Na última quinta‑feira, recebi a notícia de que o presidente Lula ligou para a primeira‑ministra da Itália, Giorgia Meloni, e saiu da conversa com um pedido inusitado: “precisamos de uma semana, dez dias, no máximo um mês”. A razão? Convencer os agricultores italianos a aceitarem o acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul. Até aqui, parece só mais um detalhe burocrático, mas a verdade é que esse pedido tem implicações bem maiores para o nosso país, para o bloco europeu e, claro, para o seu bolso.
Um acordo que está na mesa há 25 anos
O tratado UE‑Mercosul não é novidade. Ele foi concluído em 2021, após duas décadas de negociações, e tem como objetivo principal reduzir ou eliminar tarifas de importação e exportação entre os dois blocos. Em teoria, isso abriria caminho para que produtos como carne bovina, soja, açúcar e vinhos circulassem com menos impostos, beneficiando produtores e consumidores de ambos os lados.
Mas, como todo acordo de grande escala, ele encontrou resistência. Na Europa, os agricultores – especialmente na França, mas também na Itália e na Espanha – temem que produtos latino‑americanos, produzidos sob normas ambientais menos rígidas, entrem no mercado europeu a preços mais baixos, abalando a competitividade local.
Por que a Itália está pedindo tempo?
Giorgia Meloni, que lidera um governo de centro‑direita, explicou a Lula que não é contra o acordo, mas está sob um “constrangimento político”. Os agricultores italianos, organizados em fortes sindicatos, fizeram protestos e pressionaram o governo para que o tratado fosse revisto ou, ao menos, que fossem incluídas salvaguardas mais robustas.
O pedido de mais tempo tem duas faces:
- Política interna: Meloni precisa demonstrar que está ouvindo os produtores locais, que são um eleitorado importante nas próximas eleições.
- Estratégia de negociação: Ao ganhar alguns dias, o governo italiano pode buscar ajustes nas salvaguardas ou, quem sabe, alinhar-se a outros países europeus que já apoiam o acordo, como a Alemanha e a Espanha.
O que isso muda para o Brasil?
Para nós, o atraso pode significar duas coisas. Primeiro, uma possível extensão da incerteza para os exportadores brasileiros. Se a assinatura for adiada, produtores de soja, carne e café continuarão a operar sob as tarifas atuais, o que pode reduzir a competitividade frente a outros mercados.
Segundo, há a chance de que, nesse intervalo, a UE introduza novas salvaguardas mais rígidas. Recentemente, o Parlamento Europeu aprovou mecanismos que permitem reintroduzir tarifas caso o preço de um produto latino‑americano caia 5% abaixo do preço europeu ou se o volume de importações isentas ultrapassar 5% do consumo interno. Se essas regras forem reforçadas, o benefício esperado pelos exportadores brasileiros pode ser menor do que o inicialmente projetado.
Como os agricultores europeus enxergam o acordo?
O medo não é infundado. Na França, por exemplo, os produtores de carne bovina e aves argumentam que as normas ambientais e sanitárias da América Latina são menos exigentes, o que poderia gerar uma “corrida para o fundo do poço” em termos de custos de produção. Essa preocupação levou o governo francês a exigir garantias adicionais antes de apoiar o tratado.
Já na Alemanha e na Espanha, a postura tem sido mais favorável. Os líderes desses países defendem que o acordo trará benefícios econômicos e fortalecerá a posição da UE nas negociações globais, especialmente frente a blocos como o CPTPP.
O que pode acontecer nos próximos dias?
O Conselho Europeu está reunido para deliberar sobre a aprovação final. Se a maioria dos países membros decidir avançar, a assinatura está prevista para o sábado, 20 de dezembro, em Foz do Iguaçu, durante a cúpula de chefes de Estado do Mercosul. Caso a Itália, ainda que atrasada, decida apoiar o acordo, isso pode ser suficiente para garantir a maioria necessária.
Mas se o governo italiano mantiver a postura de “precisamos de mais tempo” e conseguir mobilizar outros países a seguir seu exemplo, poderemos ver o acordo sendo adiado para 2026, como tem sido sugerido em alguns círculos políticos europeus.
Impactos práticos para o cidadão brasileiro
Você pode estar se perguntando: “E eu, que não sou agricultor, como isso me afeta?” A resposta está nos preços dos alimentos e nos empregos ligados ao agronegócio. Se o acordo for ratificado sem muitas salvaguardas, os produtos importados da UE – como queijos, vinhos e carnes premium – podem ficar mais baratos no Brasil, ampliando a variedade nas prateleiras.
Por outro lado, se houver barreiras adicionais, os exportadores brasileiros podem enfrentar custos maiores, o que pode se refletir em preços mais altos para produtos como carne bovina e soja no mercado interno. Além disso, o agronegócio representa cerca de 20% do PIB brasileiro e gera milhares de empregos; qualquer mudança na dinâmica comercial tem repercussões sociais.
O que podemos fazer enquanto isso?
Embora a decisão esteja nas mãos dos governos, nós, como consumidores e cidadãos, podemos acompanhar o desenrolar dos fatos e cobrar transparência. Algumas ações simples:
- Fique informado: Leia fontes confiáveis e acompanhe as declarações de Lula, Meloni e dos ministros de comércio dos países envolvidos.
- Participe de debates: Em redes sociais ou fóruns locais, discuta os prós e contras do acordo, especialmente em relação ao meio ambiente e à soberania alimentar.
- Valorize a produção nacional: Enquanto o acordo não for definitivo, apoiar produtores locais ainda é uma boa estratégia para garantir qualidade e sustentabilidade.
Olhando para o futuro
Se a UE e o Mercosul chegarem a um consenso, o acordo pode servir de modelo para futuras negociações comerciais entre blocos. A tendência global é de blocos cada vez mais integrados, mas também mais cuidadosos com questões ambientais e de justiça social.
Para o Brasil, isso pode abrir portas para diversificar mercados e melhorar a competitividade. Para a Europa, significa garantir que seus agricultores não sejam deixados para trás em um cenário de globalização acelerada.
Em resumo, o pedido de tempo da Itália pode ser apenas um detalhe diplomático ou o ponto de partida para renegociações mais profundas. O que importa é que, independentemente do resultado, o acordo UE‑Mercosul continuará a ser um dos temas mais debatidos nos próximos meses, e nós devemos estar preparados para entender como ele moldará nossa economia e nosso dia a dia.
Fique de olho nas próximas semanas, porque a assinatura em Foz do Iguaçu pode acontecer já no próximo sábado – ou ser adiada. Seja qual for o cenário, a conversa está apenas começando.



