Na última sexta‑feira, a França viu seu governo balançado por uma onda de críticas que parece ter surgido do nada. Não foi um escândalo de corrupção nem uma crise de saúde; foi a aprovação, na União Europeia, de um acordo comercial com o Mercosul que desencadeou moções de censura de partidos que vão do extremo direito ao extremo esquerdo. Eu acompanho a política internacional há anos, e confesso que esse tipo de turbulência me faz lembrar de como a política pode ser um jogo de xadrez, onde cada movimento tem consequências inesperadas.
Por que o acordo UE‑Mercosul incomoda tanto a França?
Em termos simples, o tratado abre as portas para que produtos agrícolas sul‑americanos – carne bovina, aves, açúcar – entrem no mercado europeu com tarifas reduzidas. Para a França, que é o maior produtor agrícola da UE, isso significa competição direta com produtores que têm custos de produção muito mais baixos. Os agricultores franceses temem que suas lavouras e criações não consigam competir, o que poderia levar a perdas de renda e até ao fechamento de pequenas propriedades familiares.
Mas a questão vai além da agricultura. O acordo também inclui cláusulas sobre minerais críticos – essenciais para a transição verde – e promete diversificar as cadeias de suprimentos, reduzindo a dependência da China. Para países como a Alemanha e a Espanha, isso soa como uma oportunidade estratégica. Para a França, porém, o custo político interno parece superar os benefícios econômicos.
Quem está puxando as cordas?
Do lado da oposição, temos dois extremos que raramente se alinham: a França Insubmissa (LFI), de esquerda, e a Reunião Nacional (RN), liderada por Marine Le Pen. Ambas apresentaram moções de censura contra o governo do primeiro‑ministro Sébastien Lecornu. A LFI acusa Macron e seu governo de “humilhar a França” diante de Bruxelas, enquanto a RN chama o acordo de “traição aos agricultores”.
Mesmo que a RN e a LFI não tenham maioria no Parlamento, o fato de apresentarem essas moções cria um clima de instabilidade. Analistas apontam que, a menos de um ano das eleições presidenciais de 2027, qualquer sinal de fraqueza pode ser explorado pelos rivais.
- RN: Busca capitalizar o descontentamento rural e reforçar uma narrativa anti‑UE.
- LFI: Quer usar a questão como bandeira de soberania nacional e defesa dos trabalhadores.
- Governo Macron: Precisa aprovar o orçamento de 2026, já atrasado, e manter a credibilidade internacional.
O que isso significa para o cidadão comum?
Se você não tem nada a ver com agricultura, pode se perguntar por que isso importa para você. Primeiro, acordos comerciais influenciam o preço dos alimentos nas prateleiras. Se a carne importada ficar mais barata, os produtores locais podem enfrentar dificuldades, mas o consumidor final pode pagar menos. Segundo, a instabilidade política pode afetar a confiança dos investidores, impactando a taxa de juros e, indiretamente, o custo de empréstimos e financiamentos.
Além disso, a forma como a França lida com a UE pode servir de exemplo para outros países da Europa que também temem a “invasão” de produtos agrícolas baratos. Se a França ceder, outros podem seguir o mesmo caminho, mudando o panorama agrícola europeu.
Quais são os cenários possíveis?
Os especialistas dividem o futuro em três linhas principais:
- Derrota das moções de censura: O Parlamento rejeita as propostas, o governo mantém-se firme e o acordo segue seu caminho, com ajustes menores para proteger os agricultores.
- Compromisso político: Macron aceita renegociar alguns termos, talvez aumentando subsídios ou criando barreiras tarifárias específicas, a fim de acalmar a oposição.
- Queda do governo: Embora improvável, se as moções ganharem apoio suficiente, Lecornu poderia ser forçado a renunciar, gerando uma crise de governo antes das eleições de 2027.
Na prática, o cenário mais provável é o primeiro, mas a pressão da RN pode fazer com que o governo adote medidas de contenção que, a longo prazo, mudem a dinâmica do acordo.
Um olhar para o futuro
O que fica claro é que acordos comerciais não são apenas documentos técnicos; são verdadeiros campos de batalha políticos. A França está aprendendo, da maneira mais dolorosa, que a diplomacia econômica precisa ser acompanhada de um forte apoio interno. Se o governo não conseguir equilibrar esses dois lados, pode acabar pagando o preço nas urnas.
Para nós, leitores que acompanham o cenário internacional, esse episódio serve de lembrete de que as decisões tomadas em Bruxelas ou em Washington reverberam nas ruas de pequenas cidades francesas. E, quem sabe, talvez esse seja o ponto de partida para um debate mais amplo sobre como a União Europeia deve proteger seus setores estratégicos sem fechar as portas ao comércio global.
Fique de olho, porque nos próximos meses vamos ver como o governo Macron vai navegar nessa corda bamba, e quais lições a Europa inteira vai tirar dessa experiência.



