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A Ilha de Luxo em Caracas: O que o vestido da presidente venezuelana revela sobre a desigualdade no país

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A Ilha de Luxo em Caracas: O que o vestido da presidente venezuelana revela sobre a desigualdade no país

Quando Delcy Rodríguez entrou no Palácio Federal Legislativo, em 5 de janeiro de 2026, para prestar juramento como presidente interina da Venezuela, ela chamou atenção não só pelo discurso, mas pelo vestido verde da grife italiana Chiara Boni La Petite Robe. O preço? Cerca de 550 euros, ou R$ 3.800. Parece pouco comparado a manchetes sensacionalistas, mas ainda é muito mais que o salário mínimo venezuelano – apenas R$ 2,46.



Esse contraste revela uma realidade que poucos fora da região conhecem: Caracas tem, ao lado de favelas e filas de comida, uma verdadeira “ilha” de luxo concentrada no bairro Las Mercedes. Ali, relógios Rolex, carros da Ferrari e restaurantes que cobram em dólares são o cotidiano de uma elite que, apesar da crise, ainda tem acesso a recursos consideráveis.



Como surgiu esse mercado de luxo?

Para entender, precisamos voltar um pouco na história da Venezuela. Desde os anos 1920, o país vivia um boom impulsionado pelo petróleo. Na década de 1970, a riqueza se concentrou nas mãos de poucos, criando um abismo entre quem tinha casas de alto padrão e quem vivia em áreas precárias.

Com a eleição de Hugo Chávez em 1998, houve uma tentativa de redistribuir a renda usando os royalties do petróleo. No entanto, a crise que se aprofundou sob Nicolás Maduro, agravada por sanções internacionais e a queda da PDVSA, acabou por reforçar ainda mais a divisão.



Quem são os consumidores desse luxo?

  • Elite tradicional: cerca de 6% da população – aproximadamente 2 milhões de pessoas – ainda possui fortunas herdadas ou acumuladas ao longo das décadas.
  • Empresários ligados ao governo: muitos mantêm negócios que dependem de contratos estatais e, portanto, têm fluxo de dólares.
  • Políticos e familiares: a falta de transparência gera suspeitas de corrupção, mas nem todos os compradores são culpados.
  • Exilados e investidores externos: alguns venezuelanos que vivem no exterior enviam recursos para parentes, alimentando o consumo de bens de alto padrão.

Esses grupos compram não apenas por status, mas também como estratégia de proteção: ao investir em ativos que mantêm valor (como relógios ou carros de luxo), evitam que seu dinheiro seja congelado ou desvalorizado pela hiperinflação.

O que isso significa para o venezuelano médio?

Para quem ganha o salário mínimo de R$ 2,46, a existência de lojas da Rolex e concessionárias da Ferrari parece surreal. Mas a presença desses estabelecimentos tem efeitos práticos:

  1. Desvalorização do peso: a oferta de produtos em dólar aumenta a demanda por moeda estrangeira, pressionando ainda mais a cotação oficial.
  2. Percepção de desigualdade: a visibilidade de um consumo extravagante alimenta o sentimento de injustiça, podendo gerar mais protestos.
  3. Fuga de capitais: recursos que poderiam ser usados em investimentos produtivos são desviados para bens de consumo de luxo.

Em resumo, enquanto alguns desfrutam de um jantar de 150 dólares em um restaurante estrelado, a maioria luta para comprar alimentos básicos.

O caso da Ferrari: um símbolo de resiliência?

A história da Ferrari em Caracas ilustra bem essa dualidade. Na década de 1950, a marca era sinônimo de glamour, com boutiques que lembravam Paris. Depois de períodos de restrição, a concessionária reabriu em 2021, mesmo com a economia em frangalhos. Hoje, o modelo mais barato da Ferrari custa cerca de US$ 255 mil (R$ 1,37 milhão), um preço inacessível para a maioria, mas que demonstra que há quem ainda invista em símbolos de status.

Qual o futuro desse mercado?

Alguns analistas acreditam que, se a crise econômica se aprofundar, o consumo de luxo pode cair, pois até a elite pode enfrentar restrições de liquidez. Outros argumentam que, em tempos de instabilidade, a busca por ativos de valor preservado pode até crescer.

O que é certo é que a presença de lojas de luxo em Caracas não desaparece da noite para o dia. Enquanto houver dólares circulando – seja por remessas, negócios ou corrupção – haverá demanda por relógios, carros e roupas de grife.

Para nós, que acompanhamos de perto as notícias internacionais, esse cenário nos lembra que a desigualdade não é só número em planilhas, mas algo que se materializa em vitrines brilhantes ao lado de filas de pão. E, talvez, a lição mais importante seja olhar além da capa sensacionalista e entender as raízes econômicas e sociais que sustentam esses contrastes.