Nos últimos meses, o caso Banco Master tem sido pauta constante nos noticiários e nas conversas de quem acompanha economia. Mas, além das discussões sobre fraudes e processos judiciais, há uma questão que afeta diretamente o bolso de milhões de brasileiros: quem vai arcar com o prejuízo que pode chegar a dezenas de bilhões?
O que aconteceu com o Banco Master?
Em novembro de 2023 o Banco Master foi liquidado e seu controlador, o banqueiro Daniel Vorcaro, foi preso na Operação Compliance Zero. A falência do banco desencadeou a liquidação de ativos, inclusive do Will Bank, que pertencia ao Master. Juntas, essas liquidações deixaram um rombo de cerca de R$ 47 bilhões no Fundo Garantidor de Crédito (FGC), que funciona como um seguro para investidores que têm até R$ 250 mil aplicados em instituições financeiras.
Por que o FGC não cobre tudo?
O FGC é mantido por contribuições dos próprios bancos, não por recursos públicos. Quando o Master foi liquidado, o fundo cobriu apenas os limites de até R$ 250 mil por cliente. Os investimentos que ultrapassaram esse valor – como as letras financeiras vendidas ao Banco Master – ficam sem garantia. Assim, o prejuízo maior recai sobre quem comprou esses títulos: fundos de previdência, bancos públicos e, em última instância, os contribuintes.
Fundos de pensão na linha de fogo
Vinte e um fundos de previdência própria (RPPS) investiram, desde 2023, mais de R$ 1,42 bilhão em ativos do Master. O caso mais emblemático é o da Rioprevidência, que gerencia as aposentadorias do Rio de Janeiro. Em oito meses, ela aplicou R$ 970 milhões em letras financeiras do banco. Como essas letras não têm cobertura do FGC, a possibilidade de perda total recai sobre o próprio fundo e, consequentemente, sobre os servidores e pensionistas que dependem dele.
O risco para os contribuintes de Amazonas, Amapá e Rio de Janeiro
Além dos fundos de pensão, o Banco de Brasília (BRB), controlado pelo Governo do Distrito Federal, comprou carteiras de crédito do Master no valor de R$ 12,2 bilhões. Investigações apontam que parte dessas carteiras era falsa ou supervalorizada. O Banco Central estima que o BRB pode precisar de até R$ 5,5 bilhões de capitalização para equilibrar suas contas.
Se o BRB precisar de aporte público, o dinheiro virá dos cofres estaduais e municipais, impactando diretamente os contribuintes do Amazonas, Amapá e Rio de Janeiro, que já enfrentam desafios fiscais. Em Rio, a Rioprevidência cuida de mais de 240 mil beneficiários; qualquer déficit pode significar aumento de contribuição dos servidores ou corte de serviços públicos.
Como o prejuízo pode ser socializado?
Especialistas como o professor Kleber Galerani explicam que, quando um banco privado entra em falência e deixa dívidas, o Estado pode ser chamado a garantir o pagamento, sobretudo quando há recursos públicos envolvidos, como no caso do BRB. Essa “socialização do prejuízo” acontece de duas formas principais:
- Aumento de contribuições: servidores ativos e aposentados podem ter que pagar mais para que o fundo de pensão volte a ficar positivo.
- Aportes diretos do governo: o Estado ou município pode usar recursos de outras áreas, elevar impostos ou contrair dívida para cobrir o rombo.
Ambas as opções geram debate. Enquanto alguns defendem que o aumento de contribuição é mais justo, pois quem se beneficiou do investimento deve arcar com a perda, outros alertam que isso pode sobrecarregar ainda mais servidores já com salários estagnados.
O que a Justiça pode fazer?
Os fundos de pensão têm buscado a via judicial para tentar reaver o que investiram. O ex‑presidente da Rioprevidência, Deivis Marcon Antunes, foi preso por suspeita de obstrução de justiça. No Amapá, a Polícia Federal realizou operação para investigar a Amprev, que investiu cerca de 4,7% do seu patrimônio no Master.
Se os tribunais reconhecerem que houve fraude ou má gestão, os fundos podem receber indenizações, mas o processo costuma ser longo e incerto. Enquanto isso, a população espera respostas rápidas, sobretudo porque o medo de ficar sem aposentadoria é real.
Perspectivas para o futuro
O caso Banco Master serve de alerta para investidores, gestores de fundos e autoridades. Ele demonstra a importância de diversificar investimentos e de analisar a solidez das contrapartes. Para o poder público, fica a lição de que a supervisão sobre os investimentos de fundos de pensão precisa ser mais rigorosa, evitando que recursos de servidores sejam aplicados em ativos de alto risco sem garantias adequadas.
Em termos de política econômica, a situação pode pressionar o governo a rever o papel do FGC e a criar mecanismos de proteção mais amplos para investimentos de grande porte, especialmente quando envolvem recursos públicos. Também pode incentivar a criação de normas mais claras sobre a participação de bancos públicos em operações de compra de ativos de instituições privadas em crise.
Enquanto isso, o que podemos fazer como cidadãos? Acompanhar as notícias, cobrar transparência dos gestores de fundos de pensão e entender como nossos impostos são utilizados são passos simples, mas fundamentais. Afinal, quando o risco de um rombo bancário se transforma em risco de aumento de impostos ou diminuição de serviços, todos somos parte da solução.
Se você tem dúvidas sobre como seu fundo de pensão está investindo ou quer saber se há risco para sua aposentadoria, vale a pena conversar com o RH da sua instituição ou buscar orientação de um consultor financeiro independente. Informação é a melhor arma contra surpresas desagradáveis.



