Radar Fiscal

A febre do ouro: o que está por trás do recorde de US$ 5.500 e como isso afeta seu bolso

Compartilhe esse artigo:

WhatsApp
Facebook
Threads
X
Telegram
LinkedIn
A febre do ouro: o que está por trás do recorde de US$ 5.500 e como isso afeta seu bolso

Nos últimos dias, o preço do ouro bateu um recorde histórico, ultrapassando a marca de US$ 5.500 a onça. Se você acompanha notícias de economia, já deve ter visto a manchete: ‘Febre do ouro’ é sintoma de uma economia doente, afirma economista. Mas o que isso significa na prática para quem investe, poupa ou simplesmente quer entender melhor o cenário mundial?



Para mim, a comparação feita pelo pesquisador Sérgio Vale, do Instituto de Estudos Avançados da USP, foi bem ilustrativa. Ele descreve o aumento do preço do metal como uma febre que o corpo (no caso, a economia global) desenvolve quando enfrenta um agente infeccioso. A ideia de buscar a causa da febre antes de tentar curá‑la faz sentido: sem entender o que está provocando a alta, qualquer tentativa de “remédio” pode ser inútil.



Vale aponta três grandes fatores que alimentam essa febre: a instabilidade política e institucional nos Estados Unidos, a crise fiscal americana e as tensões geopolíticas intensas, sobretudo as disputas comerciais com a China e as declarações agressivas de Donald Trump, como a ameaça de tomar a Groenlândia. Cada um desses elementos, por si só, já seria suficiente para gerar ansiedade nos mercados; juntos, criam um caldo perfeito para que investidores busquem refúgio em ativos considerados seguros, como o ouro.



Mas vamos por partes. Primeiro, a questão institucional nos EUA. O Federal Reserve (Fed) tem sido alvo de críticas e pressões políticas. Recentemente, Trump indicou Kevin Warsh para substituir Jerome Powell, um movimento que gerou alívio momentâneo nos mercados e fez o dólar ganhar força, puxando o ouro para baixo em torno de 3,7%. Quando o Fed parece vulnerável, a confiança no dólar diminui, e o ouro, que é negociado em dólares, se torna mais atrativo como reserva de valor.

Segundo, a crise fiscal. O déficit crescente e a falta de consenso no Congresso sobre como equilibrar as contas públicas criam um cenário de incerteza sobre a capacidade de pagamento futuro dos EUA. Quando os investidores temem que um país grande e influente possa enfrentar dificuldades para honrar suas dívidas, eles migram para ativos que não dependem da solvência de um governo – novamente, o ouro entra como alternativa.

E terceiro, as tensões geopolíticas. As disputas comerciais com a China, a retórica agressiva contra aliados da OTAN e até mesmo a ideia de “tomar a Groenlândia” são sinais de que o mundo está mais volátil que nunca. Em momentos de risco geopolítico, o ouro historicamente tem sido visto como um porto seguro. Não é coincidência que, durante crises como a Guerra Fria, a pandemia de COVID‑19 ou a invasão da Ucrânia, o metal tenha disparado.

Vale também faz uma viagem ao passado, lembrando a febre do ouro dos anos 70 e 80. Naquela época, o então presidente do Fed, Paul Volcker, implementou políticas de juros altos para conter a inflação e estabilizar a moeda. Essas medidas foram o “antibiótico” da época, e a febre acabou. Hoje, segundo o economista, não há um antibiótico de última geração pronto para ser aplicado. O agente infeccioso – a combinação de instabilidade institucional, dívida e geopolítica – ainda está presente.

Então, o que isso significa para quem está de olho nos investimentos? Primeiro, entender que o ouro não é apenas um “brilho” de luxo. Ele funciona como um seguro contra a desvalorização de moedas e a incerteza política. Se você tem parte da sua carteira em renda fixa ou ações americanas, pode ser prudente destinar uma fatia – talvez 5% a 10% – para ouro, seja em barras, fundos de ETFs ou até mesmo em moedas digitais lastreadas no metal.

Segundo, não se deixe levar apenas pela alta do preço. O ouro pode subir rapidamente, mas também pode recuar com a estabilização de algum dos fatores que o impulsionam. Por exemplo, se o Fed conseguir se libertar da interferência política e adotar uma política monetária clara, o dólar pode se fortalecer novamente, tirando o brilho do ouro.

Terceiro, diversificar é a palavra‑chave. A febre do ouro pode ser um sintoma de uma economia doente, mas isso não significa que todos os outros setores estejam igualmente doentes. Setores ligados a tecnologia, energia renovável ou até mesmo empresas que se beneficiam de políticas de estímulo podem oferecer oportunidades de crescimento mesmo em meio à volatilidade.

Por fim, vale refletir sobre o aspecto psicológico. Quando ouvimos falar de “febre”, automaticamente imaginamos algo que precisa ser tratado, não apenas observado. Essa analogia nos lembra que a economia não é apenas números; são decisões humanas, medos, esperanças e, claro, políticas que afetam a vida de todos nós. Manter-se informado, questionar as causas e não reagir de forma impulsiva são atitudes que ajudam a transformar a febre em algo manejável.

Em resumo, o ouro está em alta porque o mundo está incerto. Se você tem curiosidade, medo ou simplesmente quer proteger seu patrimônio, vale a pena estudar mais sobre o metal, acompanhar as decisões do Fed e ficar de olho nas notícias internacionais. Afinal, entender a causa da febre pode ser o primeiro passo para encontrar o remédio certo – ou, pelo menos, para saber quando é hora de usar um protetor solar financeiro.