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Superávit inesperado: como o Brasil driblou o tarifaço dos EUA e bateu recorde em janeiro

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Superávit inesperado: como o Brasil driblou o tarifaço dos EUA e bateu recorde em janeiro

Eu estava tomando meu café da manhã quando vi a notícia: a balança comercial do Brasil registrou um superávit de US$ 4,32 bilhões em janeiro. Na primeira leitura, parece só mais um número, mas quando a gente pára para analisar, dá pra perceber que tem muita história por trás desse resultado. E o mais curioso? Isso aconteceu mesmo com o tal do “tarifaço” dos Estados Unidos, que parecia um peso enorme para as exportações brasileiras.



O que significa superávit comercial?

Em termos simples, superávit é quando o país vende mais ao exterior do que compra. Quando o contrário acontece, falamos em déficit. Em janeiro de 2026, o Brasil saiu do mês com US$ 4,32 bilhões a mais nas exportações. Isso representa um salto de 85,8% em relação ao mesmo período de 2025, quando o saldo era de US$ 2,34 bilhões.

Esse número não é só um recorde de 2024 (quando o superávit chegou a US$ 6,2 bilhões), mas também o segundo melhor resultado de janeiro desde que a série histórica começou, lá em 1989. Ou seja, estamos falando de um desempenho que não se vê há décadas.



Desdobrando os números: exportações e importações

Vamos olhar mais de perto os detalhes. Em janeiro, as exportações totalizaram US$ 25,15 bilhões, um aumento de 3,8% na média por dia útil. Já as importações caíram 5,5%, ficando em US$ 20,1 bilhões. Essa combinação – mais vendas e menos compras – foi a fórmula que gerou o superávit.

Mas não é só o volume que importa; o tipo de produto também conta muito. Os destaques das exportações foram:

  • Óleos brutos de petróleo: US$ 4,3 bilhões (queda de 7,8%).
  • Minério de ferro: US$ 2,05 bilhões (recuo de 8,6%).
  • Carne bovina: US$ 1,3 bilhão (aumento de 42,5%).
  • Café não torrado: US$ 1,01 bilhão (queda de 23,7%).
  • Celulose: US$ 957 milhões (queda de 6,1%).

O que chama atenção aqui é a carne bovina, que cresceu quase 43%. Esse salto ajudou a compensar a queda de commodities tradicionais como minério de ferro e petróleo, que costumam ser os pilares das exportações brasileiras.



Tarifaço dos EUA: o que mudou?

O presidente Donald Trump, ainda que não esteja mais no cargo, deixou um legado de tarifas que ainda ecoam. Em abril de 2025, os EUA começaram a aplicar tarifas graduais a produtos de vários países, incluindo o Brasil. Em agosto daquele mesmo ano, foi anunciada uma sobretaxa de 50% para produtos brasileiros, mas com exceções – suco de laranja, aviões, petróleo e fertilizantes escaparam.

Em janeiro de 2026, as exportações brasileiras para os EUA caíram 25,5%, passando de US$ 3,22 bilhões em 2025 para US$ 2,4 bilhões. As importações dos EUA também recuaram, mas em ritmo menor (queda de 10,9%). No fim das contas, a balança comercial com os EUA ficou negativa em US$ 668 milhões.

Apesar desse cenário, o Brasil conseguiu diversificar destinos. Enquanto as vendas para os EUA encolheram, os números para a China subiram 17,4%, chegando a US$ 6,47 bilhões. O México registrou um crescimento de 24,4% (US$ 411 milhões) e o Oriente Médio avançou 31,6% (US$ 1,78 bilhão). Mesmo com a queda nas exportações para a União Europeia (‑6,2%) e para o Mercosul (‑13,5%), o ganho nos outros mercados foi suficiente para fechar o mês no azul.

Por que a diversificação funciona?

Quando a gente depende muito de um único parceiro comercial, qualquer mudança nas políticas desse país pode causar um efeito dominó. O tarifaço foi exatamente esse choque: uma política externa que poderia ter arrastado o Brasil para um déficit maior.

Ao ampliar a presença em mercados como China, México e Oriente Médio, o Brasil criou “almofadas” contra choques externos. Essa estratégia tem duas vantagens práticas:

  1. Reduz a vulnerabilidade a tarifas e sanções.
  2. Aumenta a competitividade dos nossos produtos, pois eles passam a atender padrões e exigências de diferentes regiões.

Além disso, a negociação entre o presidente Lula e o governo dos EUA ajudou a retirar algumas restrições – carne bovina, café, açaí e cacau foram tirados da lista de produtos tarifados em novembro passado. Ainda assim, parte da pauta permanece tarifada, o que significa que a diversificação não é apenas uma estratégia de curto prazo, mas um caminho de longo prazo.

Impactos para o consumidor brasileiro

Você pode estar se perguntando: “E eu, que não lido com comércio exterior, como isso me afeta?” A resposta está nos preços que pagamos nos supermercados e nas lojas de eletrodomésticos. Quando as importações caem – como aconteceu com produtos norte‑americanos – há menos concorrência, o que pode elevar os preços de alguns bens.

Por outro lado, o aumento das exportações gera receitas que ajudam a equilibrar a conta externa do país. Esse equilíbrio pode se traduzir em menos pressão sobre a taxa de câmbio, o que, por sua vez, pode manter o real mais estável. Um real estável costuma ser bom para quem compra produtos importados, como eletrônicos ou roupas de marcas estrangeiras.

Então, apesar de o “tarifaço” parecer uma notícia assustadora, o fato de o Brasil ter conseguido virar o jogo mostra que políticas de diversificação e negociação diplomática podem proteger o bolso do cidadão.

O que esperar nos próximos meses?

Olho para o futuro com um misto de otimismo e cautela. Se o Brasil continuar a ampliar sua presença em mercados emergentes e a negociar acordos mais favoráveis com os EUA, podemos esperar que o superávit se mantenha ou até cresça.

Entretanto, há variáveis fora do nosso controle: a volatilidade dos preços das commodities, crises geopolíticas e mudanças nas políticas comerciais de outros grandes players. Por isso, é importante que empresários, agricultores e exportadores estejam atentos às tendências e busquem sempre novos parceiros.

Para quem acompanha a economia de perto, a lição aqui é clara: não coloque todos os ovos na mesma cesta. A diversificação não é só um jargão de investimentos; é uma necessidade real para a saúde da balança comercial.

Se você tem um pequeno negócio que depende de importação ou exportação, vale a pena analisar se há mercados alternativos que ainda não foram explorados. Às vezes, uma mudança de rota pode ser a diferença entre lucrar ou perder dinheiro.

Em resumo, o superávit de US$ 4,32 bilhões em janeiro não é só um número bonito; é a prova de que, mesmo diante de políticas protecionistas, o Brasil tem capacidade de se adaptar, inovar e encontrar novos caminhos. E isso, no fim das contas, é uma notícia boa para todos nós.