Quando ouvi falar pela primeira vez que o Brasil ainda tem menos auditores-fiscais do Trabalho do que o recomendado pela Organização Internacional do Trabalho (OIT), confesso que pensei que fosse apenas mais um número em uma planilha burocrática. Mas, ao mergulhar nos detalhes, percebi que essa falta de profissionais tem consequências bem reais para o nosso dia a dia – desde a segurança no canteiro de obras até a luta contra o trabalho escravo.\n\nNeste texto eu quero conversar com você sobre o que está acontecendo, por que ainda não chegamos ao patamar recomendado e, principalmente, como isso afeta a vida de quem trabalha no Brasil. Vou trazer um panorama histórico, analisar os números recentes, discutir os impactos na prática e ainda apontar alguns caminhos que podem ser seguidos. Tudo de forma simples, sem jargões e com exemplos que dão sentido ao assunto.\n\n
\n\n## O que mudou com o Concurso Nacional Unificado (CNU)\n\nEm dezembro de 2023, 829 novos Auditores-fiscais do Trabalho (AFT) tomaram posse após a primeira edição do Concurso Nacional Unificado (CNU). Essa foi a primeira vez que o país conseguiu reunir, em um único certame, candidatos de todo o território para um cargo tão estratégico. O efeito imediato foi o aumento do efetivo de cerca de 1,8 mil para aproximadamente 2,7 mil profissionais – o maior número registrado nos últimos dez anos.\n\nMas, apesar desse salto, ainda estamos longe do que a OIT considera adequado. Segundo os estudos da agência, para uma população economicamente ativa (PEA) de mais de 108 milhões de pessoas, o Brasil precisaria de, no mínimo, 5,5 mil auditores em atividade. Hoje, mesmo com a nova leva, o número oficial de cargos disponíveis chega a 3,6 mil, e ainda há um déficit de mais de 2,7 mil servidores, de acordo com os critérios internacionais.\n\n
\n\n## Por que esses números importam?\n\nVocê pode estar se perguntando: “E daí? Por que eu devo me preocupar se faltam alguns auditores?”. A resposta é simples: o auditor-fiscal do Trabalho é a primeira linha de defesa dos direitos dos trabalhadores. Ele fiscaliza se as empresas cumprem a legislação trabalhista, verifica condições de segurança, combate o trabalho infantil e análogo à escravidão, e ainda tem o poder de embargar ou interditar atividades que ofereçam risco grave. Quando há menos profissionais para cobrir um país do tamanho do Brasil, a fiscalização fica sobrecarregada e muitas violações passam despercebidas.\n\n### Impactos diretos na população\n\n- **Trabalho escravo e infantil:** Em 2025, foram resgatados 2,7 mil trabalhadores de situações análogas à escravidão, um aumento de 26,8% em relação a 2024. O número de denúncias também bateu recorde, ultrapassando 4,5 mil. Cada caso não investigado pode significar mais vítimas.\n- **Acidentes e saúde mental:** Mais de 546 mil afastamentos por questões de saúde mental foram registrados em 2025, principalmente por ansiedade e depressão, que têm forte relação com riscos psicossociais no ambiente de trabalho. A presença de auditores pode identificar e corrigir essas situações antes que se tornem crises.\n- **Informalidade:** O índice de informalidade atingiu 31,77% em 2024, o maior da série histórica. Estudos do Ipea mostram que a queda no número de auditores está diretamente ligada ao aumento da informalidade, pois menos inspeções significam menos pressão para que empregadores regularizem suas atividades.\n\n## Um histórico de altos e baixos\n\nPara entender o porquê da situação atual, vale olhar para a trajetória dos auditores nos últimos 35 anos. O pico histórico foi em 1996, com 3.423 servidores, resultado de um concurso realizado em 1994. Desde então, o quadro foi encolhendo gradualmente. Entre 2013 e 2023, não houve concursos de grande escala, o que gerou um efeito acumulado de aposentadorias e desligamentos. Hoje, o Brasil tem o menor número de AFTs em pelo menos 30 anos.\n\nA primeira edição do CNU, apesar de ter trazido 829 novos profissionais, ainda ficou aquém das expectativas. Muitos candidatos foram reprovados no curso de formação, outros desistiram ou foram eliminados por irregularidades. O cadastro de reserva reúne cerca de 1.770 nomes, mas apenas cerca de 70 candidatos serão convocados para um novo curso ainda sem data definida. Essa lentidão na nomeação tem raízes em questões burocráticas entre o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) e a Secretaria de Gestão de Pessoas (SGP).\n\n
\n\n## O que dizem os profissionais da linha de frente\n\nConversamos com Mario Diniz, auditor com 19 anos de experiência, e ele descreve a situação como “um colapso iminente da fiscalização”. Segundo ele, a falta de auditores afeta todas as áreas: desde o combate ao trabalho escravo até a prevenção de acidentes em fábricas e canteiros de obras. Na Bahia, por exemplo, há apenas um auditor responsável por fiscalizar todo o estado em relação ao trabalho infantil – uma tarefa impossível de ser cumprida de forma eficaz.\n\nJennifer Toniolo, integrante do cadastro de reserva do CNU 2024 e líder do movimento Amplia AFT, alerta que a situação tende a piorar. Muitos servidores que ingressaram nos anos 80 e 90 já recebem abono de permanência e podem se aposentar a qualquer momento. A saída desses profissionais experientes vai agravar ainda mais o déficit, a menos que haja uma reposição massiva.\n\n## Por que ainda não alcançamos os 5,5 mil?\n\n### Falta de vontade política?\n\nDiversos especialistas apontam que o problema não é falta de recursos financeiros. Cada auditor-fiscal gera mais arrecadação do que custa ao Estado, principalmente por meio de multas, regularização de FGTS e INSS. O que falta, segundo eles, é visão política e prioridade na agenda governamental. O Ministério do Trabalho já enviou ofícios pedindo a criação ou transformação de 2 mil cargos, mas até agora nada foi aprovado no Projeto de Lei Orçamentária Anual (PLOA) de 2026.\n\n### Burocracia e disputa institucional\n\nA própria estrutura de gestão tem gerado atrasos. O MTE depende de portarias assinadas pelo ministro do Trabalho para abrir novos cursos e convocar candidatos. Enquanto isso, a Secretaria de Gestão de Pessoas (SGP) e o Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos (MGI) dividem responsabilidades, o que cria gargalos. Sem uma decisão clara, os candidatos ficam à espera, e o cadastro de reserva vai se acumulando.\n\n### Concorrência e fraudes\n\nO CNU 2024 foi um dos concursos mais concorridos da história: 315 mil inscritos, 166 mil compareceram às provas, resultando em 184,8 candidatos por vaga – mais que a concorrência do curso de Medicina da USP. Essa disputa gerou também fraudes, com casos de respostas idênticas e suspeitas de cola, que atrasaram ainda mais a homologação dos resultados.\n\n## O que isso significa para você, trabalhador ou empregador?\n\n### Para o trabalhador\n\n- **Menos inspeções = mais risco:** Se a empresa não for fiscalizada, há maior chance de que normas de segurança sejam negligenciadas. Isso pode resultar em acidentes graves ou em condições de trabalho que prejudiquem a saúde mental.\n- **Dificuldade de denunciar:** Sem auditores próximos, o trabalhador pode encontrar mais obstáculos para registrar denúncias ou ter seu caso investigado. Em regiões como o Norte e Nordeste, onde a presença de fiscais é ainda menor, o problema se intensifica.\n- **Maior vulnerabilidade ao trabalho infantil:** Como vimos, apenas 0,2% dos casos de trabalho infantil são identificados pelas fiscalizações. Isso significa que milhares de crianças ainda podem estar em risco sem que ninguém perceba.\n\n### Para o empregador\n\n- **Insegurança jurídica:** A falta de auditorias regulares pode criar um ambiente de incerteza. Empresas que seguem as regras podem ser penalizadas por ações de fiscalização pontuais que não refletem a realidade do seu negócio.\n- **Perda de arrecadação:** Multas e regularizações que poderiam gerar receita para o Estado (e, indiretamente, melhorar a infraestrutura) são reduzidas. Isso pode impactar indiretamente a competitividade do setor.\n- **Imagem e responsabilidade social:** Cada caso de trabalho escravo ou infantil que chega à mídia afeta a reputação da empresa. Uma fiscalização mais robusta ajuda a prevenir esses escândalos.\n\n## Caminhos possíveis – o que pode ser feito?\n\n### 1. Aprovação de novos cargos no orçamento\n\nA solução mais direta seria a criação de, pelo menos, 2 mil novos cargos de auditor, conforme solicitado pelo próprio Ministério do Trabalho. Essa medida permitiria preencher o cadastro de reserva e ainda abrir novas vagas para futuros concursos.\n\n### 2. Modernização da formação e capacitação\n\nO curso de formação dos auditores poderia ser reformulado para ser mais ágil, sem perder a qualidade. Uso de plataformas digitais, módulos de aprendizado híbrido e avaliações online podem acelerar o processo.\n\n### 3. Parcerias com estados e municípios\n\nAlguns estados, como São Paulo, já têm estruturas mais robustas de fiscalização. Uma cooperação intergovernamental poderia distribuir melhor os recursos humanos, permitindo que auditores de regiões com maior déficit (Norte, Nordeste) sejam alocados temporariamente onde a necessidade é maior.\n\n### 4. Incentivo à carreira\n\nAlém do salário inicial de R$ 22.921,70, que já é atraente, poderia haver benefícios como plano de carreira mais claro, bônus por metas atingidas e apoio à formação continuada. Isso ajudaria a reter talentos e a atrair profissionais de áreas correlatas.\n\n### 5. Uso de tecnologia e inteligência artificial\n\nFerramentas de análise de dados podem complementar a atuação dos auditores, identificando padrões de risco em grandes bases de dados (como o Sistema Ipê). Isso permitiria que os poucos auditores disponíveis focassem nas inspeções de maior risco, enquanto a IA faz triagens preliminares.\n\n## Um olhar para o futuro\n\nSe nada mudar, o déficit de auditores pode chegar a níveis críticos, gerando um “apagão” na fiscalização. Já há relatos de cancelamento de operações de combate ao trabalho escravo em janeiro de 2025, deixando dezenas de denúncias sem apuração. Esse cenário pode se agravar à medida que a economia se recupera e o número de trabalhadores formais aumenta, mas a capacidade de inspeção não acompanha.\n\nPor outro lado, se o governo conseguir aprovar os novos cargos, modernizar a formação e integrar tecnologia, podemos esperar uma melhora significativa na proteção dos direitos trabalhistas. Isso traria benefícios diretos à saúde e segurança dos trabalhadores, redução da informalidade e maior arrecadação para a seguridade social.\n\n## Conclusão – por que você deve se importar?\n\nA discussão sobre o número de auditores-fiscais pode parecer distante, mas ela está no coração da garantia de um trabalho digno. Cada auditor que entra em campo pode ser a diferença entre um trabalhador que volta seguro para casa e outro que sofre um acidente grave. Cada inspeção pode impedir que uma criança seja explorada. Cada multa aplicada pode financiar programas de saúde e educação.\n\nPortanto, quando ouvimos falar de números e percentuais, devemos lembrar que por trás desses dados há vidas, famílias e comunidades. Se você é trabalhador, vale a pena cobrar mais fiscalização e apoiar organizações que lutam por melhores condições. Se você é empregador, investir em conformidade não é só questão de evitar multas, mas de construir um ambiente sustentável e responsável. E, como cidadão, acompanhar as decisões do governo sobre a criação de novos cargos é essencial para garantir que o Brasil avance na direção de um mercado de trabalho mais justo e seguro.\n\nA luta por mais auditores-fiscais do Trabalho é, antes de tudo, uma luta por dignidade. Que possamos todos contribuir – seja cobrando, seja se informando, seja apoiando políticas públicas – para que esse número cresça e, com ele, a proteção dos nossos direitos.\n\n