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Por que o petróleo não disparou mesmo com as ameaças de Trump ao Irã e à Venezuela?

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Por que o petróleo não disparou mesmo com as ameaças de Trump ao Irã e à Venezuela?







Se você tem acompanhado as notícias de política internacional, provavelmente já viu os últimos discursos de Donald Trump sobre Irã e Venezuela. A expectativa, na maioria das vezes, é que essas declarações causem uma explosão nos preços do petróleo. Mas, surpreendentemente, o barril ainda está se mantendo numa faixa entre US$ 60 e US$ 65. Vamos entender por que esse cenário está acontecendo e o que isso significa para o nosso bolso.

O que está acontecendo no mercado global?

Desde o início de 2026, o mercado de petróleo vive um momento de excesso de oferta. Países produtores como Estados Unidos, Arábia Saudita, Rússia e até a própria Venezuela têm mantido níveis de produção elevados. Quando a oferta supera a demanda, os preços tendem a cair ou, no máximo, ficar estáveis.

Trump, Irã e Venezuela: o que mudou?

Nos primeiros dias do ano, Trump ordenou um ataque à Venezuela que resultou na prisão de Nicolás Maduro. Poucos dias depois, ele anunciou que os EUA assumiriam temporariamente a administração das vendas de petróleo venezuelano. No Irã, ele chegou a sugerir um ataque, gerando medo de interrupções no Estreito de Ormuz.

Essas ameaças provocaram reações imediatas nos mercados: o Brent subiu 1,6% em um dia, mas despencou 7% no seguinte. O preço do petróleo iraniano também teve um salto de 4% antes de recuar novamente. O ponto chave aqui é que o efeito foi muito curto. Os investidores já tinham incorporado esses riscos nos preços, então a volatilidade acabou sendo absorvida rapidamente.

Por que o excesso de oferta ainda pesa mais?

Mesmo com a possibilidade de interrupções em duas regiões estratégicas, a realidade é que a produção global ainda está acima da demanda prevista para 2026. Analistas da XP, da ANP e do Instituto Brasileiro de Petróleo (IBP) concordam que o mercado está focado em números de produção, não em ameaças pontuais.

  • Os campos de petróleo dos EUA e da Rússia continuam operando em alta capacidade.
  • A Arábia Saudita tem mantido sua política de produção para equilibrar o mercado.
  • Investimentos em novas tecnologias (fracking, extração offshore) aumentaram a oferta nos últimos anos.

Esses fatores criam um “colchão” que absorve choques geopolíticos temporários.

Efeito nos preços no Brasil

No nosso país, o preço do barril influencia diretamente a gasolina, o diesel e até a inflação. Quando o petróleo está barato, há duas consequências principais:

  1. Alívio na inflação: Menor pressão sobre os combustíveis ajuda a conter o aumento dos preços na cesta básica.
  2. Impacto nas contas públicas: Menores royalties, participações especiais e dividendos da Petrobras reduzem a arrecadação federal, estadual e municipal.

Além disso, a política de preços da Petrobras tenta reduzir a volatilidade na bomba, o que faz com que a queda do barril nem sempre se traduza em preços mais baixos para o consumidor. A empresa ainda repassa apenas cerca de um terço do custo do petróleo ao preço final da gasolina.

Por que a gasolina ainda parece cara?

Alguns pontos explicam essa sensação:

  • Custos de refino: A produção de gasolina exige energia e manutenção de refinarias, custos que não desaparecem com a queda do barril.
  • Logística e impostos: Transporte, armazenamento e a carga tributária (ICMS, PIS/COFINS) representam grande parte do preço final.
  • Política de paridade: A Petrobras busca alinhar seus preços ao mercado internacional, mas ajusta margens para evitar oscilações bruscas.

Por isso, mesmo com o barril em US$ 60‑65, a bomba pode continuar acima de R$ 6,00.

O futuro da Venezuela e do Irã

Se os EUA realmente controlarem as vendas de petróleo venezuelano, o impacto será limitado. A Venezuela produz um petróleo pesado, que exige refino avançado – algo que muitas refinarias brasileiras ainda não dominam. Além disso, a retomada da produção em escala significativa levaria pelo menos dois anos, e a recuperação dos níveis dos anos 1970 poderia levar até oito.

No Irã, a situação do Estreito de Ormuz já está precariamente precificada. Os mercados sabem que qualquer interrupção pode acontecer, mas também sabem que há rotas alternativas e estoques estratégicos que amortecem o choque.

O que isso significa para nós, leitores?

Em resumo, a mensagem principal é: não se deixe levar apenas pelos títulos sensacionalistas. As ameaças geopolíticas são importantes, mas o que realmente determina o preço do petróleo são os números de oferta e demanda. Para o consumidor brasileiro, isso se traduz em duas coisas:

  • Fique de olho nas decisões da Petrobras sobre preços – elas têm mais peso no valor que você paga na bomba.
  • Acompanhe a política fiscal: se os preços do petróleo permanecerem baixos por muito tempo, o governo pode precisar compensar a queda de arrecadação com ajustes em outros tributos ou cortes de gastos.

Em termos de investimento, o cenário de excesso de oferta pode tornar projetos de exploração mais arriscados, mas também abre oportunidades para quem busca tecnologias de refino mais eficientes ou fontes de energia alternativas.

Conclusão

Apesar das declarações de Trump, o petróleo não disparou porque o mercado está saturado. O excesso de oferta está “segurando” os preços, e isso traz tanto benefícios (menos inflação) quanto desafios (menos receita para o Estado). A melhor estratégia para quem quer entender o impacto no dia a dia é acompanhar não só as notícias internacionais, mas também as políticas internas da Petrobras e as decisões fiscais do governo.

E aí, o que você acha? Vai mudar algo no seu bolso nos próximos meses? Compartilhe sua opinião nos comentários!