Nos últimos dias de 2025, o Vale do Silício virou palco de um debate que parece ter saído de um filme de ficção científica: bilionários se preparando para fugir de um imposto estadual que pode chegar a 5% sobre fortunas acima de US$ 1 bilhão. Se você acompanha notícias de tecnologia, economia ou política americana, já deve ter ouvido falar das reações de nomes como David Sacks, Peter Thiel, Sergey Brin e Larry Page. Mas, afinal, o que está em jogo? Por que esse assunto importa para quem não mora nos Estados Unidos e como ele pode influenciar a forma como vemos impostos e desigualdade em todo o mundo?
O que propõe a medida?
A proposta, apresentada pelo sindicato SEIU‑UHW, quer criar um imposto estadual sobre fortunas a partir de US$ 1 bilhão. A alíquota seria progressiva, começando em 0% e atingindo 5% para quem tem US$ 1,1 bilhão ou mais – praticamente todos os 204 bilionários da Califórnia. O pagamento seria único, mas poderia ser parcelado em até cinco anos, com parcelas de 1% ao ano mais uma taxa mínima.
Como a proposta chegou à mesa
O contexto é o corte de gastos em saúde promovido pelo governo federal de Donald Trump em 2025, que, segundo os proponentes, gerou uma “crise fiscal aguda” na Califórnia. A ideia é usar a arrecadação – estimada em US$ 100 bilhões nos primeiros cinco anos – para reforçar hospitais, assistência alimentar e educação.
Quem está na linha de frente?
Os nomes que mais chamam atenção são os dos próprios bilionários. David Sacks, investidor e assessor de IA e cripto do ex‑presidente Donald Trump, usou a rede X para anunciar a abertura de um escritório da Craft Ventures em Austin, Texas, e desejou “Deus abençoe o Texas”. Peter Thiel fez o mesmo, instalando a Thiel Capital em Miami, Flórida. Sergey Brin e Larry Page transferiram ativos para fora do estado.
Esses movimentos não são apenas simbólicos; eles sinalizam que a elite está disposta a mudar de residência fiscal para evitar o imposto. Mas será que é tão simples assim?
O que a lei realmente exigiria?
Para que o imposto entre em vigor, a proposta precisa ser aprovada por consulta popular nas eleições de novembro de 2025. Isso requer, antes de tudo, a coleta de 875 mil assinaturas de eleitores californianos – um número considerável, mas não impossível. Caso chegue às cédulas, a campanha será intensa, com bilionários doando milhões para a campanha contra o imposto (Peter Thiel já destinou US$ 3 milhões).
- Se aprovado, o pagamento começa em 2027, com base no patrimônio líquido em 31 de dezembro de 2026.
- O imposto seria cobrado uma única vez, mas pode ser parcelado em cinco anos.
- 90 % da arrecadação seria destinada à saúde, 10 % a assistência alimentar e educação.
Por que os bilionários se assustam?
O argumento central dos críticos é que o imposto incide sobre ativos – ações, participações em startups, imóveis – e não sobre renda. Para pagar, muitos teriam que vender parte de suas participações, o que poderia desvalorizar empresas e prejudicar a inovação. Chamath Palihapitiya chegou a dizer que a medida levaria a Califórnia à falência.
Além disso, há o medo de que a medida desencadeie um êxodo de talentos e capital. Se fundadores e investidores migrarem para Texas, Flórida ou outros estados com regimes fiscais mais brandos, o Vale do Silício poderia perder parte de seu ecossistema vibrante.
Mas será que o êxodo será massivo?
Especialistas em tributação, como o professor Brian Galle, da UC Berkeley, apontam que ameaças de fuga de capital são comuns, mas nem sempre se concretizam. Ele cita o imposto sobre milionários de 2012, que muitos previram destruir a economia californiana – e não aconteceu. Na verdade, o número de milionários aumentou.
Estabelecer domicílio fiscal fora da Califórnia não é tão simples quanto comprar uma casa em Austin. O estado avalia vínculos familiares, comerciais, educacionais e até médicos. Trocar de residência em poucas semanas para escapar de um imposto que começa a valer em 1º de janeiro de 2026 seria praticamente inviável.
Impacto econômico real
Os cálculos indicam que, mesmo que alguns bilionários deixem o estado, a perda seria pequena comparada à receita esperada de US$ 100 bilhões. Além disso, a maioria da riqueza desses indivíduos está em ativos que continuam se valorizando – a taxa média de crescimento da riqueza dos bilionários dos EUA entre 1982 e 2025 foi de 7,5 % ao ano, muito acima dos 1,5 % de crescimento da renda média.
Portanto, mesmo pagando 5 % de imposto, um bilionário ainda terminaria o ano mais rico do que começou, graças à valorização dos ativos.
O que isso significa para o leitor brasileiro?
À primeira vista, parece uma história distante – um debate nos corredores do poder californiano que não tem nada a ver com a nossa realidade. Mas há lições valiosas:
- Desigualdade fiscal: nos EUA, os super‑ricos pagam, em média, menos de 25 % da sua renda total em impostos, enquanto a classe média paga cerca de 30 %. No Brasil, a carga tributária sobre a renda é mais progressiva, mas ainda há muita discussão sobre como tributar grandes fortunas.
- Política de arrecadação: a proposta californiana mostra como governos podem buscar novas fontes de receita em tempos de crise, focando em quem tem maior capacidade contributiva.
- Mobilização social: o fato de um sindicato de trabalhadores da saúde estar à frente da iniciativa demonstra que a luta por serviços públicos pode assumir formas inesperadas, como a criação de impostos sobre fortunas.
- Influência das elites: a capacidade de bilionários de financiar campanhas contra medidas que consideram desfavoráveis evidencia o peso que o dinheiro tem nas decisões políticas – algo que também ocorre no Brasil.
Como o debate pode evoluir?
Se a medida chegar às urnas, a campanha será marcada por anúncios, debates e, provavelmente, mais doações milionárias. O governador Gavin Newsom, que tem ambições nacionais, promete lutar contra a proposta, argumentando que ela pode “desincentivar a inovação”. Por outro lado, políticos progressistas como Bernie Sanders defendem a taxação como forma de reduzir a desigualdade.
O resultado pode definir não só o futuro fiscal da Califórnia, mas também servir de referência para outros estados americanos que consideram medidas semelhantes.
Conclusão: o que esperar?
É cedo para dizer se a Califórnia vai realmente implementar um imposto de 5 % sobre fortunas bilionárias. O que sabemos é que a discussão já está mudando a forma como bilionários pensam sobre seu futuro nos EUA. Alguns já abriram escritórios em Texas e Flórida; outros ainda defendem que a Califórnia permanece o melhor lugar para inovar.
Para nós, leitores, o caso serve como um convite a refletir sobre como os sistemas tributários podem ser usados para equilibrar a balança entre riqueza e bem‑estar social. Se o objetivo é garantir hospitais, escolas e redes de apoio, talvez seja hora de repensar quem realmente paga por esses serviços.
Fique de olho nas próximas eleições californianas e nas reações dos grandes nomes da tecnologia. O que acontecer lá pode, em poucos anos, inspirar debates semelhantes aqui no Brasil, onde a ideia de tributar grandes fortunas tem ganhado força nos corredores do Congresso.
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