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A frustração da indústria alemã com o atraso do acordo UE‑Mercosul: o que isso significa para o Brasil e para a Europa

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A frustração da indústria alemã com o atraso do acordo UE‑Mercosul: o que isso significa para o Brasil e para a Europa

Quando ouvi falar que o acordo de livre comércio entre a União Europeia (UE) e o Mercosul foi adiado novamente, a primeira coisa que me veio à cabeça foi a reação das indústrias alemãs. Elas não estão apenas desapontadas; estão realmente frustradas. E essa frustração tem implicações que vão muito além de um simples atraso burocrático.

Por que o acordo UE‑Mercosul importa tanto?

O acordo, que está em negociação há 25 anos, representa o maior esforço de redução de tarifas já visto pela UE. Se tudo correr como esperado, ele poderia abrir portas para exportações de bens industriais, automóveis e máquinas‑ferramenta alemãs, ao mesmo tempo que garantiria acesso a commodities sul‑americanas – soja, carne, minério de ferro – a preços mais competitivos.

Para a Alemanha, que é a maior economia da Europa, isso significa potencialmente reduzir custos de produção em até 4 bilhões de euros por ano, segundo a Câmara de Comércio Alemã (DIHK). Em termos práticos, isso poderia traduzir‑se em preços mais baixos nos carrinhos de supermercado europeus e em mais empregos nas fábricas que exportam para o Mercosul.

O que está atrasando o acordo?

Não é falta de interesse. Na verdade, países como Alemanha, Espanha e os nórdicos defendem o acordo como forma de diversificar mercados e diminuir a dependência da China. O que trava são as divergências internas da UE. França e Itália, por exemplo, temem que a entrada de produtos agrícolas mais baratos prejudique seus agricultores. Essa preocupação ficou evidente quando milhares de agricultores franceses levaram tratores às ruas de Bruxelas.

Essas “interesses nacionais”, como coloca Tanja Goenner, diretora administrativa da associação industrial BDI, são o que está minando a credibilidade da Europa como ator geoestratégico. Ela pede que os Estados‑membros deixem de lado essas resistências e pensem na competitividade europeia como um todo.

Impactos concretos para o Brasil

Para nós, brasileiros, o adiamento tem duas faces:

  • Perda de oportunidade de expansão: as exportações brasileiras de soja, carne bovina e minério de ferro poderiam crescer até 39% até 2040, segundo a associação comercial BGA, se o acordo for concluído.
  • Incerteza nos investimentos: empresas europeias que planejavam montar fábricas ou centros de distribuição no Brasil podem adiar esses projetos, esperando maior segurança jurídica.

Em termos de emprego, isso pode significar menos vagas em setores como agroindústria e logística. Por outro lado, a frustração alemã também abre espaço para que o Brasil busque outros parceiros comerciais, como o Japão ou o México, mas isso leva tempo e recursos.

O que as empresas alemãs estão realmente dizendo?

Além das declarações oficiais, há um sentimento palpável nos corredores das fábricas. Hildegard Mueller, presidente da VDA (associação da indústria automobilística), descreve o adiamento como um “sinal de fraqueza” da UE. Ela lembra que, enquanto os EUA adotam políticas protecionistas, a Europa precisa mostrar que ainda acredita em mercados abertos.

Volker Treier, da DIHK, acrescenta que 85% das exportações europeias para o Mercosul ainda pagam tarifas, o que ele quantifica em custos de cerca de 4 bilhões de euros anuais. Para as empresas que dependem de cadeias de suprimentos globais, isso não é só um número; é dinheiro que não entra no caixa e que poderia ser investido em inovação ou em salários.

Quais são os prós e contras do acordo?

Prós:

  • Redução de tarifas – menor custo para fabricantes europeus que importam insumos do Mercosul.
  • Diversificação de mercados – menos dependência dos EUA e da China.
  • Fortalecimento da posição geopolítica – a UE se apresenta como bloco comercial sólido.

Contras:

  • Risco para agricultores europeus – concorrência de produtos agrícolas mais baratos.
  • Pressão política interna – governos nacionais podem usar o acordo como moeda de barganha em eleições.
  • Possíveis barreiras não tarifárias – padrões sanitários e ambientais que podem limitar a entrada de certos produtos.

Qual o futuro? O que podemos esperar?

Se a Comissão Europeia, liderada por Ursula von der Leyen, conseguir reunir apoio suficiente, o acordo pode ser assinado ainda em 2024. Caso contrário, podemos encarar mais um ano de negociações estagnadas. Nesse cenário, a Alemanha – e a Europa como um todo – pode buscar acordos bilaterais menores ou reforçar a cooperação com outras regiões, como a ASEAN.

Para o Brasil, a estratégia mais segura é continuar diversificando parceiros, melhorar a competitividade interna e, ao mesmo tempo, pressionar a UE a cumprir o que já foi negociado. A pressão pode vir não só dos empresários, mas também da sociedade civil, que tem interesse em ver o país inserido em cadeias globais de valor.

O que eu, como consumidor, devo fazer?

Embora pareça distante, o acordo afeta o preço dos alimentos na prateleira, a disponibilidade de carros novos e até a segurança de empregos em setores industriais. Ficar atento às notícias, apoiar produtores locais quando possível e cobrar dos nossos representantes que busquem acordos equilibrados são atitudes que podem fazer diferença.

Em resumo, a frustração da indústria alemã não é só um drama europeu; é um sinal de que o comércio global está em um ponto de inflexão. O que acontecer nos corredores de Bruxelas pode, dentro de alguns anos, mudar a forma como compramos um pão, um carro ou um smartphone. E, claro, pode influenciar o futuro econômico do Brasil.

Vamos acompanhar juntos os próximos passos e entender como cada decisão impacta o nosso dia a dia.