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A frustração da indústria alemã com o adiamento do Mercosul‑UE: o que isso significa para o Brasil e para a Europa

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A frustração da indústria alemã com o adiamento do Mercosul‑UE: o que isso significa para o Brasil e para a Europa

Na última semana, as associações empresariais da Alemanha, a maior economia da Europa, manifestaram publicamente a sua decepção com o novo adiamento da assinatura do acordo de livre‑comércio entre a União Europeia (UE) e o Mercosul. Para quem não acompanha de perto as negociações, pode parecer apenas mais um detalhe diplomático, mas, na prática, esse atraso tem reflexos diretos no bolso dos exportadores, nas cadeias produtivas e até na estratégia geopolítica de continentes inteiros.

Um acordo que já leva 25 anos em construção

O tratado Mercosul‑UE começou a ser negociado em 1999, com o objetivo de criar o maior bloco de livre‑comércio do mundo em termos de volume de redução de tarifas. O acordo envolveria quatro países sul‑americanos – Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai – e os 27 membros da UE. A ideia era simples: abrir mercados, reduzir barreiras tarifárias e criar um ambiente de regras claras para investimentos.

Mas, ao longo das duas décadas e meia, o projeto encontrou resistência em diferentes frentes. Na Europa, países como França e Itália temem a concorrência de commodities agrícolas mais baratas, enquanto na América Latina há preocupação com a proteção de setores estratégicos. Essa disputa de interesses acabou transformando o tratado em um verdadeiro campo de batalha político.

Por que a Alemanha está tão irritada?

Para a indústria alemã, o acordo representa muito mais que um documento assinado. Segundo a associação industrial BDI, cerca de 85 % das exportações europeias para os países do Mercosul ainda pagam tarifas que custam, em média, 4 bilhões de euros por ano. Se o acordo fosse concluído, esses custos cairiam drasticamente, impulsionando setores como automotivo, químico e de máquinas‑ferramenta.

“Em um momento em que uma economia europeia forte é crucial, a UE envia um sinal de fraqueza”, declarou Hildegard Mueller, presidente da VDA, que representa a indústria automobilística. Ela acrescentou que a credibilidade da UE como parceira comercial está em risco após mais de 20 anos de negociações.

Volker Treier, da Câmara de Comércio Alemã (DIHK), reforçou o ponto: “Enquanto os EUA adotam uma postura cada vez mais protecionista, mercados abertos e regras confiáveis se tornam mais importantes que nunca para as empresas alemãs”. Em outras palavras, a Alemanha vê no acordo uma forma de diversificar seus mercados, reduzindo a dependência de países como a China para minerais críticos.

E o que isso traz para o Brasil?

Para o Brasil, o Mercosul‑UE é visto como uma oportunidade de ampliar as exportações agrícolas – soja, carne, café – e de atrair investimentos em setores de alta tecnologia. A Associação Comercial BGA estima que, se o acordo for aprovado, as exportações da UE para o Mercosul podem crescer até 39 % até 2040. Esse crescimento não seria unilateral; o Brasil também se beneficiaria ao ganhar acesso a mercados europeus com menos tarifas.

No entanto, o atraso gera incerteza. Produtores brasileiros que já estavam se preparando para atender a padrões europeus de qualidade e sustentabilidade podem ter que adiar investimentos. Além disso, a expectativa de um acordo mais rápido alimentou projetos de infraestrutura – portos, ferrovias – que agora ficam em “modo espera”.

Os argumentos dos críticos europeus

Não é só a Alemanha que tem voz forte nessa discussão. França e Itália, por exemplo, temem que a entrada de commodities sul‑americanas mais baratas possa pressionar os agricultores europeus, que já enfrentam margens apertadas. Na quinta‑feira passada, milhares de agricultores protestaram em Bruxelas com tratores, pedindo que o acordo fosse revisto ou, ao menos, que fossem incluídas salvaguardas setoriais.

Essas preocupações não são infundadas. A liberalização total pode, de fato, gerar um choque de preços em setores sensíveis. Mas, por outro lado, a abertura de mercados também pode estimular a inovação e a competitividade, forçando produtores a melhorar a qualidade e a eficiência.

Impactos geoestratégicos: mais que comércio

O adiamento também tem um componente geopolítico. A UE tem buscado fortalecer sua autonomia estratégica, especialmente após a guerra comercial iniciada pelos Estados Unidos sob a presidência de Donald Trump. Um acordo sólido com o Mercosul seria um passo importante para reduzir a dependência de cadeias de suprimentos asiáticas, principalmente em minerais críticos como lítio e níquel.

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Por outro lado, a falta de consenso entre os Estados‑membros da UE pode ser interpretada como fraqueza institucional, algo que a diretora administrativa do BDI, Tanja Goenner, apontou ao dizer que o adiamento “representa um retrocesso para a credibilidade da Europa como ator geoestratégico”.

O que podemos esperar nos próximos meses?

  • Pressão dos países do Norte da Europa: Alemanha, Holanda e países nórdicos provavelmente intensificarão a diplomacia interna, tentando convencer os membros mais cautelosos a apoiar o acordo.
  • Possíveis concessões setoriais: Para acalmar os críticos agrícolas, a UE pode incluir cláusulas de salvaguarda que permitam medidas temporárias de proteção ao setor.
  • Reação dos países do Mercosul: Brasil, Argentina e demais membros podem usar a pressão econômica – como a ameaça de boicote de grandes redes de supermercados europeias – para acelerar o processo.
  • Impacto nas cadeias de produção: Empresas que dependem de componentes alemães (como automóveis) podem começar a reavaliar seus fornecedores, buscando alternativas mais baratas no Mercosul.

Como isso afeta o leitor comum?

Se você é consumidor, talvez não perceba imediatamente, mas a longo prazo a redução de tarifas pode significar preços mais competitivos em produtos importados, como eletrodomésticos, peças de carro ou até alimentos processados. Para quem tem negócios que exportam ou importam, a clareza de um acordo firmado traz segurança jurídica e reduz custos de compliance.

Para quem acompanha a política, o caso mostra como interesses nacionais ainda podem sobrepor a lógica de mercado. É um lembrete de que, apesar da globalização, as decisões ainda são tomadas por políticos que ponderam votos internos.

Conclusão

O adiamento do acordo Mercosul‑UE deixa claro que o caminho para a integração econômica global ainda está cheio de obstáculos. Enquanto a indústria alemã vê no tratado uma oportunidade de reduzir custos e ganhar competitividade, agricultores europeus temem perdas de mercado. No Brasil, a expectativa de expansão das exportações se mistura com a frustração de ter projetos em suspenso.

O que podemos fazer agora? Acompanhar as próximas reuniões do Conselho Europeu, observar as declarações de líderes como Ursula von der Leyen e ficar atento a possíveis concessões setoriais. Para empresas, o momento é de planejar cenários: preparar-se para um futuro com tarifas menores, mas também ter estratégias de contingência caso o acordo continue adiado.

Em última análise, a frustração alemã não é só um grito de “não podemos esperar mais”. É um alerta de que a competitividade global depende de acordos claros, estáveis e, sobretudo, de vontade política para superar interesses de curto prazo. E, para nós, leitores brasileiros, isso pode abrir portas – ou fechar janelas – dependendo de como a história será escrita nos próximos meses.