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Acordo entre Argentina e EUA sobre minerais críticos: o que isso muda para a nossa economia?

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Acordo entre Argentina e EUA sobre minerais críticos: o que isso muda para a nossa economia?

Na última quarta‑feira, a Argentina assinou um acordo com os Estados Unidos focado em minerais críticos. À primeira vista pode parecer mais uma notícia de diplomacia, mas, na prática, esse documento tem potencial para mudar a forma como o Brasil e a América Latina lidam com recursos estratégicos como lítio e cobre.



O encontro aconteceu durante uma reunião ministerial convocada pelo secretário de Estado norte‑americano Marco Rubio. O texto assinado estabelece um “acordo‑base” para fortalecer a cadeia de suprimentos desses minerais, desde a extração até o processamento. Para quem acompanha a pauta econômica, a palavra‑chave aqui é segurança de abastecimento. Em um mundo que corre atrás de tecnologias verdes, baterias de alta performance e componentes eletrônicos, garantir acesso estável a lítio, cobre e outros insumos é quase tão importante quanto ter energia elétrica.

Mas por que a Argentina, um país que ainda luta com inflação e instabilidade política, está tão interessada em fechar esse tipo de parceria? A resposta está nos números que o próprio governo argentino divulgou: as exportações de mineração chegaram a US$ 6,04 bilhões em 2025, um salto de quase 30 % em relação ao ano anterior. Essa alta não é coincidência; ela vem acompanhada de incentivos como o Regime de Incentivo a Grandes Investimentos (RIGI), que tem atraído capital estrangeiro e impulsionado projetos de exploração e beneficiamento.



O que são minerais críticos?

Minerais críticos são aqueles essenciais para a produção de tecnologias avançadas e que têm risco de escassez ou dependência de poucos fornecedores. O lítio, por exemplo, alimenta as baterias de carros elétricos; o cobre é indispensável em fios e circuitos; o níquel e o cobalto também entram na mistura das baterias de próxima geração. Quando esses recursos ficam concentrados em poucos países, qualquer interrupção – seja por conflito, política ou desastre natural – pode desestabilizar cadeias globais.

Nos últimos anos, a demanda mundial por esses minerais disparou. A transição energética, a digitalização da indústria e a expansão de dispositivos conectados criam um cenário onde a oferta precisa crescer rapidamente, mas nem sempre acompanha o ritmo. É aí que acordos como o assinado entre Argentina e EUA entram em cena: eles buscam diversificar fontes, criar rotas de exportação mais seguras e, claro, abrir espaço para investimentos que aumentem a capacidade produtiva.

Impactos diretos para a Argentina

Para o país sul‑americano, o acordo tem três efeitos imediatos:

  • Maior atração de investimentos estrangeiros: ao garantir que os minerais críticos terão um caminho estável até os mercados norte‑americanos, a Argentina se torna mais atrativa para empresas que buscam segurança de suprimentos.
  • Geração de empregos qualificados: projetos de mineração e processamento exigem mão‑de‑obra especializada, o que pode elevar o nível de qualificação da força de trabalho local.
  • Diversificação da economia: tradicionalmente dependente da agroindústria, a Argentina agora tem a mineração como um terceiro pilar, ao lado da energia e da agricultura.

O governo projeta que, nos próximos sete anos, as exportações totais do país alcancem US$ 100 bilhões, com a mineração contribuindo entre US$ 20 e 30 bilhões. Se esses números se concretizarem, o peso da mineração no PIB argentino pode subir de cerca de 3 % para mais de 5 %, aproximando‑se do patamar de países como o Chile, que já são referência mundial em cobre.



E o Brasil? Por que devemos nos importar?

Embora a notícia tenha foco na Argentina, o Brasil sente os efeitos de forma indireta. Primeiro, a competição por investimentos pode mudar. Se os investidores veem a Argentina como um “hub” seguro para minerais críticos, pode haver um deslocamento de recursos que antes iam para projetos brasileiros. Por outro lado, a presença de um parceiro sólido na região pode abrir portas para colaborações transfronteiriças, como joint ventures em exploração de lítio no Pampa ou projetos de refino de cobre no Mato Grosso.

Além disso, a estabilidade da cadeia de suprimentos global beneficia indústrias brasileiras que dependem desses insumos. Setores como automotivo, eletrônico e de energias renováveis podem contar com preços mais previsíveis e menos volatilidade, o que facilita o planejamento de longo prazo.

Desafios que ainda precisam ser superados

Nem tudo são flores. O acordo ainda depende de uma série de condições:

  • Regulação ambiental: a mineração tem um histórico de impactos ambientais significativos. Garantir que novos projetos sigam padrões rígidos é essencial para evitar crises ecológicas que poderiam deslegitimar o setor.
  • Infraestrutura: a Argentina precisa melhorar estradas, ferrovias e portos para transportar minerais de forma eficiente até os mercados internacionais.
  • Estabilidade macroeconômica: apesar dos avanços, o país ainda lida com inflação alta e flutuações cambiais que podem assustar investidores.

Essas questões não são exclusivas da Argentina; o Brasil enfrenta desafios semelhantes. Portanto, observar como a Argentina lida com eles pode servir de lição para políticas públicas aqui.

Olhando para o futuro

Se tudo correr como o planejado, nos próximos dez anos poderemos ver uma América do Sul mais integrada na cadeia de minerais críticos. Isso significa mais fábricas de baterias no continente, maior produção de veículos elétricos e, quem sabe, até um “cinturão verde” de infraestrutura energética que reduza a dependência de combustíveis fósseis.

Para quem acompanha o mercado de investimentos, vale a pena ficar de olho nas empresas argentinas de mineração que vão abrir capital ou buscar parcerias com multinacionais. No Brasil, o ponto de atenção será garantir que nossas políticas de mineração e energia estejam alinhadas com as tendências globais, para que possamos participar desse boom e não ficar à margem.

Em resumo, o acordo entre Argentina e EUA sobre minerais críticos vai além de um simples documento diplomático. Ele sinaliza uma mudança estratégica na forma como a região lida com recursos essenciais para a tecnologia do futuro. E, como sempre, onde há oportunidade, há também desafios. Cabe a nós, investidores, empreendedores e cidadãos, acompanhar de perto, entender os impactos e, quem sabe, aproveitar as novas portas que se abrirão.