Na última quinta‑feira (18), a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, informou que a assinatura do acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia não acontecerá neste sábado (20) como estava previsto. O tratado, que já está em negociação há 25 anos, foi empurrado para janeiro de 2026. Para quem acompanha a política externa e, sobretudo, o comércio internacional, o adiamento traz dúvidas, mas também algumas oportunidades.
Por que o acordo era tão esperado?
O pacto Mercosul‑UE prometia criar a maior zona de livre‑comércio do planeta. Em teoria, isso significa menos tarifas sobre produtos industrializados, agrícolas e serviços, além de regras comuns sobre investimentos, propriedade intelectual e padrões regulatórios. Para o Brasil, que tem o agronegócio como um dos pilares da economia, a expectativa era de abrir novos mercados para soja, carne, café e outros produtos, reduzindo custos de exportação.
Quem puxou o freio?
A decisão de adiar a assinatura veio depois que a França, liderada por Emmanuel Macron, e a Itália, representada por Giorgia Meloni, exigiram mais garantias para os agricultores europeus. Eles temem que produtos sul‑americanos, produzidos com padrões diferentes, entrem no mercado europeu a preços mais baixos, ameaçando a produção local.
- França: principal opositor dentro da UE, quer salvaguardas que protejam os agricultores.
- Itália: apoia o acordo, mas só se as demandas dos agricultores italianos forem atendidas.
- Alemanha e Espanha: defendem o tratado como forma de diversificar fornecedores e reduzir a dependência da China e dos EUA.
O que muda no dia a dia do brasileiro?
Para o cidadão comum, o adiamento pode parecer apenas mais um atraso burocrático, mas tem implicações reais:
- Preços de alimentos: se o acordo avançar, a expectativa era de que produtos como carne bovina e soja ficassem mais competitivos, o que poderia refletir em preços mais baixos nas prateleiras.
- Exportadores: produtores que já investiram em expansão para atender ao mercado europeu podem enfrentar um período de espera maior, afetando fluxos de caixa.
- Investimentos: empresas de setores como energia renovável e mineração esperavam maior segurança jurídica para investir em projetos que abasteceriam a UE.
O papel do Conselho Europeu
O acordo ainda precisa ser aprovado pelo Conselho Europeu, que exige maioria qualificada: ao menos 15 dos 27 países, representando 65 % da população da UE. Essa regra torna o processo mais complexo, já que um pequeno número de países pode bloquear o tratado se não concordarem com as condições.
Perspectiva do Brasil
O presidente Luiz Inácio Lula manteve o otimismo. Em conversa telefônica com a primeira‑ministra italiana, ele destacou que a Itália pode mudar de posição em poucas semanas, caso as preocupações dos agricultores sejam resolvidas. Lula chegou a dizer que “se a gente tiver paciência de uma semana, de dez dias, de no máximo um mês, a Itália estará junto com o acordo”.
Essa confiança reflete a importância que o governo brasileiro dá ao bloco sul‑americano como parceiro estratégico, não só para exportações agrícolas, mas também para a cooperação em energia, tecnologia e questões ambientais.
O que os agricultores europeus estão realmente temendo?
Os protestos em Bruxelas, com tratores, pneus queimados e até lançamentos de batatas contra a polícia, mostram a intensidade da resistência. O medo central é a suposta “concorrência desleal”. Produtos do Mercosul podem ser produzidos com custos menores, inclusive por conta de normas ambientais menos rigorosas. Para os agricultores franceses, italianos e de outros países, isso pode significar perda de mercado e pressão sobre os preços.
Por outro lado, defensores do acordo argumentam que a UE pode impor “safeguard measures” – medidas de salvaguarda – que permitam ajustes tarifários temporários caso haja impactos negativos significativos.
Próximos passos e o que observar
Com a assinatura adiada para janeiro, alguns pontos ficarão em foco nos próximos meses:
- Negociações técnicas: ajustes finos nas cláusulas agrícolas e ambientais.
- Pressão política: a França pode usar seu veto como alavanca para obter concessões.
- Reação dos mercados: investidores acompanharão o desenrolar para avaliar risco‑retorno de empresas exportadoras.
- Visita de von der Leyen ao Brasil: se o acordo avançar, a líder da UE pode fazer a viagem que estava prevista para selar o tratado.
Conclusão: adiar não é desistir
O adiamento do acordo Mercosul‑UE não significa que ele está morto. Na verdade, pode ser um sinal de que as partes ainda precisam alinhar interesses divergentes, principalmente no campo agrícola. Para o Brasil, o caminho ainda está aberto, mas exige paciência e estratégia. Enquanto isso, consumidores podem ficar atentos a possíveis variações de preço nos produtos importados, e exportadores devem planejar seus fluxos de caixa considerando a nova data de assinatura.
Se você tem alguma dúvida sobre como esse tratado pode impactar seu negócio ou seu consumo diário, deixe seu comentário. Vamos acompanhar juntos os próximos capítulos dessa negociação que tem o potencial de mudar o panorama comercial global.


