O acordo Mercosul‑UE não é apenas mais um documento assinado em uma cerimônia; ele tem implicações reais para o nosso bolso, para o futuro da agricultura brasileira e para a forma como o Brasil se posiciona no cenário global. Se você tem uma pequena empresa que importa insumos, se trabalha na agroindústria ou simplesmente gosta de entender de onde vem o alimento que coloca no prato, vale a pena acompanhar cada passo desse processo.
Fique atento às próximas notícias, especialmente à data de assinatura que, segundo a carta, deve acontecer em janeiro de 2026. Enquanto isso, podemos esperar debates mais intensos nos corredores de Bruxelas, em Brasília e, claro, nas feiras agrícolas de todo o país.



