Um acordo que vem de longe
Quando eu ouvi pela primeira vez que a União Europeia e o Mercosul estavam prestes a fechar um tratado de livre comércio, confesso que pensei: “É mais uma daquelas promessas que ficam no ar por anos”. Afinal, são mais de 25 anos de negociação, várias rodadas de mesa, protestos de agricultores e, ainda assim, parece que o papel ainda não foi assinado. Mas, nas últimas semanas, a situação mudou de forma bem visível. Recebemos uma carta da presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e do presidente do Conselho Europeu, António Costa, reafirmando que a assinatura será feita em janeiro de 2026. E, ao mesmo tempo, o presidente Lula deixa claro que a França, sozinha, não tem poder para bloquear o acordo.
Por que esse acordo importa tanto?
Não é só mais um documento assinado em um salão de conferências. O tratado tem o potencial de transformar a forma como compramos e vendemos produtos entre a América do Sul e a Europa. Em linhas gerais, ele prevê:
- Redução ou eliminação gradual de tarifas de importação e exportação;
- Regras comuns para comércio de bens industriais e agrícolas;
- Facilitação de investimentos e proteção de propriedade intelectual;
- Alinhamento de padrões regulatórios, como segurança alimentar e normas ambientais.
Para o consumidor brasileiro, isso pode significar, por exemplo, que um carro importado da Alemanha chegue mais barato, ou que frutas brasileiras encontrem prateleiras europeias com menos barreiras. Para o produtor europeu, a chance de acessar o mercado de soja, carne bovina ou café brasileiro com menos tarifas também é tentadora.
O papel da França e o que Lula tem a dizer
Os agricultores franceses são, historicamente, os maiores críticos do acordo. Eles temem que produtos sul‑americanos, produzidos com custos menores, inundem o mercado europeu, diminuindo preços e ameaçando empregos locais. A França, então, tem usado seu peso político para tentar retardar ou até bloquear o tratado.
Mas, como explicou o presidente Lula em entrevista após a cúpula do Mercosul em Foz do Iguaçu (Paraná), a situação não é tão simples. “Se a Ursula von der Leyen está pronta para assinar e falta só a França, não haverá possibilidade de a França, sozinha, impedir o acordo”, afirmou. Ele ainda citou a primeira‑ministra italiana, Giorgia Meloni, que também manifestou reservas, mas que, segundo ele, não tem poder de veto suficiente para impedir a assinatura.
Em resumo, a França pode tentar pressionar, mas precisa do apoio de, no mínimo, 15 dos 27 países da UE, que representem 65% da população do bloco. Sem esse consenso, o bloqueio não passa de um protesto simbólico.
Como funciona a aprovação na UE?
O Conselho Europeu, responsável por autorizar a Comissão a ratificar o acordo, exige maioria qualificada. Isso significa que não basta que a maioria dos países vote a favor; é preciso que esses países também representem a maior parte da população da UE. Esse mecanismo foi criado para evitar que pequenos países bloqueiem decisões importantes, mas também pode tornar o processo mais complexo quando há divergências setoriais, como a dos agricultores.
Até agora, a maioria dos Estados parece estar alinhada com a assinatura, mas ainda há dúvidas sobre a data exata. A carta enviada a Lula indica que o Conselho ainda está finalizando procedimentos internos, mas que o compromisso está mantido para janeiro de 2026.
O que isso significa para o Brasil?
Para nós, a assinatura do acordo tem implicações diretas e indiretas:
- Exportações agrícolas: soja, carne, café e frutas podem ganhar acesso mais fácil a mercados europeus, aumentando a competitividade.
- Indústria: setores como automotivo e aeroespacial podem se beneficiar de cadeias de suprimentos mais integradas.
- Investimentos: empresas europeias podem sentir mais segurança para investir em projetos de infraestrutura e energia no Mercosul.
- Desafios regulatórios: será preciso adaptar normas ambientais e de segurança alimentar para atender aos padrões europeus, o que pode exigir investimentos em tecnologia e certificação.
Além disso, a assinatura pode abrir portas para acordos semelhantes com outros blocos, reforçando a posição do Brasil como um ator global no comércio internacional.
Riscos e críticas
Nem tudo são flores. Alguns pontos críticos que ainda geram debate são:
- Impacto nos pequenos produtores: a concorrência com produtos importados mais baratos pode pressionar agricultores familiares que não têm escala para competir.
- Questões ambientais: há preocupação de que a liberalização comercial leve ao desmatamento ou à intensificação de práticas agrícolas menos sustentáveis para atender à demanda europeia.
- Soberania regulatória: alinhar padrões pode significar que o Brasil tenha que adaptar leis internas a exigências externas, o que nem sempre é bem‑recebido.
Essas questões não são novas, mas o acordo traz à tona a necessidade de políticas de apoio interno, como linhas de crédito para modernização da agricultura e incentivos à produção sustentável.
O que vem pela frente?
Se tudo correr como o planejado, a assinatura oficial acontecerá em janeiro de 2026, possivelmente em um evento simbólico na UE ou no Paraguai – há rumores de que a data pode ser 12 de janeiro, em Assunção. Após a assinatura, ainda resta a fase de ratificação nos parlamentos de cada país membro, o que pode levar alguns anos até que o acordo entre em vigor de fato.
Enquanto isso, o que podemos fazer como cidadãos?
- Ficar atento às discussões sobre agricultura sustentável e apoiar iniciativas que promovam a produção responsável.
- Entender como o comércio internacional afeta o preço dos alimentos que consumimos diariamente.
- Participar de debates públicos, seja nas redes sociais ou em associações de consumidores, para garantir que as políticas públicas acompanhem as mudanças do mercado.
Em última análise, o acordo Mercosul‑UE pode ser um marco histórico para a integração econômica entre o Sul Global e o Norte Global. Mas, como toda grande mudança, ele traz oportunidades e desafios. Cabe a nós – governo, empresas e sociedade civil – transformar essas oportunidades em benefícios reais e mitigar os riscos.
Conclusão
O que eu levo dessa história? Primeiro, a sensação de que a política internacional não é um jogo distante; ela afeta o preço do pão, a escolha dos produtos nas prateleiras e até o futuro da nossa produção agrícola. Segundo, que a diplomacia tem seus limites: mesmo que a França queira bloquear, o peso coletivo da UE pode superar essa resistência. E, por fim, que o Brasil tem agora uma chance real de se posicionar como fornecedor estratégico para um dos maiores blocos econômicos do mundo. Resta acompanhar os próximos passos, cobrar transparência e garantir que o acordo traga mais benefícios do que custos para todos nós.
Vamos ficar de olho nas notícias e, quem sabe, celebrar juntos quando o tratado finalmente for assinado – e, sobretudo, quando ele começar a gerar resultados positivos no nosso dia a dia.



