Na última sexta‑feira (9), o agronegócio do Brasil recebeu a notícia que parecia um alívio após anos de negociações intensas: a União Europeia aprovou o acordo comercial com o Mercosul. Para quem vive de exportar soja, carne, café ou açúcar, isso não é apenas mais um comunicado oficial – é um sinal de que as portas da Europa podem abrir ainda mais.
Por que esse acordo é tão importante?
Em termos simples, o tratado cria a maior zona de livre comércio do planeta. Isso significa que produtos brasileiros terão menos barreiras tarifárias para chegar às mesas dos consumidores europeus. O bloco europeu já é o segundo maior comprador do nosso agro, logo atrás da China. Se a UE reduzir ou eliminar tarifas, o Brasil ganha mais competitividade, especialmente em setores onde ainda enfrentamos concorrência acirrada, como o café solúvel.
Quem ganha mais?
Não é surpresa que diferentes cadeias produtivas vejam oportunidades distintas. Vou dividir em tópicos para ficar mais claro:
- Proteínas animais: A ABPA (Associação Brasileira de Proteína Animal) celebra a previsibilidade comercial. O acordo reforça a imagem do Brasil como fornecedor confiável, baseado em sanidade e sustentabilidade.
- Grãos e cereais: Embora soja, farelo e milho já estejam isentos de tarifas, a Anec (Associação Nacional dos Exportadores de Cereais) destaca que a previsibilidade pode reduzir custos logísticos e de negociação.
- Café: O Cecafé projeta um aumento de até 35% nas exportações de café solúvel nos próximos anos, já que a UE eliminará tarifas gradualmente em quatro anos, nivelando o campo de jogo contra o Vietnam.
- Carne bovina: O acordo prevê cotas de até 99 mil toneladas por ano com tarifa inicial de 7,5%, o que pode abrir novas oportunidades para pecuaristas.
O que mudou desde o “tarifaço” de 2018?
Quando o ex‑presidente Trump impôs tarifas sobre a carne bovina brasileira, o setor sentiu o impacto imediato. Desde então, a necessidade de acordos bilaterais se tornou ainda mais evidente. O ministro da Agricultura, Carlos Fávaro, enfatiza que o Mercosul‑UE vai criar uma rede de oportunidades, mas ainda há discussões sobre as chamadas “salvaguardas”.
Essas salvaguardas são mecanismos que permitem à UE suspender temporariamente benefícios tarifários caso perceba prejuízos ao seu próprio produtor. Para o agro nacional, isso gera um certo receio, mas também abre espaço para negociação de regras mais equilibradas.
Impactos práticos no dia a dia do produtor
Se você é produtor de soja em Mato Grosso, talvez ainda não veja mudanças imediatas nas tarifas, mas a previsibilidade traz segurança nos contratos de exportação. Para um criador de frangos em Santa Catarina, a confiança de que a UE reconhecerá padrões sanitários pode facilitar a certificação de lotes e abrir novos mercados de nicho.
Já para o cafeicultor de Minas Gerais, a perspectiva de tarifas zero em quatro anos pode tornar viável investir em tecnologia de torrefação para atender à demanda europeia por cafés especiais.
Desafios que ainda permanecem
Mesmo com o acordo aprovado, ainda há pontos críticos:
- Salvaguardas: Se a UE usar esse mecanismo de forma frequente, pode criar instabilidade para exportadores brasileiros.
- Concorrência: Países como a Argentina e o Paraguai também se beneficiarão, o que pode gerar competição dentro do bloco Mercosul por cotas europeias.
- Logística: A infraestrutura de transporte ainda precisa de melhorias para aproveitar ao máximo a redução de custos tarifários.
Esses são lembretes de que um acordo comercial não resolve tudo sozinho, mas cria condições mais favoráveis para que outras políticas públicas façam a diferença.
Olhar para o futuro: o que esperar nos próximos anos?
Com a assinatura prevista para 17 de maio, o próximo passo será a implementação das regras de origem, certificações e, claro, a adaptação dos produtores às novas exigências europeias. Eu vejo três tendências principais:
- Diversificação de mercados: Países que antes dependiam quase que exclusivamente da China podem buscar a UE como alternativa, reduzindo risco de concentração.
- Inovação sustentável: A UE tem políticas rígidas de sustentabilidade. Produtores que adotarem práticas mais verdes terão vantagem competitiva.
- Valorização de nichos: Vinhos, chocolates premium e frutas exóticas podem ganhar espaço, já que o acordo também prevê redução de tarifas para esses produtos.
Para quem ainda está na dúvida, vale lembrar que o agronegócio brasileiro já responde por cerca de 20% das exportações totais do país. Cada ponto percentual a mais de acesso ao mercado europeu pode representar bilhões em receitas.
Em resumo, a aprovação da UE é um “avanço relevante”, como disse a ABPA, mas ainda precisamos acompanhar de perto como as salvaguardas serão aplicadas e como a cadeia logística vai se adaptar. O futuro parece promissor, porém exige preparo.



