Na última quinta‑feira (18), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva contou ao Brasil que teve uma ligação direta com a primeira‑ministra da Itália, Giorgia Meloni. O que parecia ser apenas mais um telefonema de diplomacia acabou revelando um detalhe que pode mudar o ritmo da aprovação do tão aguardado acordo comercial entre a União Europeia (UE) e o Mercosul. Meloni pediu “tempo” – uma semana, dez dias, no máximo um mês – para convencer os agricultores italianos a aceitarem o tratado.
Por que a Itália está em cima do muro?
Para entender a pressão que a primeira‑ministra italiana enfrenta, é preciso olhar para o que está em jogo para os agricultores europeus. O acordo UE‑Mercosul promete reduzir ou eliminar tarifas de importação e exportação entre os dois blocos. Para o Brasil, Argentina, Uruguai, Paraguai e Bolívia, isso significa acesso a um mercado de mais de 447 milhões de consumidores com menos barreiras. Para a Europa, sobretudo para países com forte setor agropecuário, como a Itália, a França e a Alemanha, o medo é que produtos latino‑americanos, produzidos sob normas ambientais diferentes, cheguem a preços mais competitivos.
Meloni, que não se posiciona contra o acordo, mas sente o “constrangimento político” dos produtores, tem que equilibrar duas coisas: a necessidade de avançar nas negociações internacionais e a pressão das bases rurais que temem perder mercado para carne bovina, soja, açúcar e outros produtos sul‑americanos.
O panorama europeu: França, Alemanha e Espanha em posições distintas
Enquanto a Itália ainda está medindo os tempos, outros países da UE já deixaram claro onde estão. O presidente francês, Emmanuel Macron, disse que não apoiará o acordo sem novas salvaguardas para os agricultores franceses. Já o chanceler alemão, Friedrich Merz, e o primeiro‑ministro espanhol, Pedro Sánchez, defendem que o bloco avance, apontando para os benefícios econômicos e estratégicos de fechar o tratado.
Essa divisão reflete um padrão que vem se repetindo nas negociações comerciais: a necessidade de conciliar interesses setoriais (no caso, o agro) com metas macro‑econômicas. A França, por exemplo, conseguiu da Comissão Europeia garantias de salvaguardas, mas ainda assim considera que essas medidas são insuficientes.
Como funciona a salvaguarda que a UE está negociando?
- Mecanismo de monitoramento: o Parlamento Europeu aprovou recentemente regras que permitem observar o impacto de produtos sensíveis como carne bovina, aves e açúcar.
- Tarifas de contingência: se o preço de um produto latino‑americano ficar 5 % abaixo do preço europeu, ou se o volume de importações isentas subir mais de 5 %, a UE pode aplicar tarifas adicionais.
- Objetivo: evitar desestabilização dos mercados internos e proteger produtores que já enfrentam custos de produção mais altos.
Essas salvaguardas são, na prática, um “plano B” para o caso de o acordo causar prejuízos inesperados. Ainda assim, a oposição francesa argumenta que o risco de concorrência desleal permanece.
O que isso significa para o brasileiro de bem‑estar?
Se você costuma comprar carne, soja ou até mesmo um café de origem sul‑americana, o acordo pode mudar o preço desses produtos nas prateleiras. Menos tarifas normalmente resultam em preços mais baixos para o consumidor final, mas a história nos ensina que o impacto pode ser desigual.
Por exemplo, ao abrir o mercado europeu para a carne bovina do Mercosul, produtores brasileiros podem ganhar acesso a um novo canal de exportação, aumentando a demanda e, potencialmente, os preços internos da carne. Por outro lado, se a Europa impuser tarifas de contingência, parte desse ganho pode ser reduzido.
Além do preço, há também a questão da sustentabilidade. Consumidores cada vez mais conscientes exigem que os alimentos sejam produzidos com respeito ao meio ambiente. O acordo traz à tona um debate sobre padrões ambientais: produtores sul‑americanos seguem normas diferentes das europeias, o que pode gerar críticas e pressão por parte de ONGs e consumidores.
Um olhar histórico: duas décadas de negociação
O tratado UE‑Mercosul não surgiu do nada. Iniciativas de livre‑comércio entre os blocos começaram a ser discutidas nos anos 1990, mas só ganharam força nos anos 2000, quando o Mercosul buscava diversificar seus parceiros comerciais. Foram mais de 25 anos de conversas, ajustes e revisões, com momentos de paralisação (como a crise de 2008) e retomadas (como a assinatura do texto final em 2023).
Durante todo esse percurso, a agricultura sempre foi o ponto sensível. A UE tem um dos setores agrícolas mais regulados do mundo, enquanto o Mercosul tem políticas diferentes, principalmente em relação ao uso de defensivos agrícolas e desmatamento. Essa disparidade alimenta o medo de que produtos mais baratos, mas potencialmente menos sustentáveis, inundem o mercado europeu.
Foz do Iguaçu: o palco da assinatura
Se tudo correr como planejado, a assinatura final do acordo acontecerá em Foz do Iguaçu, no Paraná, no sábado (20), durante a cúpula de chefes de Estado do Mercosul. Para o Brasil, é um momento simbólico: a cidade fronteiriça, conhecida pelas Cataratas, será palco de um acordo que pode mudar a dinâmica comercial do país.
Mas a assinatura depende da aprovação do Conselho Europeu. Caso a Itália dê o “sim” dentro do prazo que Meloni pediu, o bloco pode avançar. Se a França mantiver a oposição ou se houver mais discussões sobre salvaguardas, o processo pode ser adiado novamente.
O que podemos esperar nos próximos dias?
- Reuniões intensas: os ministros de comércio da UE devem se reunir para avaliar a proposta de extensão de tempo concedida pela Itália.
- Pressão dos agricultores: manifestações em Bruxelas, Paris e Roma podem intensificar, exigindo garantias ainda maiores.
- Decisão francesa: apesar das salvaguardas, o governo de Macron pode decidir bloquear o acordo se não houver mais concessões.
- Viagem de Ursula von der Leyen: a presidente da Comissão Europeia tem agenda marcada para o Brasil, e sua visita pode acelerar a ratificação ou, ao contrário, trazer novas exigências.
Como você pode se posicionar?
Mesmo que o assunto pareça distante, ele afeta diretamente o seu bolso e o futuro da produção de alimentos no Brasil. Aqui vão algumas ideias práticas:
- Fique informado: acompanhe as notícias sobre o acordo nas próximas semanas. A decisão da Itália pode mudar rapidamente.
- Valorize a produção local: se você tem preferência por produtos nacionais, procure selos de origem e certificações que garantam qualidade e sustentabilidade.
- Participe de discussões: grupos de consumidores e ONGs costumam abrir debates sobre comércio internacional. Sua opinião pode influenciar políticas públicas.
- Planeje seu orçamento: caso os preços de alguns alimentos subam ou baixem, ajuste sua lista de compras e procure alternativas mais baratas ou mais saudáveis.
Conclusão: um acordo que ainda está em construção
O pedido de tempo da primeira‑ministra italiana é um lembrete de que acordos internacionais são feitos por pessoas, com pressões, medos e expectativas. Não se trata apenas de números ou de tarifas; são vidas de agricultores, consumidores e trabalhadores que dependem dessas decisões.
Para o Brasil, o acordo UE‑Mercosul pode abrir portas para exportações e trazer receitas importantes. Para a Europa, representa a oportunidade de diversificar fornecedores, mas também o risco de enfrentar críticas sobre sustentabilidade.
O que fica claro é que, nos próximos dias, vamos acompanhar de perto as negociações no Conselho Europeu, a reação dos agricultores italianos e, principalmente, a resposta do governo francês. Enquanto isso, nós, como consumidores, podemos usar essa informação para fazer escolhas mais conscientes e entender como a política comercial molda o que chega à nossa mesa.
Fique ligado, porque a história ainda está sendo escrita – e você pode ser parte dela, mesmo que seja só escolhendo o que colocar no carrinho de compras.



