Quando a gente pensa em influenciador, a primeira imagem que vem à cabeça costuma ser a de alguém viajando o mundo, recebendo caixas de produtos de marcas e postando tudo de forma descontraída. Mas a realidade por trás das câmeras pode ser bem diferente. Um estudo global da Manychat revelou que 51% dos criadores de conteúdo já cogitaram abandonar a carreira nos últimos 12 meses. Não é falta de público, nem falta de interesse – é o peso de uma rotina exaustiva, imprevisível e, muitas vezes, mal remunerada.
O mito da liberdade total
O glamour das redes sociais costuma ser vendido como sinônimo de liberdade. A ideia de trabalhar de qualquer lugar, escolher os horários e ainda ganhar dinheiro com o que se ama parece um sonho. Na prática, porém, a maioria dos influenciadores vive sob pressão constante para estar sempre presente. Eles precisam responder comentários, criar conteúdo novo quase todos os dias e ainda manter a autenticidade – tudo isso enquanto lidam com algoritmos que mudam a todo momento.
Quanto tempo realmente se gasta?
Segundo a pesquisa, um criador médio dedica cerca de 20 horas por semana apenas ao planejamento, gravação e edição dos posts. Se a gente somar o tempo gasto em tarefas administrativas – negociação com marcas, controle financeiro, gestão de contratos – o número sobe ainda mais. Além disso, responder mensagens diretas e comentários consome de 2 a 3 horas semanais. Para 5% dos influenciadores, a caixa de entrada virou um trabalho em tempo integral.
O reconhecimento ainda falta
Mesmo com esse volume de trabalho, 31% dos criadores afirmam que ainda não são vistos como profissionais de verdade. Muitos ainda enfrentam o preconceito de que “criar conteúdo é fácil, dá pra ganhar dinheiro rápido e todo mundo é rico”. Essa percepção errada alimenta a frustração, já que o retorno financeiro nem sempre acompanha o esforço.
Dinheiro: a verdade dos números
Os números são duros: quase 75% dos influenciadores ganham menos de US$ 10 mil por ano (cerca de R$ 53 mil). Apenas 10% ultrapassam a marca dos US$ 30 mil anuais. As principais fontes de renda são os pagamentos das plataformas (39%) e as parcerias com marcas (28%). As demais – marketing de afiliados, venda de produtos físicos, assinaturas e cursos – representam parcelas menores.
Por que tantos pensam em desistir?
Os motivos que levaram os criadores a considerar abandonar a carreira são variados:
- 25% não estavam crescendo;
- 23% não ganhavam dinheiro suficiente;
- 17% perderam motivação ou interesse;
- 16% acharam a rotina demorada demais;
- 11% sofreram esgotamento criativo.
A geração Z parece sentir isso de forma ainda mais intensa: 55% dos criadores dessa faixa etária cogitaram parar nos últimos 12 meses. A promessa de autonomia acabou se transformando em sensação de cobrança constante.
O peso de estar sempre online
Estar sempre conectado tem um custo psicológico. Uma em cada quatro pessoas relata sentir-se esgotada, sobrecarregada ou apática depois de passar muito tempo nas redes. Mesmo assim, 1 em cada 10 gostaria de fazer uma pausa, mas sente que não pode – seja por medo de perder engajamento ou por depender da renda que vem das postagens.
Inteligência artificial: ameaça ou aliada?
Olhar para o futuro, 2026, traz um novo desafio: a competição com conteúdo gerado por IA. Muitos criadores veem essa tecnologia como a principal preocupação, temendo que algoritmos produzam vídeos e textos em escala massiva, diminuindo o valor da produção humana. Por outro lado, a maioria já planeja usar IA como ferramenta de apoio – para brainstorm de ideias, escrita de legendas, pesquisa de tendências e até edição de vídeo.
Curiosamente, 41% do público ainda não apoiaria um criador que se tornasse 100% IA, mostrando que a autenticidade ainda tem peso.
Como transformar a paixão em negócio?
Um ponto que o estudo destaca é que apenas 14% dos influenciadores se consideram um negócio. A maioria se vê como uma marca (36%) ou simplesmente como uma pessoa que posta conteúdo (50%). Essa falta de visão empresarial pode ser um dos motivos pelos quais a renda não acompanha o esforço.
Para quem quer levar a carreira a sério, vale a pena adotar práticas de gestão:
- Definir metas financeiras claras;
- Separar contas pessoais das do negócio;
- Investir em ferramentas de automação (agenda de posts, análise de métricas);
- Estabelecer limites de disponibilidade – por exemplo, reservar horários específicos para responder seguidores;
- Buscar mentoria ou cursos de empreendedorismo digital.
O que isso significa para você, leitor?
Se você acompanha influenciadores, talvez já tenha notado que nem tudo são likes e viagens. Muitos criadores lutam contra a exaustão, a pressão por resultados e a falta de reconhecimento. Esse cenário traz duas reflexões importantes:
- Consciência ao consumir: entender que o conteúdo que vemos tem um custo humano por trás pode mudar a forma como interagimos – ser mais compreensivo e apoiar criadores que realmente entregam valor.
- Oportunidade para quem pensa em começar: se você tem vontade de criar, planeje como um negócio desde o início. Defina processos, limite a sobrecarga e esteja preparado para lidar com a parte administrativa.
No fim das contas, o estudo da Manychat abre um alerta: a indústria dos criadores está em um ponto de inflexão. Se não houver mudanças estruturais – como melhor remuneração, reconhecimento profissional e apoio à saúde mental – mais influenciadores podem decidir fechar o laptop e buscar outras carreiras.
Conclusão
O glamour das redes sociais tem seu lado obscuro, e a maioria dos criadores sente na pele a diferença entre a imagem que projetam e a realidade que vivem. A pressão por presença constante, a falta de reconhecimento como trabalho de verdade e a remuneração insuficiente são fatores que levam metade deles a considerar abandonar a carreira. Para quem já está nesse mundo, o caminho passa por profissionalizar a atividade, estabelecer limites saudáveis e buscar fontes de renda diversificadas. Para quem ainda está de fora, a lição é simples: antes de julgar, lembre‑se de que por trás de cada post há uma pessoa que dedica horas, energia e emoções para fazer aquilo acontecer.


