Nos últimos dias, a manchete dos jornais tem sido a escalada de Donald Trump contra o presidente do Federal Reserve, Jerome Powell. Não é a primeira vez que o ex‑presidente entra em choque com a instituição que cuida da política monetária dos EUA, mas o tom parece ainda mais agressivo: ameaças de processo criminal, críticas sobre a reforma da sede do Fed e, claro, a velha disputa sobre a taxa de juros.
Para quem não acompanha de perto a política econômica americana, pode parecer um drama distante. Mas a verdade é que decisões tomadas no Federal Reserve reverberam nas bolsas, nas taxas de empréstimo e, eventualmente, no preço que pagamos por um café ou por um financiamento imobiliário. Por isso, vale a pena entender o que está em jogo.
Vou dividir o assunto em partes: o histórico da briga entre Casa Branca e Fed, o que Trump está exigindo agora, como Powell está respondendo e, principalmente, quais são os possíveis impactos para a gente, mesmo que vivamos fora dos Estados Unidos.
Um duelo antigo: Casa Branca vs. Federal Reserve
Desde que o Fed foi criado, há quase um século, ele tem a missão de garantir estabilidade de preços e pleno emprego, sem interferência política. Essa independência é considerada essencial para que as decisões de juros não sejam usadas como ferramenta de campanha ou de curto prazo.
No entanto, presidentes sempre tentam influenciar o banco central. Bill Clinton, George W. Bush e, mais recentemente, Joe Biden já fizeram pressão por cortes ou aumentos de juros. O que diferencia Trump é a forma como ele usa a retórica – chamar Powell de “burro” e “teimoso” – e a tentativa de usar o sistema judicial para intimidar.
O que Trump quer exatamente?
Três pontos principais surgem nas declarações recentes:
- Cortes de juros mais profundos: Trump acredita que a taxa de juros deve estar “de dois a três pontos percentuais mais baixa” para acelerar a economia.
- Acusação de má gestão: ele aponta para a reforma da sede do Fed em Washington, alegando custos inflacionados e falta de transparência.
- Ameaça de processo criminal: a Procuradoria do Distrito de Columbia, liderada por Jeanine Pirro (nomeada por Trump), recebeu uma intimação para investigar supostas informações incorretas de Powell ao Congresso.
Essas demandas são, na prática, uma tentativa de pressionar o Fed a mudar a política monetária de forma mais agressiva, mesmo que a inflação ainda esteja acima da meta de 2%.
Como o Fed tem reagido?
Jerome Powell tem mantido a postura de que o Fed deve agir com base em evidências econômicas, não em preferências presidenciais. Nos últimos meses, o banco central reduziu a taxa de juros três vezes consecutivas em 2025, chegando a um intervalo de 3,50% a 3,75% – o nível mais baixo desde setembro de 2022. Ainda assim, Powell afirma que essas reduções são “cautelosas” e que a inflação ainda exige vigilância.
Em comunicado oficial, Powell descreveu a investigação como “pretexto” e reforçou seu “profundo respeito pelo Estado de Direito”. Ele deixa claro que a política de juros não pode ser manipulada por pressões externas, sob pena de perder credibilidade internacional.
Por que isso importa para você?
Mesmo que você não tenha um empréstimo em dólares, a política de juros dos EUA influencia:
- Taxas de câmbio: juros mais baixos tendem a desvalorizar o dólar, o que pode tornar produtos importados mais caros ou mais baratos, dependendo da sua moeda.
- Mercados de ações globais: investidores ajustam suas carteiras conforme a expectativa de retorno nos EUA. Um Fed sob pressão pode gerar volatilidade nos índices internacionais.
- Financiamento de commodities: muitos preços de petróleo, soja e outros produtos são cotados em dólares. Mudanças na taxa de juros afetam esses preços e, consequentemente, o custo de vida.
Portanto, acompanhar essa disputa ajuda a entender flutuações que afetam desde a conta de luz até o preço do pão.
Os riscos de um Fed politicamente pressionado
Se a pressão de Trump resultar em cortes de juros muito rápidos, podemos enfrentar duas consequências:
- Reaceleração da inflação: juros mais baixos aumentam o consumo e o crédito, o que pode empurrar os preços para cima novamente.
- Perda de confiança dos investidores: mercados internacionais valorizam a independência do Fed. Qualquer sinal de interferência política pode elevar os prêmios de risco dos títulos americanos.
Por outro lado, se o Fed mantiver a cautela, a economia americana pode crescer de forma mais estável, mas o custo do crédito permanecerá alto, o que pode frear investimentos e gerar desemprego.
O que o futuro pode reservar?
Alguns cenários possíveis:
- Conciliação: Trump aceita que o Fed tem autonomia e a disputa se esfria. As taxas de juros seguem a trajetória atual, com ajustes graduais.
- Escalada judicial: o processo contra Powell avança, criando um precedente perigoso de uso da justiça para influenciar política monetária.
- Nova liderança no Fed: Powell deixa o cargo em 2026 e um sucessor, possivelmente indicado por um futuro presidente, assume com diretrizes diferentes.
Independentemente do caminho, a mensagem clara é que a política monetária dos EUA está mais exposta a pressões políticas do que nunca.
Para quem acompanha os mercados, a dica é: mantenha a carteira diversificada, fique de olho nas decisões do Fed e, se possível, proteja-se contra a volatilidade cambial. E, claro, continue acompanhando as notícias – porque o que acontece em Washington pode chegar até a sua conta bancária.



